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Caixa perde liderança em financiamento da casa própria pelo 4º mês seguido

Vinícius Pereira

Colaboração para o UOL, em São Paulo

27/03/2018 19h57

Por muito tempo, o sonho da casa própria do brasileiro passava por um financiamento da Caixa Econômica Federal. Recentemente, esse cenário parece estar mudando. O banco estatal ainda detém 69% do mercado, mas, pelo quarto mês seguido, perdeu a liderança no financiamento imobiliário com recursos da poupança --modalidade que correspondeu a 45% de todos os financiamentos do banco estatal no ano passado.

Em fevereiro, a Caixa direcionou R$ 783 milhões para esse tipo de financiamento imobiliário, ficando atrás do Bradesco, com R$ 1 bilhão. Os dados são da Abecip (Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança) e foram divulgados nesta terça-feira (27).

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Até outubro, a Caixa sempre havia sido líder nesse quesito, disparada à frente do segundo lugar tanto em número de imóveis financiados quanto em valores. Em novembro, despencou para o quarto lugar, atrás de Itaú Unibanco, Santander e Bradesco, mesma situação que se manteve em dezembro. Em janeiro, Bradesco ficou em primeiro, seguido por Santander, Caixa e Itaú.

Procurada pela reportagem, a Caixa não quis comentar o assunto.

Criada em 1861 ainda por Dom Pedro 2º, a Caixa historicamente teve um papel social no Brasil. O banco estatal foi, tradicionalmente, a principal fonte de recursos para o financiamento imobiliário, principalmente desde 1985, quando a Caixa fundiu-se com o antigo BNH (Banco Nacional da Habitação). O que colocou essa liderança em xeque?

Dificuldade para cumprir regra internacional

Para cumprir normas internacionais que balizam os empréstimos pelo mundo, o banco precisa de mais R$ 15 bilhões, em média, em caixa. Em um primeiro momento, para capitalizar o banco, a Caixa tentou emprestar esses R$ 15 bilhões do FGTS. Após críticas, essa opção foi descartada --pelo menos temporariamente.

Outra saída para levantar o dinheiro seria deixar de repassar parte dos lucros para o Tesouro Nacional, sócio do banco. Isso daria cerca de R$ 10 bilhões. O governo ainda estuda a possibilidade.

Enquanto não encontra uma saída, a Caixa tem fechado as torneiras. "O banco restringiu bastante a oferta de crédito e está com dificuldades para emprestar", afirma Alberto Ajzental, especialista em financiamento imobiliário e professor da FGV.

Volume muito alto de empréstimos

Enquanto a Caixa se vira para arranjar recursos e conseguir cumprir as normas internacionais, os bancos privados não correm tanto risco. Eles sempre foram mais "difíceis" para liberar crédito. Portanto, a tradição social da Caixa criou uma dificuldade para ela mesma.

"Os juros da Caixa sempre foram menores que os concorrentes. A partir de 2008, em um período de 10 anos, o volume de empréstimos da Caixa cresceu nove vezes, enquanto a média dos demais ficou em uma vez e meia", diz Ana Paula Iacovino, professora de economia da Faap.

Desse modo, segundo Iacovino, foi mais fácil para os bancos privados se adequarem às novas normas internacionais para concessão de empréstimos.

Banco privado 'não vai querer todo mundo'

Alguns especialistas, contudo, tentam enxergar como positivo tal mudança de política, já que, com mais concorrência no mercado, o cliente pode ser beneficiado.

"A Caixa sempre teve, em média, dois terços do mercado, com maior capilaridade, expertise, com seus funcionários treinados para isso. A queda da Caixa é ruim. Por outro lado, a gente percebe um crescimento e vontade dos bancos privados para entrar nesse mercado com mais apetite", afirma Flávio Amari, presidente do Secovi-SP (Sindicato da Habitação).

Para Ajzental, porém, os bancos privados não devem tomar o lugar da Caixa tão cedo. "Os outros bancos dificilmente vão absorver todos os clientes que não serão mais financiados pela Caixa. O Itaú Unibanco, por exemplo, tem outro perfil de cliente e não vai querer todo mundo", diz.

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