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Embraer completa 50 anos. O que esperar do futuro após venda para a Boeing?

Vinícius Casagrande

Colaboração para o UOL, em São Paulo

18/08/2019 04h00

Resumo da notícia

  • Criada em 19 de agosto de 1969, a Embraer completa 50 anos nesta segunda-feira
  • O aniversário ocorre em meio à fase final do processo de venda da divisão de aviação comercial à Boeing
  • Após a venda para a Boeing, a Embraer vai ficar apenas com as divisões de aviação executiva e defesa e segurança
  • A sobrevivência da empresa pode passar pela subsidiária EmbraerX, criada para desenvolver projetos como táxi voador, com a Uber
  • A Embraer nasceu como uma estatal para produzir o avião Bandeirante e hoje é a terceira maior fabricante do mundo
  • A empresa teve seu pior momento no início dos anos 1990 e foi privatizada para ser salva

Em meio à fase final do processo de venda da divisão da aviação comercial para a Boeing, a Embraer comemora 50 anos nesta segunda-feira (19). Com a Embraer original mesmo, ficaram apenas produtos das áreas de jatos executivos e defesa e segurança. Especialistas avaliam que a empresa terá de se reinventar para existir por mais 50 anos.

"Não vai ser fácil a vida dela daqui para frente, e vai depender bastante do sucesso dos novos produtos", afirmou o professor Oscar Malvessi, coordenador do curso de fusões e aquisições da FGV (Fundação Getúlio Vargas).

Área vendida responde por 47% das receitas

A área da aviação comercial, que passará a se chamar Boeing Brasil - Commercial, foi responsável por 47% das receitas da Embraer no último ano. O negócio foi avaliado em US$ 5,3 bilhões, sendo 80% da Boeing e 20% da Embraer.

A empresa ainda trabalha no processo de reestruturação de seu quadro de funcionários para definir quem fica na Embraer e quem vai para a nova empresa. "É provável que a Embraer tenha uma estrutura pesada, e isso onera o futuro da empresa", avaliou o professor Malvessi.

Apesar dos altos custos, manter o time de engenharia também pode ser fundamental para a empresa desenvolver novos produtos e até mesmo um novo segmento de mercado.

"A Embraer precisa usar o que ela tem de melhor, que são os engenheiros dela. Tem de pegar o dinheiro da Boeing e escolher um nicho no qual essa experiência possa fazer a diferença e assumir o protagonismo e a liderança", afirmou Shailon Ian, engenheiro aeroespacial e presidente da consultoria Vinci Aeronáutica.

Desenvolvendo táxi voador para a Uber

A sobrevivência da empresa pode passar pela subsidiária EmbraerX, criada para desenvolver negócios disruptivos como o eVTOL (veículo elétrico de pouso e decolagem vertical, na sigla em inglês).

Chamado também de táxi voador, o eVTOL está sendo criado em parceira com a Uber para o transporte urbano de passageiros. A expectativa é que milhares de unidades sejam produzidas nos próximos anos.

A tecnologia também pode se estender a outros produtos que já fazem parte do portfólio da Embraer. A empresa acabou de divulgar as primeiras imagens do seu avião totalmente elétrico.

Drone pulverizador autônomo

O modelo é uma adaptação do avião agrícola Ipanema. Esse é um caminho que o engenheiro Shailon acredita que possa ser viável para a empresa. "Poderia pegar o conhecimento adquirido na EmbraerX e fazer um drone pulverizador autônomo e dominar esse mercado", disse.

Para o professor da FGV, no entanto, é difícil prever o futuro da empresa, já que muitas decisões estratégicas são secretas. "Esta é sempre uma estratégia. Alguma coisa você divulga, mas outras não e surpreende o mercado", afirmou.

Empresa nasceu como estatal para fazer o Bandeirante

Criada em 19 de agosto de 1969, a Embraer nasceu como uma estatal para a produção do turboélice Bandeirante, que já vinha sendo desenvolvido pelo Centro Técnico Aeroespacial. Era necessário, no entanto, uma fábrica que pudesse produzir o avião em série.

Ao lado das obras da nova fábrica, em São José dos Campos, uma placa anunciava: "Aqui será fabricado o Bandeirante".

A produção em série do Bandeirante só começou em maio de 1971, com uma encomenda de 80 aviões para a Força Aérea Brasileira. A primeira unidade foi entregue em fevereiro de 1973, com a presença do então presidente Emílio Garrastazu Médici, que fez o voo inaugural.

O Bandeirante foi fabricado durante 20 anos, até ter sua produção encerrada em 1991. Algumas unidades do modelo estão na ativa até hoje.

Licenciada por outros fabricantes

Nos primeiros anos, a Embraer produziu aviões sob licença de outros fabricantes, como Piper Aircraft e Aermacchi. Na primeira fase da empresa, no entanto, os aviões que alavancaram a empresa foram o turboélice pressurizado EMB-120 Brasília, para transporte de passageiros, e o avião militar EMB-312 Tucano, para treinamento e missões de ataque. Ambos foram amplamente utilizados no Brasil e no exterior.

Crise e privatização nos anos 90

O pior momento da companhia veio no início da década de 1990. Em meio às turbulências econômicas do país, a empresa teve de reduzir a produção e demitir funcionários. Em 1994, o governo do presidente Itamar Franco decidiu pela privatização da Embraer.

Sob controle da iniciativa privada, a empresa teve novos investimentos, o que permitiu o desenvolvimento de aviões mais modernos. O primeiro projeto da nova fase da Embraer veio com o jato regional ERJ-145.

O modelo marcou o início do crescimento da Embraer no mercado mundial de aviação comercial. A família ERJ incluía mais dois aviões, o ERJ-140 e o ERJ-135, com capacidade para mais passageiros.

3ª maior fabricante do mundo

A consolidação definitiva veio com o lançamento da família de E-Jets, que tinha os modelos E170, E175, E190 e E195. Sucesso no mundo inteiro, os novos aviões alçaram a Embraer ao posto de terceira maior fabricante mundial de aviões e líder no segmento de até 150 assentos.

Os E-Jets estão passando por uma atualização, que inclui novos motores e mudanças nas asas e fuselagem para deixá-los mais eficientes. O E190-E2 já está em linha de produção e voando em companhias aéreas da Europa.

O primeiro E195-E2 deve ser entregue em setembro para a brasileira Azul. O E175-E2 ainda está em fase de montagem do primeiro protótipo.

É toda essa família de jatos comerciais que está sendo vendida para a Boeing.

Aviação executiva, que não foi vendida, também faz sucesso

Embora a aviação executiva represente apenas 22% das receitas, os jatos produzidos pela fabricante brasileira também são sucesso em todo o mundo. Durante quatro anos, o Phenom 300 foi o jato executivo mais vendido do mundo, até perder a liderança para o Bombardier Challenger 350 em 2018.

Nesta nova fase da empresa, a Embraer já lançou dois novos jatos executivos, o Praetor 500 e Praetor 600. Os modelos são uma evolução do Legacy 450 e Legacy 500, com novas asas e tanques de combustível maiores.

Cargueiro militar é aposta

Na área de defesa e segurança, que responde por 12% do faturamento, a grande aposta da Embraer é o cargueiro militar KC-390. Criado a pedido da FAB (Força Aérea Brasileira), a primeira unidade deve ser entregue em setembro.

No total, a FAB fez um pedido de 28 aviões. No mês passado, o governo português anunciou a compra de cinco KC-390, o que foi a primeira venda do modelo para o exterior.

O desafio da Embraer é manter o sucesso da aviação executiva e militar e desenvolver novos produtos para sobreviver por mais 50 anos.

Vídeo da Embraer mostra como o E190 domou os ventos

UOL Notícias
Errata: o texto foi atualizado
O texto informava incorretamente, no 18º parágrafo, que o primeiro projeto após a privatização da Embraer foi o E-135. Na verdade, foi o ERJ-145. A informação foi corrigida.

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