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Efeito da crise política na economia brasileira já é inevitável

Paulo Guedes ao lado de Jair Bolsonaro: economistas avaliam impacto da crise política na economia - SERGIO LIMA/AFP
Paulo Guedes ao lado de Jair Bolsonaro: economistas avaliam impacto da crise política na economia Imagem: SERGIO LIMA/AFP

Adriana Fernandes e Idiana Tomazelli

Brasília

12/09/2021 09h05

A crise política impulsionada pelos constantes atritos do presidente Jair Bolsonaro com outros poderes contaminou a economia real de tal maneira que nem a recente trégua sinalizada pelo chefe do Executivo deve ser suficiente para conter o "efeito dominó". Ao fomentar o clima beligerante, o presidente ampliou a desvalorização do real frente ao dólar, encarecendo alimentos e combustíveis, e colocou no radar de economistas a perspectiva de juros mais elevados e crescimento mais tímido em 2022.

A turbulência política se soma a outras crises: fiscal, sanitária, energética e até de abastecimento, devido à paralisação de caminhoneiros e também à falta de alguns insumos provocada pela pandemia de covid-19. Do lado das soluções, governo e Congresso patinam no marasmo e ainda não apontaram uma solução para viabilizar o Orçamento de 2022, hoje um dos principais focos de incerteza.

Ninguém sabe ainda qual será o real tamanho do Auxílio Brasil, sucessor do Bolsa Família, e quanto da fatura de R$ 89,1 bilhões em dívidas judiciais (precatórios) será paga de fato no ano que vem. Sem ter como fazer a conta, os investidores colocam um prêmio de risco para topar colocar seu dinheiro no País, levando a uma alta nos juros futuros. Um juro elevado esfria a economia e prejudica o crédito e a volta do emprego.

A incerteza também se reflete no dólar. Depois das manifestações de 7 de Setembro, a moeda americana chegou a valer R$ 5,32, mas foi abaixo de R$ 5,20 quando foi divulgada a declaração mais amistosa de Bolsonaro. Mas, na sexta-feira, o câmbio voltou a subir e fechou em R$ 5,26. A subida do dólar acelera a inflação - movimento que o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), chamou de "looping negativo". Na sexta, o próprio Bolsonaro admitiu que suas falas vinham tendo efeito no câmbio. "Se o dólar dispara, influencia o combustível", disse.

Para o economista André Braz, coordenador de índices de preço do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da Fundação Getulio Vargas (FGV), o dólar deveria estar abaixo de R$ 5, mas a combinação de crises impede que se rompa essa barreira agora. "A carta, ainda que tenha melhorado o humor da Bolsa, não vai reverter esse clima de incerteza. Porque o próprio eleitorado do Bolsonaro vai fazer pressão, quer que mantenha o discurso. Isso não permite que a incerteza diminua."

O impacto do dólar chega muito rapidamente à população, porque o consumo doméstico de alimentos concorre com as exportações. Embora o Brasil seja um dos maiores produtores de soja e carne do mundo, a alta no preço desses produtos no mercado externo leva os agricultores e pecuaristas a vender para quem paga mais. Também afeta o preço dos combustíveis, que ainda sofrem o impacto do valor internacional do petróleo.

Braz também observa que a economia brasileira ainda é muito indexada, isto é, a inflação de hoje serve de referência para corrigir preços nos períodos seguintes. É assim com salários, aluguéis, mensalidades escolares e plano de saúde. Por isso, o movimento observado em 2021 já contamina as expectativas para a inflação do ano que vem, gerando a expectativa de uma atuação mais firme do Banco Central - ou seja, um juro ainda maior.

Pelo menos metade da inflação de 2021 é determinada por componentes energéticos: energia elétrica, gás encanado ou em botijão e combustíveis. Muitos são puxados pelo dólar, mas também, no caso da eletricidade, pela crise hídrica que ameaça o abastecimento e levou o governo a instituir uma cobrança adicional. E a energia afeta outros produtos ou serviços.

"Um shopping gasta com iluminação, independentemente se é dia ou noite. Gasta com refrigeração também o tempo todo, e esse gasto do shopping vai para o condomínio dos lojistas, que têm de repassar para o preço final", exemplifica Braz.

Para Solange Srour, economista-chefe do Credit Suisse Brasil, o superávit comercial brasileiro e a abundância de recursos nas mãos de investidores internacionais deveriam jogar a favor do País, mas não é o que se observa. "A curva de juros continua muito pressionada e o câmbio poderia estar muito melhor pelos fundamentos de balança comercial e o ambiente global muito líquido", avalia.

Solange chama a atenção que a incerteza atrapalha também o controle das expectativas, o que tem afetado a própria inflação. Segundo ela, as tensões que elevam o prêmio de risco do Brasil vão chegar à economia real via crédito, porque a taxa de juros de longo prazo está acima de dois dígitos para 2025.

Para uma trégua nesse ambiente, ela recomenda a votação da PEC dos precatórios, com parcelamentos das dívidas judiciais, e a definição do novo Bolsa Família, de forma a reduzir as incertezas sobre as contas públicas do País. Mas a economista reconhece que nenhum alívio durará muito tempo.

Queda livre

Com as seguidas revisões das projeções para cerca de 1,5%, os economistas já falam na possibilidade de queda do Produto Interno Bruto (PIB) em 2022 e aceleram estimativas para a inflação, o que poder forçar o BC a pesar a mão nos juros, afetando ainda mais a economia. O cenário pode ser agravado por um eventual racionamento de energia.

Para o economista-chefe da XP Investimentos, Caio Megale, a incerteza fiscal com o que pode sair da votação do Orçamento vai direto para o juro futuro, afetando as condições de financiamento das empresas e as perspectivas de crescimento. Megale ressalta que as empresas, quando vai chegando as eleições, naturalmente pisam no freio. O problema é que esse movimento chegou bem antes.

"O que seria de esperar é que essa volatilidade acontecesse quatro, cinco meses antes, e não um ano. É tempo demais para um ambiente tensionado", diz.

O economista André Roncaglia de Carvalho, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), diz que uma saída para esse acúmulo de problemas não é trivial porque o ambiente é de "bagunça" sem o governo oferecer um plano fiscal. Segundo ele, como não estão colocadas na mesa uma mudança na política de preços da Petrobras nem de estoques reguladores de alimentos, para ajudar no controle da inflação, o BC vai ter de usar a oferta de leilões de swap cambial (tipo de contrato ligado ao câmbio) para conter a depreciação do real.

Na contramão, o economista-chefe da CNC (Confederação Nacional de Comércio), Carlos Thadeu de Freitas, diz que a economia brasileira está robusta, apesar dos "barulhos políticos". Ele admite que há sinais de desaquecimento, mas frisa que isso não quer dizer que a economia vai desandar. "A economia continua ancorada em resultados favoráveis. O resto é negativismo e especulação dos investidores que não aceitam perder."

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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