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Novo rebaixamento era esperado e impacto será limitado, dizem especialistas

Juliana Kirihata*

Do UOL, em São Paulo

  • Mike Segar/Reuters

A retirada do selo de bom pagador do Brasil pela agência de classificação de riscos Moody's já era esperada e não terá grande impacto no mercado. A avaliação é de especialistas consultados pelo UOL.

Segundo eles, a perda do chamado "grau de investimento" pelas agências Standard & Poor's, em setembro, e pela Fitch, em dezembro, já havia afugentado os investidores estrangeiros.

Segundo Paulo Gala, gestor estrategista da Fator Administração de Recursos, muitos investimentos já haviam sido sacados antes mesmo de o país perder [o selo de bom pagador] pela segunda agência. "Perder pela terceira é quase que como chover no molhado", diz.

O Tesouro Nacional também indicou, nesta quarta-feira, que não espera uma debandada de investidores.

Fundos exigem selo de bom pagador

Um governo consegue dinheiro vendendo títulos no mercado. Os investidores compram papéis com a promessa de receberem o dinheiro de volta no futuro com juros. Se houver desconfiança sobre essa devolução, fica difícil conseguir vender esses títulos, e o país tem de pagar mais juros aos investidores para compensar o risco maior.

O rating, ou classificação de risco, indica aos investidores se um país, empresa ou negócio é considerado um bom pagador ou não. O chamado grau de investimento é uma espécie de selo de bom pagador e sinaliza que o risco de calote é baixo.

As regras dos fundos, em geral, determinam que o dinheiro só seja aplicado em locais que tenham o grau de investimento. Sem ele, portanto, a maior parte dos fundos internacionais de pensão, que são os grandes detentores de dinheiro no mundo, não poderão mais investir em papéis brasileiros.

Impacto reduzido

Para Simão Davi Silber, professor de Economia da USP (Universidade de São Paulo), os investidores já esperavam por isso. "Quando a Standard & Poor's rebaixou o Brasil, foi uma turbulência maior", diz.

De acordo com Mauro Calil, especialista em investimentos do banco Ourinvest, os maiores impactos ocorreram no primeiro e no segundo rebaixamento, quando houve forte aumento do dólar e da inflação.

"Isso não significa que não seja grave, pois só confirma que o Brasil não está fazendo nada para melhorar sua situação. As contas estão piorando e as consequências sociais são graves, com aumento do desemprego e baixa atividade econômica", afirma.

'Quem não saiu antes perdeu dinheiro'

A Moody's foi a última das três grandes agências de classificação de risco (junto com Standard & Poor's e Fitch) a tirar o grau de investimento do país.

Porém, como esse novo rebaixamento já era esperado, a saída de recursos deve ser limitada. "A maior parte desse investimento já saiu e quem não saiu perdeu muito dinheiro", afirma Silber.

'Lenta agonia'

Além de tirar o selo de bom pagador, a agência Moody's deixou a nota do país em perspectiva negativa, indicando que novos rebaixamentos podem acontecer. A agência citou o alto nível de endividamento público e a dificuldade de adotar medidas, devido à crise política.

Para Calil, o motivo é que "há muita promessa (por parte do governo) e nenhuma atitude".

"O governo conta com muitos ovos no ninho da galinha: conta com CPMF, conta com PIB [Produto Interno Bruto] negativo em 2,5%, conta com aprovação de um monte de impostos, mas não corta praticamente nenhum gasto, especialmente no custeio. Se não vê atitudes do governo em mudar essa situação não há como voltar ao grau de investimento", diz.

O Brasil deve demorar para recuperar o selo de bom pagador, segundo Silber. "É uma lenta agonia. Estamos em crise, mas é um filme em câmera lenta. Talvez demore sete, oito anos para o país voltar ao grau de investimento."

Risco-país sobe

Para André Nassif, professor de MBAs da FGV, o novo rebaixamento piora o risco-país. "O efeito principal é que o risco-país está aumentando, e vão aumentar ainda mais os percentuais de risco para contrair empréstimos internacionais", afirma.

O risco-país é um indicador criado pelo banco JP Morgan, semelhante à nota das agências de avaliação de risco. Ele mede o risco de aplicar recursos em títulos públicos, principalmente em países emergentes, e ajuda os investidores a tomarem decisões.

Quando o risco é maior, os investidores esperam ter um ganho maior em troca. Por isso, um país com maior risco precisa pagar juros mais caros para conseguir dinheiro emprestado. 

Em janeiro, o JP Morgan apontou que está mais seguro investir na Argentina do que no Brasil.

*Colaborou Sophia Camargo

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