Bolsas

Câmbio

Juros

Eleição, dólar, reformas? Que mensagens o BC passou com decisão de juros?

Téo Takar

do UOL, em São Paulo

Economistas ficaram especialmente atentos ao comunicado do Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central) divulgado na noite de quarta-feira (20). A decisão de manter a taxa Selic em 6,5% ao ano já era amplamente esperada.

O que os especialistas buscaram no texto foi a avaliação do BC sobre os impactos da greve dos caminhoneiros e também sobre a piora do cenário externo nas últimas semanas.

Chamou atenção o fato de o Banco Central ter aumentado a ênfase sobre a necessidade de realização das reformas estruturais, como a da Previdência.

Leia também:

Veja quais foram as principais mensagens do documento, na opinião dos economistas consultados pelo UOL.

Greve dos caminhoneiros afetará inflação apenas em junho

A paralisação dos caminhoneiros, realizada nos últimos dias de maio, provocou aumento nos preços principalmente dos alimentos e combustíveis. Mas seus efeitos serão sentidos apenas na inflação do mês de junho.

O Banco Central indicou no comunicado que a alta da inflação não se estenderá ao longo dos meses seguintes. Desta forma, a inflação ainda ficará abaixo do centro da meta estabelecida pelo Banco Central, de 4,5% neste ano. A previsão é que o IPCA encerre 2018 em torno dos 3,9%, segundo economistas consultados pelo Boletim Focus.

A explicação para a inflação controlada está na fraqueza da economia, que impede que a indústria e o comércio repassem aumentos de preços para o consumidor. "Os efeitos da greve na inflação serão mitigados pela ociosidade tanto no mercado de trabalho como no uso do capital produtivo", diz Tatiana Pinheiro, economista do Santander.

Efeito da greve sobre o crescimento econômico ainda é incerto

Ao se referir ao ritmo de atividade da economia, o Banco Central voltou a repetir no comunicado o texto que já vinha usando em outras reuniões: "O Copom reitera que a conjuntura econômica prescreve política monetária estimulativa, ou seja, com taxas de juros abaixo da taxa estrutural."

Em outras palavras, os juros precisam ficar baixos para estimular empresas a investir e consumidores a gastar, fazendo a economia crescer. O desempenho do país no primeiro trimestre já havia decepcionado os economistas, com o PIB apontando crescimento de 0,4% no período.

As expectativas para expansão da economia em 2018, que começaram o ano em 3,0%, já haviam sido reduzidas para casa de 1,7% antes mesmo da greve dos caminhoneiros.

"O efeito da greve sobre a economia ainda é incerto. O Copom deixou essa questão em aberto no comunicado porque os indicadores que podem apontar quanto a atividade foi prejudicada ainda não saíram", afirma Roberto Indech, analista da Rico Investimentos.

"Eu acredito que o impacto da greve sobre a inflação é pontual. Mas o impacto sobre a atividade não será pontual. A economia está fraca e vai piorar", afirma José Francisco Lima Gonçalves, economista-chefe do Banco Fator. Na sua opinião, a greve colaborou para aumentar a sensação de insegurança de investidores, empresários e consumidores em relação à recuperação do país.

Copom cobra realização de reformas estruturais

O Banco Central não costuma abordar questões políticas em suas decisões. O BC procura ser neutro em relação a questões de governo. No entanto, o comunicado da reunião do Copom desta quarta-feira aumentou a ênfase em relação à necessidade de o governo aprovar reformas estruturais, como a da Previdência e a tributária.

"O Comitê enfatiza que a continuidade do processo de reformas e ajustes necessários na economia brasileira é essencial para a manutenção da inflação baixa no médio e longo prazos, para a queda da taxa de juros estrutural e para a recuperação sustentável da economia", diz o comunicado.

"Esse termo 'essencial' é uma novidade no comunicado dessa reunião em relação aos comunicados anteriores. Mostra que o BC está preocupado com a questão. Houve uma ênfase nessa questão", afirma Gonçalves, do Banco Fator.

Copom não fala de eleições, mas tema pode influenciar decisão

A próxima decisão do Copom será anunciada em 1º de agosto, em plena corrida eleitoral. O comunicado desta quarta não mencionou a volatilidade nos mercados provocada pelas pesquisas eleitorais que sugerem o crescimento de Jair Bolsonaro (PSL) e Ciro Gomes (PDT) nas preferências de voto para presidente da República.

"O BC não vai colocar a questão eleitoral na pauta do Copom porque seu papel é ser independente politicamente. Mas é evidente que se trata de uma questão relevante e que pode influenciar as próximas decisões", diz Roberto Indech, da Rico.

"A questão política vai aparecer na alta do dólar, dos juros futuros e dos indicadores de risco. Embora o BC não fale claramente em política ou eleições, podemos entender que ele está considerando essa questão quando menciona os 'choques' no comunicado", afirma Gonçalves, da Fator.

Conforme o comunicado do Copom, "choques que produzam ajustes de preços relativos devem ser combatidos apenas no impacto secundário que poderão ter na inflação prospectiva." Ainda segundo o Banco Central, "é por meio desses efeitos secundários que esses choques podem afetar as projeções e expectativas de inflação e alterar o balanço de riscos."

BC reitera que não vai usar Selic para segurar o dólar

O comunicado do Copom praticamente repetiu a declaração dada pelo presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn, no dia 7 de junho, quando o dólar disparou e chegou a valer R$ 3,96. Política monetária e política cambial são separadas. Não há "relação mecânica" entre as duas.

Dentro desse raciocínio, a taxa Selic deve ser usada apenas para controle da inflação. Por isso, o Banco Central não aumentará os juros como forma de conter uma eventual disparada do dólar.

"O câmbio não afeta diretamente a inflação. Como diz o BC, não há relação mecânica. Há um efeito indireto, que depende de uma série de circunstâncias, para que o dólar efetivamente faça a inflação subir. No cenário atual, a fraqueza da economia vai mitigar uma eventual alta da inflação."

A piora do câmbio está relacionada diretamente ao processo de aumento dos juros nos Estados Unidos pelo Federal Reserve, o banco central daquele país. Tal processo provoca migração de recursos de grandes investidores de países emergentes em direção aos Estados Unidos, prejudicando as moedas desses países, incluindo o Brasil.

Receba notícias do UOL. É grátis!

Facebook Messenger

As principais notícias do dia pelo chatbot do UOL para o Facebook Messenger

Começar agora

Newsletter UOL

Receba por e-mail as principais notícias, de manhã e de noite, sem pagar nada. É só deixar seu e-mail e pronto!

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos