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Ratificação do pacto entre UE e Mercosul será "complicada", diz analista

10/07/2019 11h22

Pedro Pablo Cortés.

Madri, 10 jul (EFE).- O processo para ratificar o pacto entre o Mercosul e a União Europeia (UE) é "complicado", dado o descontentamento do setor agropecuário europeu e a política interna de países como França, Argentina e Brasil, advertiu nesta quarta-feira Carlos Malamud, pesquisador principal do Real Instituto Elcano da Espanha.

Em entrevista concedida à Agência Efe, o acadêmico explicou que podem se passar dois ou três anos até que a parte comercial do acordo seja aprovada e até cinco anos no caso dos aspectos de diálogo político e cooperação, uma vez que é necessário que os parlamentos dos países e a Eurocâmara aprovem o tratado, dada sua natureza mista.

Embora o acordo político tenha sido assinado em 28 de junho, após 20 anos de negociações, Malamud observou que há dinâmicas políticas que entorpeceriam a ratificação final do pacto, que criaria um mercado de 780 milhões de consumidores e economizaria para a Europa 4 bilhões de euros ao ano em tarifas.

"É preciso prestar atenção no barulho que podem fazer aqueles setores mais afetados pela assinatura do tratado, alguns setores empresariais nos países do Mercosul, os sindicatos agrícolas e criadores de gado na Europa", comentou.

No caso europeu, o professor apontou que França, Polônia e Irlanda têm setores agropecuários "potentes" que questionaram o acordo por colocá-los em desvantagem e pelo suposto perigo que representariam a carne e outros alimentos da América do Sul, onde não existem as mesmas legislações sanitárias que na Europa.

O governo da França, lembrou Malamud, se mostrou especialmente reticente em apoiar o tratado pelas recentes revoltas dos "coletes amarelos", vinculados com a população rural.

"Uma das caraterísticas do movimento dos 'coletes amarelos' eram as palavras de ordem antiglobalização e, de alguma maneira, são os mesmos que se escondem por trás da postura de muitos sindicatos criadores de gado e agrícolas franceses contra um tratado como este e que os afeta diretamente", destacou o analista.

Uma das principais exigências do presidente da França, Emmanuel Macron, foi que o Brasil se comprometa a permanecer dentro do Acordo Climático de Paris e que detenha o desmatamento da Amazônia.

No entanto, Malamud considerou que a postura do governante francês responde mais à pressão política interna do que aos problemas internacionais.

"Sobre Macron, que tem uma política europeia bastante comprometida, não acredito que acabará comprometendo-a por resistência contra o tratado do Mercosul", ponderou.

Sobre a possibilidade de as políticas ambientais do Brasil obstaculizarem o progresso do acordo, o professor comentou que dependerá das lutas políticas internas, pois há membros do governo e empresários que desejam expandir a área de terras cultivadas e exploráveis na Amazônia.

"Mas também é verdade que uma grande parte das elites econômicas e das autoridades do Ministério da Economia, e outras, adotaram uma política claramente aberturista, fazendo com que isto esteja se sobressaindo por enquanto", afirmou.

Apesar de tudo indicar que o pacto com a UE será aprovado nos Congressos de Paraguai, Uruguai e Brasil, segundo o professor, outro obstáculo seria a eleição presidencial de outubro na Argentina, onde Alberto Fernández, candidato na chapa da ex-presidente Cristina Kirchner, questionou o pacto.

"Os kirchneristas criticaram o acordo dizendo que é ruim para a Argentina, que é entrega ao capital internacional, e cabe esta possibilidade de ser rejeitado, mas também seria preciso confiar que, caso ganhem, assim que chegassem no governo e pesassem os prós e contras, terminariam ratificando-o", declarou.

Mesmo assim, o acadêmico acredita que os governos nacionais e a UE tomarão as medidas necessárias para proteger os setores mais vulneráveis do tratado, que já contempla um prazo de adaptação mais prolongado, de até 10 ou 15 anos.

Malamud também argumentou que o acordo tem efeitos que vão além do comercial, como o compromisso da UE com a América Latina, as políticas contra a crise climática e melhores práticas sanitárias.

"Em um marco onde as opções multilaterais, devido à política de Donald Trump, estão sendo seriamente ameaçadas, a perspectiva da Europa de insistir nas virtudes desta política é muito importante", concluiu. EFE