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Empresa americana faz recife de coral artificial com cinzas de mortos

O coral artificial da Eternal Reefs traz placa de bronze com informações do falecido e dados sobre a localização no mar - Divulgação
O coral artificial da Eternal Reefs traz placa de bronze com informações do falecido e dados sobre a localização no mar Imagem: Divulgação

Lucas Gabriel Marins

Colaboração para o UOL, em Curitiba

19/10/2018 04h00

O que fazer com as cinzas de um familiar que morreu? Colocar em uma urna, jogar no oceano, fazer um diamante e até plantar uma árvore são algumas das opções existentes hoje em dia no mercado.

A Eternal Reefs, localizada na Flórida, nos Estados Unidos, oferece outra alternativa: construir um recife de coral artificial com concreto ecológico, misturar com as cinzas da cremação e posicioná-lo no fundo do mar.

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“Dessa forma, a estrutura, além de memorial para o falecido, pode abrigar também seres marinhos, que ultimamente têm perdido suas casas”, disse o CEO da empresa, George Frankel, que conversou com a reportagem do UOL via Skype.

A Eternal Reefs constrói recifes de corais artificiais com cimento ecológico e cinzas de cremação - Divulgação - Divulgação
O coral artificial pode abrigar também seres marinhos
Imagem: Divulgação

De acordo com relatório da Unesco publicado em 2017, os recifes de corais podem desaparecer até o fim do século por causa do aquecimento das águas, o que prejudicaria não só os ecossistemas marinhos, mas também a economia, já que o valor econômico, social e cultural deles está estimado em US$ 1 trilhão.

Morte de sogro influenciou criação da empresa

A empresa é um braço da Reef Ball Foundation, organização internacional não governamental, criada em 1992 pelo empresário Don Brawley, que desenvolve recifes de corais artificiais. Mais de 700 mil projetos foram desenvolvidos até hoje –desse total, cerca de 2.000 tiveram cinzas de cremação na composição.

A ideia de transformar os recifes em memoriais, segundo Frankel, surgiu em meados de 1998, quando o sogro de Brawley, Carleton Glen Palmer, disse a ele que, quando morresse, gostaria que suas cinzas fossem colocadas em um recife artificial. Palmer perdeu a vida pouco tempo depois.

Há três opções de estruturas com preços e tamanhos variados. O Aquarius Eternal Reef, ideal para as cinzas de uma pessoa, custa US$ 3.995 (R$ 14,9 mil). O Nautilus Eternal Reef, que comporta dois conjuntos de cinzas, é vendido a US$ 4.995 (R$ 18,6 mil). Por US$ 7.495 (R$ 27,9 mil), é possível levar o Mariner Eternal Reef, que acomoda quatro conjuntos de cinzas.

Ao comprar qualquer um dos recifes, que têm entre 330 quilos e 1,7 tonelada, também estão incluídos o transporte da estrutura até o fundo do oceano, uma placa de bronze com informações do falecido e dados geográficos sobre a posição exata do recife no mar. A cremação do corpo deve ser feita em outro local.

A Eternal Reefs constrói recifes de corais artificiais com cimento ecológico e cinzas de cremação - Divulgação - Divulgação
A Eternal Reefs faz o transporte do coral artifical até o fundo do oceano
Imagem: Divulgação

Segundo Frankel, a empresa, antes de colocar os recifes no oceano, precisa de autorização dos órgãos ambientais. Até hoje, além dos EUA, outros dez países também adquiriram o produto. O Brasil não está na lista. A instalação de recifes artificiais no país, segundo o Ibama, “pode estar sujeita a licenciamento ambiental, assim como outras obras e atividades com impactos ambientais”.

Brasileiros preferem manter as cinzas próximas

Para a diretora do crematório Vaticano, em Curitiba (PR), Mylena Cooper, o memorial em formato de recife de coral é interessante porque não fere o meio ambiente. “Sempre que falamos de cremação, é preciso pensar em uma alternativa mais correta ecologicamente.”

Ela disse, no entanto, que seria um pouco difícil implantar a ideia no país, pois os brasileiros preferem homenagens com cinzas que possam ficar mais próximas, como diamantes, vendidos a partir de R$ 5.000 pela empresa, e cristais, a partir de R$ 350.

Ambientalistas não aprovam a ideia

Ambientalistas ouvidos pela reportagem não gostaram da ideia. “Colocar no oceano qualquer material que não seja natural é problemático porque muda o regime de circulação de água e corrente e afeta os organismos”, afirmou a professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Carla Zilberberg.

Segundo ela, a melhor forma de lidar com a morte de corais seria investir em ações de impacto local e global que diminuam a emissão de gases do efeito estufa e o aquecimento das águas.

Opinião semelhante tem Gustavo Monteiro Teixeira, doutor em zoologia e professor da Universidade de Londrina. “Colocar mais substratos, sejam barcos afundados ou blocos de concretos, não corrige os fatores que possam causar o branqueamento e a morte dos corais.”

Entretanto, disse ele, recifes de corais artificiais podem ter outras funções, como proteção de áreas costeiras de processos erosivos, proteção de áreas impactadas pela pesca de camarões com redes de arrasto e incremento de atrativos turísticos relacionados à pesca e ao mergulho.

Onde encontrar:

Eternal Reefs - https://www.eternalreefs.com/