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Agronegócio teme que discurso ambiental de Bolsonaro afete exportação

Filipe Andretta

Do UOL, em São Paulo

23/08/2019 04h00Atualizada em 23/08/2019 10h46

Resumo da notícia

  • Lideranças do agronegócio afirmam que discurso agressivo do governo contra ambientalistas prejudica exportações do setor
  • Imagem do Brasil no exterior está abalada pela política ambiental do Governo Federal
  • Governo tem entrado em conflito com países europeus que questionam a proteção da Amazônia

Representantes do agronegócio estão preocupados que a retórica agressiva do presidente Jair Bolsonaro (PSL) sobre a Amazônia prejudique as exportações, especialmente para a Europa. Nas últimas semanas, Bolsonaro criou atritos com França, Alemanha e Noruega, questionando a legitimidade desses países em cobrar mais preservação das florestas brasileiras. Hoje, o presidente francês, Emmanuel Macron, disse que se opõe ao acordo entre o Mercosul e a União Europeia, diante da atitude de Bolsonaro em relação às queimadas.

Para o presidente da Abitrigo (que representa a indústria nacional de moagem de trigo), Rubens Barbosa, o governo precisa entender que a política ambiental passou a fazer parte da política comercial no mundo todo. "O desenvolvimento sustentável é um conceito que está aí para ficar."

Discursos vão contra objetivo do governo

Segundo Barbosa, os discursos de Bolsonaro estão indo contra o próprio objetivo do governo, que é aumentar o comércio exterior e facilitar exportações.

Barbosa, que foi embaixador em Washington entre 1999 e 2004 (posto mais cobiçado da diplomacia brasileira, hoje desejado por Eduardo Bolsonaro), defende que o Brasil intensifique o trabalho de "diplomacia ambiental". A ideia, segundo ele, é mostrar ao mundo que os compromissos de preservação assumidos estão sendo cumpridos.

Nos últimos dias, outras vozes relevantes do agronegócio vieram a público para criticar a retórica do governo sobre meio ambiente. Em entrevistas ao "Valor Econômico", Blairo Maggi (um dos maiores exportadores de soja) e Marcello Brito (presidente da Associação Brasileira do Agronegócio) afirmaram que a imagem de país desmatador põe em risco as negociações do setor.

Críticas "duríssimas" da Europa

O governador de São Paulo, João Doria (PSDB), disse que ouviu de investidores europeus "críticas duríssimas" em relação à política ambiental do Brasil. "Talvez mais à retórica do que à própria política", afirmou (leia aqui a entrevista exclusiva).

Dados do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento apontam que a União Europeia foi o destino de 17,7% das exportações do agronegócio brasileiro em 2019 até julho --equivalente a US$ 1 bilhão.

Em junho, o governo brasileiro comemorou o acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia, fechado após 20 anos de negociações. Na época, Bolsonaro chamou o acordo de "histórico" e afirmou que ele traria "benefícios enormes para a nossa economia". Agora, o acordo está em risco antes mesmo de chegar a ser implementado.

Saída de diretor do Inpe

Nas últimas semanas, Bolsonaro e o ministro Ricardo Salles (Meio Ambiente) intensificaram conflitos com figuras públicas nacionais e internacionais que criticaram a gestão ambiental do governo federal.

Agosto começou com a saída de Ricardo Galvão da direção do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais). O físico havia irritado o presidente por ter divulgado dados que apontam 278% de crescimento do desmatamento na Amazônia em julho, comparado com o mesmo período do ano passado. Ele deixou o cargo no último dia 2.

Matança de baleias na Noruega ou na Dinamarca?

O mês também ficou marcado pelos atritos com os governos de Alemanha e Noruega. A origem das discussões foi a decisão do Ministério do Meio Ambiente de reformular o Fundo Amazônia (reserva de capital estrangeiro destinada à preservação ambiental), usar parte do dinheiro para indenizar fazendeiros e aumentar o peso do governo no comitê que estabelece critérios para aplicação dos recursos.

Em razão disso, a Noruega, responsável por mais de 90% dos valores do Fundo, bloqueou aproximadamente R$ 130 milhões e anunciou a suspensão de novos repasses. Na sequência, Bolsonaro divulgou nas suas redes um suposto material sobre "matança das baleias patrocinada pela Noruega" (mas as imagens foram gravadas em território dinamarquês).

Refloreste a Alemanha com essa grana

A Alemanha também congelou cerca de R$ 150 milhões que seriam destinados à proteção ambiental no Brasil e declarou que reavalia repasses para o Fundo Amazônia. A resposta de Bolsonaro foi um recado direto à chanceler Alemã, Angela Merkel: "Pegue essa grana e refloreste a Alemanha, ok? Lá está precisando muito mais do que aqui".

Antes disso, no final de julho, Bolsonaro havia cancelado em cima da hora uma reunião com o ministro de Relações Exteriores da França para tratar de assuntos ambientais. O Planalto alegou "uma questão de agenda do presidente", mas, na mesma tarde, Bolsonaro gravou um vídeo enquanto cortava o cabelo.

Queimadas causadas por ONGs

Na quarta-feira (21), Salles discursou sob vaias em evento da ONU (Organização das Nações Unidas) sobre mudança do clima. Em sua fala, Salles negou que o ministério tenha se omitido no combate ao desmatamento da Amazônia. Nesta quinta (22), ele anunciou, em entrevista exclusiva do UOL, a intenção de criar uma força-tarefa na Amazônia com participação de ONGs, madeireiras e mineradoras, entre outros.

O ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, declarou que o discurso de países europeus sobre o desmatamento na Amazônia é uma política para criar barreiras ao Brasil.

O presidente, por sua vez, tem insinuado que ONGs estão por trás de queimadas na Amazônia. "Pode estar havendo, não estou afirmando, a ação criminosa desses 'ongueiros' para chamar a atenção contra minha pessoa contra o governo do Brasil", declarou, sem apresentar provas.

Sem prova, Bolsonaro acusa ONGs de estarem por trás de queimada na Amazônia

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