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Bolsonaro critica estados; Mandetta pede controle nacional de estradas

Do UOL, em São Paulo

20/03/2020 16h53Atualizada em 20/03/2020 20h58

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido), acompanhado de ministros e parlamentares, realizou nesta tarde uma teleconferência com empresários para falar sobre medidas econômicas a serem adotadas pelo governo durante a pandemia de coronavírus. O encontro serviu para o presidente e outros participantes criticarem medidas estaduais e pedirem que a União tome o controle da gestão nacional da crise. Os representantes das entidades privadas, liderados pelo presidente da Fiesp (Federação das Indústrias de São Paulo), Paulo Skaf, também fizeram apelos ao governo federal.

Embora sem ser citado, o principal alvo das críticas de Bolsonaro foi mais uma vez o governador Wilson Witzel (PSC), que mandou fechar as estradas e os aeroportos do Rio de Janeiro para a entrada de transportes vindos de outros estados em que há casos de covid-19. Para o presidente, medidas como estas podem ser ainda mais danosas do que o novo coronavírus e fariam com que uma "catástrofe" se aproximasse de verdade.

"Estamos em contato com secretários de Estado para definir o direito de ir e vir, sem fechamento de rodovias, bem como aeroportos. A Constituição garante a nós para que não se bote em colapso o setor produtivo. O Brasil precisa continuar se movimentando, mexendo com sua economia, senão a catástrofe se aproximará de verdade", disse o presidente.

"Eu, como estadista, tenho falado ao Brasil que não podemos entrar em pânico. Temos de tomar as medidas, mas sem histeria. Temos quase 12 milhões de desempregados no Brasil. Se este número crescer muito, outros problemas colaterais surgirão. O mal que pode ocasionar este congestionamento pode ser até maior do que o do vírus", completou Bolsonaro.

Tem um governador de estado que só faltou declarar independência da União
presidente Jair Bolsonaro

Entre os empresários que participaram da teleconferência estavam Abilio Diniz, presidente do Conselho de Administração da Península Participações, Luiz Carlos Trabuco Cappi, presidente do Conselho de Administração do Banco Bradesco, Alejandro Botero, vice-presidente da Renault no Brasil, e Carlos Sanchez, dono da EMS, empresa farmacêutica de genéricos.

Ao lado de Bolsonaro na mesa, também se pronunciaram os ministros Luiz Henrique Mandetta, da Saúde, e Walter Souza Braga Netto, da Casa Civil.

Mandetta afirmou que vai sugerir que os limites dos territórios estaduais passem para o comando de Bolsonaro, que, assim, centralizaria todas as decisões referentes a estradas e aeroportos.

"Algumas empresas, eu estou virando suas vocações para produzir ventiladores e insumos. Porque, às vezes, a gente acha que isso não é importante. A lavanderia do hospital tem de funcionar. Teve governador que fechou estrada e parou de produzir oxigênio. É inconcebível. É muito possível que a gente tenha de reconhecer que estamos em uma sustentação nacional, dizer que somos todo o Brasil, para que o comando das linhas de transporte passem para o presidente para a gente garantir os corredores", disse o ministro da Saúde.

Essa história de fechar aeroporto, fechar estrada, isso não pode ser descentralizado, senão vai virar bagunça. Isso vai ter de ter um comando central
Henrique Mandetta, ministro da Saúde

"Hoje, às 18h, nós vamos passar essa posição e o presidente vai poder, no momento certo, anunciá-la para podermos organizar o 'ir e vir'. (...) Mais difícil do que fechar uma cidade, um supermercado ou um shopping é saber quando abrir. Fechar é fácil, qualquer prefeito está dando ordem. Quando vamos reabrir? Eu preciso de uma série de informações para reabrir com segurança", completou Mandetta.

Skaf pede que gestão da crise seja centralizada

skaf - Alex Silva/Estadão Conteúdo - Alex Silva/Estadão Conteúdo
Imagem: Alex Silva/Estadão Conteúdo

Alinhado com o discurso do governo, Paulo Skaf pediu a palavra na reunião para divulgar sugestões e pedir "centralização do comando das ações com eficiência e agilidade."

"Precisamos que isso seja de forma planejada", disse. "A primeira sugestão é que se crie um comitê de gestão sobre a sua presidência para que haja a participação de todos nós", continuou.

O empresário também pediu por hospitais especializados apenas no coronavírus e afirmou que a iniciativa privada deveria ceder espaços para auxiliar na área da saúde, como fornecer locais onde possa se realizar a manutenção de equipamentos hospitalares.

"Temos escolas, centros de treinamento, campos de futebol... Empresas podem resolver, mas o ministro precisa demandar", disse. "Estados comandam medidas assim sem planejamento central."

Skaf também demandou que sejam feitas reuniões periódicas entre representantes do governo e da iniciativa privada.

"Talvez todo final de dia ou a cada três dias uma videoconferência com o Ministério da Economia e o Ministério da Saúde."

Governo fala em "redemoinho" que pode durar meses

bolsonaro - ADRIANO MACHADO - ADRIANO MACHADO
Imagem: ADRIANO MACHADO

O ministro da Saúde previu que o ritmo de transmissão do vírus deve ser desacelerado até junho, um "platô" deve gerar equilíbrio nos meses posteriores, e em setembro deve haver real queda na crise causada pela covid-19. Ele explicou estas previsões.

"Nós temos dois cenários: o primeiro foi apresentado pela China, que talvez retrate o finalzinho, o terço final. Eles reconhecem o coronavírus em janeiro, fazem o bloqueio em Wuhan em 17 de janeiro, atravessam fevereiro, e em março informam que está debelada [vencida] a epidemia. Não é o que a gente está vendo a partir do momento em que ela saiu da China. Não conseguimos planejar. Como pensar que Pequim passou sem nada? Como um país de 1,5 bilhão de habitantes teve 80 mil casos?", questionou.

"Chegou ao Irã, no Oriente Médio, e fez um estrago enorme. No mundo ocidental, onde as informações são mais fidedignas, fica caracterizado que o vírus tem um padrão de transmissão muito competente. Com cada pessoa em trânsito, o vírus faz uma curva de 90 graus quando pega ar e sobe. Nós ainda não estamos nela. São Paulo está fazendo o início de seu redemoinho", alertou Mandetta.

"Esta subida rápida vai durar os meses de abril, maio e junho, quando ela vai começar a ter tendência de desaceleração de subida. No mês de junho deve começar o platô, em agosto este platô vai mostrar tendência de queda, e em setembro vai ser a queda profunda, como foi na China. Este é o cenário com o qual o mundo ocidental está trabalhando. Temos 30 dias para que a gente resista razoavelmente bem, com muitos casos, dependendo da dinâmica da sociedade, mas claramente no fim de abril nosso sistema entra em colapso", disse.

Este "colapso" foi explicado pelo ministro: "O colapso é quando você pode ter o plano de saúde, pode ter o dinheiro, pode ter a ordem judicial, mas simplesmente não há sistema [de saúde] para entrar. É o que está vivenciando a Itália. Para evitar esse colapso, pode ser necessário segurar a movimentação para ver se consegue diminuir a transmissão. Quando a gente toma a medida de segurar 14 dias, por exemplo, o impacto desta medida só é sentido 28 dias depois", acrescentou.

Ministro da Saúde pede esforço de empresários

mandetta - Reuters - Reuters
Imagem: Reuters

Durante a videoconferência, Luiz Henrique Mandetta se voltou aos empresários brasileiros e pediu cooperação — como na produção de equipamentos necessários para o enfrentamento da pandemia: "A saúde conta com todos vocês. Vocês podem ajudar".

"Nós vamos fazer mutirão para produção de máscaras, porque isso aqui também tem carência. Alemanha, Europa, Itália, EUA, Canadá, o planeta inteiro comprando, então nós estamos criando alternativas nacionais e vamos pedir que algumas linhas de montagem façam esforços neste sentido", acrescentou.

"Tenho certeza de que alguns de vocês já sabem o que estão sendo pedidos para fazer, e, justos, vamos ter muito enfrentamento. A questão econômica é dramática para o nosso país, e eu tenho conduzido com extrema cautela, para acalmar e para que a gente possa fazer isso com menor dano. Não imaginem eu fazendo nenhuma pirueta, eu vou levar bastante pancada, mas nós vamos passar por isso juntos", concluiu ele.

Errata: o texto foi atualizado
Diferentemente do que informou a matéria, Abilio Diniz não é mais presidente do Conselho de Administração da BRF. A informação foi corrigida.

Economia