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Divórcio? Fusão? Aliança Renault-Nissan na encruzilhada

Ma Jie e Masatsugu Horie

11/06/2019 12h55

(Bloomberg) -- Renault e Nissan Motor se preparam para um acerto de contas. Depois de duas décadas, a aliança entre as montadoras se encontra abalada pela prisão do ex-presidente da Nissan Carlos Ghosn em novembro e por negociações infrutíferas para uma fusão com a Fiat Chrysler Automobiles.

Selada em 1999, quando a Renault comprou uma participação na montadora japonesa em dificuldades, a aliança - que agora inclui a Mitsubishi Motors - sempre foi marcada por um relacionamento desigual. Enquanto a Nissan é a maior parceira em termos de produção de veículos, a Renault exerce mais controle sobre a montadora japonesa.

Ghosn, que foi acusado de crimes financeiros e será julgado no ano que vem, há muito tempo procurava unir as empresas para ultrapassar a Toyota Motor e a Volkswagen. A Renault estava pronta para reforçar sua posição semanas antes de receber a proposta de fusão da Fiat. Mas a relutância da Nissan em apoiar as negociações frustrou o negócio.

Agora, o presidente da Nissan, Hiroto Saikawa, tenta acalmar os ânimos depois de o presidente do conselho da Renault, Jean-Dominique Senard, ter ameaçado em uma carta vetar indicações importantes para o conselho na reunião de acionistas da Nissan agendada para 25 de junho. A carta também poderia se tornar moeda de barganha para a Nissan conseguir concessões da Renault.

"Estão de volta ao ponto de partida", disse Koji Endo, analista da SBI Securities.

A partir de agora, há dois cenários possíveis para as montadoras:

Reequilíbrio Nissan-Renault

A Nissan pode interpretar a carta de Senard como uma interferência em sua governança, abrindo caminho para reequilibrar sua relação com a antiga parceira. Se a Renault se abster de votar sobre a nova estrutura de governança da Nissan, isso poderia impedir a aprovação da proposta, porque a empresa francesa possui uma fatia de 43% na montadora japonesa, o que dificultaria a adoção de qualquer medida.

Sob o contrato atualizado que rege a aliança, a Nissan tem direito de aumentar sua participação na Renault para mais de 25%, caso a Renault interfira na governança da Nissan. Assim, de acordo com a legislação societária japonesa, os direitos de voto da Renault poderiam ser cancelados. A montadora japonesa atualmente detém 15% da Renault, sem direito a voto.

Possível fusão

O enorme desafio de se adaptar a um setor que incorpora veículos elétricos e autônomos também aumenta a pressão para uma fusão entre Nissan e Renault. Embora as montadoras colaborem, precisam gastar bilhões de dólares para competir com a Toyota e a Volkswagen, que estão cada vez mais dispostas a adotar novas tecnologias.

A aliança emprega mais de 350 mil pessoas em todo o mundo. Embora as montadoras não estejam totalmente integradas, compartilham plataformas de automóveis e linhas de montagem de fábricas para produzir mais de 10 milhões de veículos por ano.

Senard fez uma proposta informal de fusão ao CEO da Nissan em abril. Há um documento de discussão delineando os possíveis termos, e a Renault sinalizou que está pronta para intensificar as discussões assim que a Nissan estiver pronta.

A proposta exige uma estrutura de holding que assegure uma participação igualitária e a representação da Renault e da Nissan no conselho. Esta nova entidade não teria sede no Japão ou na França, disseram pessoas com conhecimento do assunto.

"A Nissan representa quase 100% do valor corporativo da Renault, então, obviamente, a Renault não vai perdê-la", disse Kota Mineshima, analista do Morgan Stanley MUFG. "A Renault quer ter uma fusão completa."

Grande parceria

Embora improvável, a Fiat também poderia reabrir as negociações de fusão negociando diretamente com a Nissan, além da Renault. Ao sugerir uma grande aliança para enfrentar rivais maiores, a Fiat pode atrair a montadora japonesa propondo mais poder em uma montadora global Fiat-Renault-Nissan-Mitsubishi.

--Com a colaboração de Kae Inoue.

Repórteres da matéria original: Ma Jie em Tóquio, jma124@bloomberg.net;Masatsugu Horie em Tóquio, mhorie3@bloomberg.net

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