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Redução do combustível: quais suas motivações e como afeta o consumidor

Lucas Borges Teixeira

Colaboração para o UOL

  • Miguel Schincariol/AFP Photo

    Protesto de caminhoneiros contra aumento dos combustíveis, em São Paulo

    Protesto de caminhoneiros contra aumento dos combustíveis, em São Paulo

A Petrobras anunciou nesta terça-feira (22) redução nos preços de diesel e gasolina nas refinarias a partir desta quarta-feira. O diesel cairá 1,54%, para R$ 2,3351 por litro, no primeiro corte desde 12 de maio, após sete altas seguidas. Já a gasolina diminuirá em 2,08%, para R$ 2,0433 por litro, a primeira redução desde 3 de maio.

O comunicado acontece em meio a discussões dentro do governo sobre a alta dos preços dos combustíveis e uma greve de caminhoneiros que atingiu 19 estados na segunda. No dia seguinte, profissionais voltaram a bloquear rodovias e o porto de Santos. Nesta quarta, caminhoneiros mantiveram a greve à espera de um acordo, com a expectativa de que o governo faça zerar a cobrança do Cide (Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico).

Especialistas ouvidos pelo UOL discutem as motivações para esta queda, como ela pode afetar o consumidor e quais modelos de precificação poderiam ser mais benéficos para o bolso do motorista.

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Ainda não deve chegar ao consumidor

Apesar de ser uma boa notícia, o consumidor não deverá sentir a redução anunciada nesta terça tão rápido. "Já adianto que não vai cair amanhã", afirma Paulo Furquim, professor de regulação do Insper, a reportagem. "A cadeia produtiva do combustível gera um estoque, que leva os preços anteriores, e isso traz uma certa demora para o repasse na bomba."

A diminuição da alíquota da Cide, por exemplo, depende de um decreto do presidente Michel Temer para que passe a valer. A medida, porém, só passará a valer três meses após a assinatura do decreto. De acordo com Furquim, a política de alteração frequente adotada pela Petrobras em julho de 2017 faz com que a cadeia de distribuição deixe a média mais alta.

"Os postos só vão baixar o preço quando reabastecerem com a gasolina mais baixa", explica o especialista. "Só que esse anúncio faz com que eles já fiquem ansiosos e acabem aumentando os preços nas bombas."

Ele pontua que, na prática, como os valores são reajustados quase diariamente, caso os preços voltem a subir, o consumidor pode nem sentir a queda. "Com mudanças tão frequentes, o consumidor não experimenta tanto a queda, mas a alta, sim, ele acaba pagando mais caro por mais tempo", afirma o especialista.

Redução dos preços: política econômica ou pressão política?

A redução dos preços foi anunciada após uma queda de mais de 1% no dólar e em meio a uma greve nacional de caminhoneiros e conversas da Petrobras com o governo federal sobre os sucessivos aumentos do combustível.

Após se reunir com dois ministros nesta terça, Pedro Parente, presidente da estatal, afirmou à imprensa que a queda corrobora o sucesso da política de precificação adotada pela empresa no ano passado.

"A redução de hoje é simples de entender: uma redução importante de câmbio ontem... então é prova de que essa política funciona tanto na direção de subir os preços quanto de cair os preços", afirmou o CEO. 

Os especialistas ouvidos pela reportagem divergem quanto às motivações da redução.

Pedro Raffy Vartanian, professor de economia da Universidade Presbiteriana Mackenzie, afirma ao UOL que a queda condiz com a nova política estabelecida pelo governo há quase um ano.

"A redução, dessa vez, não se deve ao preço internacional do petróleo, mas à variação da taxa de câmbio com a valorização do real, o que quer dizer que o petróleo em real ficou mais barato", afirma Vartanian, pesquisador do Centro Mackenzie de Liberdade Econômica.

O professor pondera que, desde que a nova política foi implantada, houve uma alta consistente do preço internacional do barril somada à alta do dólar e decorrente desvalorização do real. O fortalecimento da nossa moeda nessa semana teria, por consequência, impulsionado a queda. "Por isso não acredito que tenha havido uma mudança na política de precificação", afirma Vartanian referindo-se à pressão dos caminhoneiros.

Gabriel Francisco, analista da XP Investimentos, concorda e alerta para os perigos de uma eventual interferência governamental na política de preços.

"Em um momento de alta volatilidade de câmbio e petróleo, interferir na política de preços da Petrobras seria visto como negativo para a ação devido ao risco para às margens do segmento de refino da empresa", afirma o especialista, por meio de nota enviada ao UOL. Segundo Francisco, esta interferência poderia levar a renúncia de membros do conselho, entre eles o presidente.

Já Furquim não descarta interferência política na decisão tomada pela estatal nesta terça. "Há uma série de elementos que temos de considerar. Uma greve de caminhoneiros tem um poder político relevante, de maneira alguma pode ser ignorado, além disso Parente se reuniu com o governo recentemente. Estamos em ano eleitoral", afirma o professor.

De acordo com o especialista do Insper, há chance do uso político dos preços para "aplacar um pouco a ira do consumidor".

Como exemplo, Furquim cita o anúncio nesta terça do presidente da Câmara, Rodrigo Maia, pré-candidato à presidência pelo DEM, sobre o acerto com o governo para zerar a Cide (Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico) com o objetivo de reduzir o preço dos combustíveis.

"É um populismo", afirma Furquim. De acordo com o especialista, isso será ruim para economia e o consumidor em médio prazo. "A conta virá com o aumento de outros impostos ou da própria Cide em um momento político mais oportuno. Em momentos como este, não se pode zerar uma contribuição."

O novo modelo e seu resultado prático para o consumidor

A Petrobras mudou a política de preços do diesel e da gasolina em julho do ano passado. A área marketing e comercialização da empresa ganhou a liberdade para reajustar as cotações na refinaria de forma mais frequente, inclusive diariamente, com o objetivo de aumentar a competitividade e recuperar receita e participação de mercado.

A nova orientação permitiu que a empresa realize ajustes sempre que achar necessário, dentro de uma faixa determinada, de redução de 7% a alta de 7%. A orientação anterior era de reajuste ao menos uma vez por mês.

Vartanian e Furquim concordam que a regra foi benéfica para o consumidor e para a economia.

"A estratégia anterior de represar o preço fez com que o mercado interno de combustíveis atendesse ao governo e não ao mercado internacional", afirma o professor do Mackenzie. "O caixa da Petrobras teve de suportar o desalinhamento entre lá fora e aqui, foi ruim para a empresa."

Para ele, a política não só não deu certo no setor como foi ruim para toda a economia. "Eles seguraram o preço, mas quando o aumento veio, veio de forma intensa: trouxe alta de inflação e dos juros", afirma Vartanian. "Hoje, o consumidor paga um preço realista. Não há surpresas."

"Essa política é a resposta à uma regra fracassada que mirava não o controle do combustível, mas da inflação", afirma Furquim. "Foi desastroso para diversas indústrias, mas principalmente para o etanol, que não podia subir seus preços para se manter competitivo enquanto seus gastos aumentavam. Ele passou por seu pior momento."

Apesar de necessária, Furquim pontua, no entanto, que a frequência quase diária de reajuste traz uma insegurança no mercado e não tem um efeito prático tão grande.

"Se um dia sobe um pouco e no outro cai um pouco, poderia manter um preço médio", sugere o especialista. "Tem de reajustar, sim. O consumidor deve pagar o que a gasolina está custando, mas o repasse poderia ter uma periodicidade menor."

Segundo Furquim, uma frequência tão grande de reajuste não tem efeito direto na bomba, mas traz certo nervosismo ao mercado. "Nem grandes empresas privadas têm tanto reajuste. Elas seguram um pouco para evitar certo alarde de seus fornecedores, acredito que seja uma política que a Petrobras poderia adotar."

De acordo com o especialista, isso evitaria reações ansiosas por parte dos postos e distribuidores a anúncios de queda e de alta por parte da estatal.

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