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Empreendedores cubanos estão na mira dos EUA

20/03/2016 16h50

Sara Gómez Armas.

Havana, 20 mar (EFE).- O emergente setor privado de Cuba está mudando a paisagem do país, onde floresce uma classe empreendedora que contribui, ainda com limitações, à modernização de uma economia que tenta despertar e que está na mira dos Estados Unidos em sua nova política rumo à ilha.

Ciente da importância deste setor como propulsor de mudanças para a Cuba comunista do degelo, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, que aterrissa nesta tarde em Havana, terá amanhã um encontro com representantes dos empreendedores e pequenos empresários cubanos que na ilha são conhecidos como "cuentapropistas" (uma expressão local para designar os que trabalham por própria conta, que tem o próprio negócio).

De fato, o governo americano aprovou no último ano quatro pacotes de medidas para afrouxar o embargo sobre a ilha. Em geral, eles têm o objetivo de melhorar o bem-estar dos cubanos e encorajar o desenvolvimento desse setor autônomo.

"Eles querem ajudar a economia cubana a crescer, não só o 'cuentapropista'. Eu, por exemplo, dou emprego a 20 pessoas. Ou seja, são 20 famílias que vivem de um salário que é muito superior ao pago por empresas estatais", explicou à Agência Efe Niuris Higueras, proprietária do restaurante El Atelier, que cresceu 50% desde 17 de dezembro de 2014.

Ela, uma das pioneiras do "cuentapropismo" na ilha e que participou em Washington (EUA) de conferências sobre o papel da iniciativa privada para uma Cuba próspera, afirmou que, embora os Estados Unidos ajudem estes negócios com a importação de equipamentos e materiais, cabe ao governo cubano ampliar os espaços ao setor privado.

O fato é que desde que o governo de Raúl Castro abriu espaço à iniciativa privada em 2010, um dos pilares das reformas para atualizar o modelo socialista da ilha, já são 500 mil empreendedores que montaram seus negócios que antes eram limitados, como restaurantes, hotéis, academias e salões de beleza. Cinco anos depois de ampliar as categorias para o trabalho por conta própria, hoje quase 30% da força do trabalho de Cuba já vive da iniciativa privada se forem somados os "cuentapropistas", os assalariados autônomos e as cooperativistas.

"Esse avanço é muito importante para que a economia de Cuba continue progredindo e o próprio governo cubano já reconhece a utilidade de ter um setor privado", afirmou à Efe o embaixador interino dos Estados Unidos em Cuba, Jeffrey DeLaurentis, que admitiu que grande parte das medidas aprovadas por seu país no último ano "são diretamente dirigidas a potencializar a iniciativa privada".

Segundo o diplomata, o governo americano olha com atenção esse setor, pois é um "elemento muito importante para melhorar a vida dos cubanos e dar a eles mais espaço para desempenhar um papel determinante no futuro de Cuba".

Os próprios empreendedores e microempresários cubanos são conscientes de que o calor de sua atividade fez nascer uma espécie de classe média, com um poder aquisitivo claramente mais alto. Hoje, não é estranho ver cubanos em restaurantes e supermercados que há alguns anos eram frequentados somente por estrangeiros.

"Que o 'cuentapropismo' constitui uma classe social é algo real e o próprio governo começou a aceitar que existem classes. Há uma classe 'cuentapropista' com renda muito superior, que não propicia ficar milionário, mas viver muito melhor do que o restante da população", admitiu à Efe Isabel Jacas, microempresária que aluga duas casas, uma em Havana e outra em Varadero.

No entanto, ela ressaltou em que esta nova classe média também nutre a economia nacional, já que gasta seus lucros dentro do país.

"Fazemos compras em Cuba, saímos para jantar em Cuba e pagamos impostos em Cuba", explicou.

Embora sempre tenham existido, neste novo contexto as diferenças sociais se tornaram muito mais evidentes. Grande parte dos 11 milhões de habitantes da ilha depende de salários controlados pelo Estado, que giram em torno de US$ 20 por mês (pouco mais de R$ 70). O valor é insuficiente perante o constante aumento dos preços que experimenta um país que recebe cada vez mais turistas e empresários estrangeiros, que empurram os preços dos serviços e produtos básicos para cima.

"O 'cuentapropismo' não acentuou as diferenças sociais. Quem era pobre em Cuba continua sendo. Mas o trabalho por conta própria deixou essas diferenças mais visíveis", apontou Omar Everleny, economista do Centro de Estudos Econômicos de Cuba.

Segundo ele, a "origem" do problema está nos salários, já que 67% dos cubanos trabalham em empresas públicas, afetadas por históricos problemas de eficiência e produtividade que impedem um aumento salarial de acordo com o novo nível de vida que está se impondo na Cuba da "atualidade".

sga/cdr

(foto) (vídeo)