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Eleição, dólar, reformas? Que mensagens o BC passou com decisão de juros?

Téo Takar

do UOL, em São Paulo

20/06/2018 20h26

Economistas ficaram especialmente atentos ao comunicado do Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central) divulgado na noite de quarta-feira (20). A decisão de manter a taxa Selic em 6,5% ao ano já era amplamente esperada.

O que os especialistas buscaram no texto foi a avaliação do BC sobre os impactos da greve dos caminhoneiros e também sobre a piora do cenário externo nas últimas semanas.

Chamou atenção o fato de o Banco Central ter aumentado a ênfase sobre a necessidade de realização das reformas estruturais, como a da Previdência.

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Veja quais foram as principais mensagens do documento, na opinião dos economistas consultados pelo UOL.

Greve dos caminhoneiros afetará inflação apenas em junho

A paralisação dos caminhoneiros, realizada nos últimos dias de maio, provocou aumento nos preços principalmente dos alimentos e combustíveis. Mas seus efeitos serão sentidos apenas na inflação do mês de junho.

O Banco Central indicou no comunicado que a alta da inflação não se estenderá ao longo dos meses seguintes. Desta forma, a inflação ainda ficará abaixo do centro da meta estabelecida pelo Banco Central, de 4,5% neste ano. A previsão é que o IPCA encerre 2018 em torno dos 3,9%, segundo economistas consultados pelo Boletim Focus.

A explicação para a inflação controlada está na fraqueza da economia, que impede que a indústria e o comércio repassem aumentos de preços para o consumidor. “Os efeitos da greve na inflação serão mitigados pela ociosidade tanto no mercado de trabalho como no uso do capital produtivo”, diz Tatiana Pinheiro, economista do Santander.

Efeito da greve sobre o crescimento econômico ainda é incerto

Ao se referir ao ritmo de atividade da economia, o Banco Central voltou a repetir no comunicado o texto que já vinha usando em outras reuniões: “O Copom reitera que a conjuntura econômica prescreve política monetária estimulativa, ou seja, com taxas de juros abaixo da taxa estrutural.”

Em outras palavras, os juros precisam ficar baixos para estimular empresas a investir e consumidores a gastar, fazendo a economia crescer. O desempenho do país no primeiro trimestre já havia decepcionado os economistas, com o PIB apontando crescimento de 0,4% no período.

As expectativas para expansão da economia em 2018, que começaram o ano em 3,0%, já haviam sido reduzidas para casa de 1,7% antes mesmo da greve dos caminhoneiros.

“O efeito da greve sobre a economia ainda é incerto. O Copom deixou essa questão em aberto no comunicado porque os indicadores que podem apontar quanto a atividade foi prejudicada ainda não saíram”, afirma Roberto Indech, analista da Rico Investimentos.

“Eu acredito que o impacto da greve sobre a inflação é pontual. Mas o impacto sobre a atividade não será pontual. A economia está fraca e vai piorar”, afirma José Francisco Lima Gonçalves, economista-chefe do Banco Fator. Na sua opinião, a greve colaborou para aumentar a sensação de insegurança de investidores, empresários e consumidores em relação à recuperação do país.

Copom cobra realização de reformas estruturais

O Banco Central não costuma abordar questões políticas em suas decisões. O BC procura ser neutro em relação a questões de governo. No entanto, o comunicado da reunião do Copom desta quarta-feira aumentou a ênfase em relação à necessidade de o governo aprovar reformas estruturais, como a da Previdência e a tributária.

“O Comitê enfatiza que a continuidade do processo de reformas e ajustes necessários na economia brasileira é essencial para a manutenção da inflação baixa no médio e longo prazos, para a queda da taxa de juros estrutural e para a recuperação sustentável da economia”, diz o comunicado.

“Esse termo ‘essencial’ é uma novidade no comunicado dessa reunião em relação aos comunicados anteriores. Mostra que o BC está preocupado com a questão. Houve uma ênfase nessa questão”, afirma Gonçalves, do Banco Fator.

Copom não fala de eleições, mas tema pode influenciar decisão

A próxima decisão do Copom será anunciada em 1º de agosto, em plena corrida eleitoral. O comunicado desta quarta não mencionou a volatilidade nos mercados provocada pelas pesquisas eleitorais que sugerem o crescimento de Jair Bolsonaro (PSL) e Ciro Gomes (PDT) nas preferências de voto para presidente da República.

“O BC não vai colocar a questão eleitoral na pauta do Copom porque seu papel é ser independente politicamente. Mas é evidente que se trata de uma questão relevante e que pode influenciar as próximas decisões”, diz Roberto Indech, da Rico.

“A questão política vai aparecer na alta do dólar, dos juros futuros e dos indicadores de risco. Embora o BC não fale claramente em política ou eleições, podemos entender que ele está considerando essa questão quando menciona os ‘choques’ no comunicado”, afirma Gonçalves, da Fator.

Conforme o comunicado do Copom, “choques que produzam ajustes de preços relativos devem ser combatidos apenas no impacto secundário que poderão ter na inflação prospectiva.” Ainda segundo o Banco Central, “é por meio desses efeitos secundários que esses choques podem afetar as projeções e expectativas de inflação e alterar o balanço de riscos.”

BC reitera que não vai usar Selic para segurar o dólar

O comunicado do Copom praticamente repetiu a declaração dada pelo presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn, no dia 7 de junho, quando o dólar disparou e chegou a valer R$ 3,96. Política monetária e política cambial são separadas. Não há “relação mecânica” entre as duas.

Dentro desse raciocínio, a taxa Selic deve ser usada apenas para controle da inflação. Por isso, o Banco Central não aumentará os juros como forma de conter uma eventual disparada do dólar.

“O câmbio não afeta diretamente a inflação. Como diz o BC, não há relação mecânica. Há um efeito indireto, que depende de uma série de circunstâncias, para que o dólar efetivamente faça a inflação subir. No cenário atual, a fraqueza da economia vai mitigar uma eventual alta da inflação.”

A piora do câmbio está relacionada diretamente ao processo de aumento dos juros nos Estados Unidos pelo Federal Reserve, o banco central daquele país. Tal processo provoca migração de recursos de grandes investidores de países emergentes em direção aos Estados Unidos, prejudicando as moedas desses países, incluindo o Brasil.

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