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Coleta de sementes vira arma contra desmatamento na Chapada dos Veadeiros

24/03/2018 09h57

Isadora Camargo Ortiz.

São Jorge (Goiás), 24 mar (EFE).- Consumido pelas chamas de um recente incêndio, o Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros sofre com o avanço da agricultura e a especulação imobiliária, mas seu desmatamento tenta ser contido agora através da coleta de sementes.

Considerado como um "refúgio" do cerrado, a reserva situada no interior de Goiás teve 26% do seu território aniquilado pelas chamas no maior incêndio de sua história, ocorrido em outubro de 2017, e procura agora "renascer" das cinzas.

Declarado Patrimônio Natural em 2001, o parque é considerado uma das áreas de conservação mais importantes da América Latina, com aproximadamente 12 mil espécies diferentes, segundo o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).

No entanto, a área do parque vem diminuindo progressivamente nos últimos anos e passou de 625 mil hectares desde a sua criação, em 1961, a 65 mil hectares, em 2016.

Após a drástica redução e a pressão de ambientalistas, o governo assinou um decreto no ano passado que ampliou para 240 mil hectares a área total do parque.

Na luta pela preservação do território, o ICMBio e a Associação de Coletores de Sementes 'Cerrado de Pé' iniciaram em 2009 um programa, que ainda está em fase experimental, para o "resgate" da região através da reflorestação em pequena escala.

A iniciativa procura recuperar parcelas de terra do cerrado que foram prejudicadas pela ação do homem e, para isso, o projeto decidiu oferecer uma renda a algumas famílias para que substituíssem a agricultura pela coleta e plantação de sementes nos espaços que precisam ser recuperados.

"Os agricultores que viam a planta como um obstáculo começaram a vê-la como uma fonte de renda sustentável, já que as famílias deixam de desmatar com a agricultura e começam a colher sementes", explicou à Agência Efe Claudomiro Cortes, presidente da associação.

Cortes conta que, entre 2009 e 2016, a associação treinou 66 famílias, que deixaram a agricultura tradicional para se dedicar a plantar espécies nativas que "nascem rapidamente".

O envolvimento comunitário "foi fantástico" e as famílias perceberam que o novo trabalho, além de sustentável, tinha se transformado em sua principal fonte de renda.

Até o momento, o projeto experimental já restaurou 105 hectares do bioma, o equivalente a 105 campos de futebol.

"Estão imitando a regeneração natural, o que já trouxe um impacto na fauna e na flora do lugar. Depois que uma parte da área se recupera, espécies vegetais e animais ressurgem no espaço", mencionou Cortes.

De acordo com o diretor do ICMBio, Fernando Tatagiba, cerca de 50% do cerrado tem se extinguido, mas, através da restauração ecológica e do aumento da área do parque, há uma "grande expectativa" para a conservação desse ecossistema.

Atualmente, o parque tem uma vegetação junto ao solo, com rochas de mais de um bilhão de anos e 466 nascentes de água.

Na região, trilhas de dois a 12 quilômetros levam a cachoeiras como a do Mirante da Janela, formação rochosa que se assemelha a uma janela, de onde se pode avistar a queda d'água de Saltos do Rio Negro.

A Chapada dos Veadeiros é reconhecida como um importante berço hidrográfico nacional e tem fama esotérica especialmente pela lenda do paralelo 14, linha imaginária que atravessa Machu Picchu, no Peru, e que também corta o município de Alto Paraíso, onde se concentram 40% da área do parque.

Situado sobre uma enorme placa de quartzo, Alto Paraiso é cercado de cristais e pedras místicas que reluzem entre as águas das cachoeiras e encantam os visitantes.

O município, situado a 230 quilômetros de Brasília, recebe cerca de 60 mil visitantes por ano e impulsiona o turismo da região centro-oeste.

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