Existe risco de acontecer uma nova greve dos caminhoneiros?
Após os transtornos provocados pela greve dos caminhoneiros em maio deste ano, chama atenção qualquer manifestação pública da categoria sobre a possibilidade de uma nova paralisação.
Uma reportagem da revista "Veja" publicada nesta segunda-feira (26) afirma que os caminhoneiros estão discutindo o assunto e podem "fazer uma nova paralisação a qualquer momento". Segundo a revista, o motivo é que o governo não fiscaliza se as empresas estão cumprindo a tabela mínima do frete, que estabelece os valores mínimos a serem pagos aos motoristas de caminhão.
Será que existe mesmo o risco de os caminhoneiros pararem o país de novo?
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É difícil saber com certeza porque a categoria é descentralizada, heterogênea e tem a liderança pulverizada em diversas entidades.
O UOL procurou a entidade mencionada pela revista, o Comando Nacional do Transporte, que confirmou a possibilidade de nova greve. Outras duas organizações que reúnem caminhoneiros e tiveram papel importante na greve de maio negaram qualquer indício ou possibilidade de nova paralisação.
A descentralização foi uma das características mais marcantes da greve de maio. As lideranças eram pouco definidas, e os protestos e paralisações foram organizados, principalmente, via WhatsApp.
A reclamação comum dentro do movimento pelo Brasil todo era o alto preço do diesel, que havia disparado devido ao aumento do dólar e do petróleo e à política de preços da Petrobras.
A greve terminou após dez dias, com o governo atendendo uma série de reivindicações dos motoristas. Uma delas foi a criação de uma tabela com preços mínimos para o frete.
Comando Nacional do Transporte: 'insatisfação geral'
Para Ivar Luiz Schmidt, porta-voz do Comando Nacional do Transporte, não existe uma data concreta para uma nova paralisação, mas ela pode acontecer porque a tabela não estaria sendo respeitada pelas empresas. "Existe uma insatisfação geral do pessoal do transporte porque o governo não está fiscalizando", afirmou ao UOL. "Isso pode acarretar greve a qualquer momento e em qualquer lugar do Brasil."
De Mossoró (RN), Schmidt disse que o Comando Nacional do Transporte representa não apenas caminhoneiros autônomos e empregados, como também outros trabalhadores e empresários do setor de transporte. A página da entidade no Facebook tem cerca de 74 mil seguidores, e Schmidt disse que está em contato direto com caminhoneiros em grupos de WhatsApp.
O Comando Nacional do Transporte disse que a tabela foi uma solução ruim adotada pelo governo, às pressas, para acabar com a greve. "Não houve estudo sobre o impacto na economia. Não deu resultado e não vai dar", declarou Schmidt.
Ele afirmou que o problema da categoria é o excesso de caminhões no mercado e defendeu a adoção da jornada de trabalho. "Hoje, todo mundo trabalha 16 horas por dia, em média. Defendemos jornada de oito horas, podendo ir até 12 horas", disse. A medida, afirmou, reduziria a quantidade de caminhões no mercado.
Schmidt afirmou que conversou com representantes do governo Temer na época da greve, principalmente o deputado federal Osmar Terra (MDB-RS), mas que não falou com o governo recentemente para apresentar as novas reclamações.
Em relação ao futuro governo, disse que enviou mensagem pelo WhatsApp ao presidente eleito, Jair Bolsonaro (PSL), e ao seu vice, o general Hamilton Mourão. "Nenhum leu", disse.
Abcam e CNTA: não há qualquer indício de greve
Outras duas entidades procuradas pelo UOL, a Abcam (Associação Brasileira dos Caminhoneiros) e a CNTA (Confederação Nacional dos Transportadores Autônomos), negam que haverá nova greve de caminhoneiros. Elas foram bastante ativas na greve de maio, e seus representantes sentaram-se à mesa com o governo para negociar o fim da paralisação.
Em nota, a Abcam disse que "não apoia qualquer nova paralisação da categoria por entender que não há motivos nem condições para isso". A entidade afirmou que não encontrou, nos grupos de WhatsApp e nas redes sociais, indícios de adesão a uma nova greve da categoria. "Entendemos que o momento é de manter o diálogo com a equipe de transição do novo governo para que possamos dar continuidade às negociações feitas pela categoria."
Da mesma forma, a CNTA negou "qualquer indício de greve por parte da sua base sindical, formada por 140 sindicatos e oito federações". A entidade afirmou que a greve de maio conseguiu importantes conquistas e orientou os caminhoneiros a denunciar aos sindicatos e à ANTT (Agência Nacional dos Transportes Terrestres) as empresas que não estejam cumprindo a tabela do frete.
"A CNTA enfatiza, ainda, que um movimento no momento seria uma ação imprudente e que uma paralisação só deve ocorrer após esgotadas todas as possibilidades de negociação com o governo."
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