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Caminhoneiros reclamam de menos viagens e dizem não achar lugar para comer

Lucas Borges Teixeira

Colaboração para o UOL, em São Paulo

27/03/2020 17h20

Menos trabalho, renda menor, dificuldade de se alimentar nas estradas e poucos cuidados de higiene para se prevenirem. Essa é a percepção dos caminhoneiros autônomos em meio à epidemia do coronavírus (Covid-19) no Brasil.

Lideranças de caminhoneiros de diferentes regiões do país reclamam da quarentena em alguns estados e municípios e dizem que os governos estaduais e federal deveriam tomar mais medidas pensando na classe. Apesar da insatisfação, eles afirmam que é praticamente nula a probabilidade de uma paralisação.

"Com país parado, nos viramos nos 30"

A reclamação sobre a redução do trabalho é geral em meio à pandemia. Segundo as lideranças, as empresas estão com a maioria dos seus carregamentos parados e muitas delas "se aproveitam da situação" para não pagar a tabela de frete.

A tabela de preços mínimos de frete foi uma das principais concessões feitas pelo governo do presidente Michel Temer para encerrar a greve nacional de caminhoneiros, em 2018.

Ailton Rodrigues, liderança da Baixada Santista, em São Paulo, avalia que o volume de trabalho diminuiu mais do que a metade neste mês.

Está devagar. Os serviços deram uma boa diminuída, em pelo menos 60%. Com o país quase parado, a gente está se virando nos 30.
Ailton Rodrigues, caminhoneiro de Santos (SP)

Segundo ele, além de serem poucos, os fretes que surgem têm pagado menos. "Ofereceram um serviço até o Paraná. Daqui [Santos] para lá, o preço seria de uns R$ 2.500. Ofereceram R$ 1.200, menos da metade. Pode? Tá certo um negócio desse? Ninguém está respeitando a tabela, não", reclamou o caminhoneiro.

"Está tudo parado. Peguei uma carga de Maceió e depois não surgiu mais nada. Já faz uma semana que só estou fazendo ajuda comunitária. A gente até liga para os fornecedores, mas eles falam que não estão com nada agora", contou Gilson Cruz, caminhoneiro de João Pessoa.

"Falaram para eu ficar sete dias isolado no caminhão"

Preocupados com o vírus, os autônomos dizem tomar diversas medidas para não se infectarem, mas reclamam que muitas vezes faltam condições para que trabalhem de forma segura.

"As empresas não dão nada. Você chega para abastecer e não está usando luva. Eu não sei se é possível, mas o governo deveria baixar um decreto que obrigasse as contratantes a darem um kit básico de proteção para o autônomo", afirmou Marconi França, liderança de Recife.

"Eu tenho evitado chegar aos [locais de] carregamentos quando tem muita aglomeração. Higienizo minha cabine, mas às vezes o álcool gel está caro. Tomamos os cuidados que podemos", declarou Rodrigues.

Wanderlei Alves, o Dedéco, em quarentena - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Wanderlei Alves, o Dedéco, em quarentena
Imagem: Arquivo pessoal

De Curitiba, Wanderlei Alves, conhecido como Dedéco, uma das lideranças da greve geral de 2018, diz que está com suspeita de Covid-19 e, sem ter acesso ao teste, foi instruído a ficar em quarentena.

Falaram para eu ficar sete dias no meu caminhão. Agora estou isolado, mas preciso trabalhar. O governo tem de agir imediatamente, olhar para a nossa classe, estamos muito expostos.
Wanderlei Alves (Dedéco), caminhoneiro de Curitiba

"Estamos passando fome"

Alguns estados e municípios determinaram medidas de quarentena, o que acabou levando ao fechamento de comércio e restaurantes à beira das estradas. Por causa disso, caminhoneiros reclamam que não encontram lugar para se alimentarem.

Nós estamos passando fome na estrada, não temos onde nos alimentar. Todos os lugares agora estão fechados. Você passa horas e horas sem encontrar nada. Como querem que nós mantenhamos o Brasil abastecido se não temos como comer?
Marconi França, caminhoneiro de Recife

Para ele, a decisão de alguns governos estaduais e municipais é imprudente e arrisca a vida dos caminhoneiros. "A gente está fazendo viagem de barriga vazia. Acha um ou outro lugar aberto nas cidades. É perigoso para nós e para as outras pessoas que estão rodando nas estradas", avaliou.

"Está muito difícil. Você acha um ou outro lugar que entrega marmita até umas 14h. Eles entregam [a comida] por meio de um buraco, como se fosse ração. Se perdeu o horário, complica", contou Cruz.

Nesta sexta-feira (27), o governo federal incluiu postos e restaurantes de caminhoneiros na lista de serviços essenciais e que, portanto, não precisam fechar em quarentena.

"Estamos à deriva, sem assistência nenhuma"

Os caminhoneiros pedem que os governos estaduais e municipais flexibilizem as quarentenas para que haja mais opções. "Eles não estão pensando no povo, estão agindo politicamente. É importante combater o vírus e nós queremos continuar servindo o Brasil nesse momento complicado, mas está muito difícil", afirmou França.

Ele avalia que o governo federal tem ouvido a classe, mas não tem cumprido promessas. "Não vou isentar o governo, não. O ministro Tarcísio [Gomes de Freitas, da Infraestrutura] disse que iria abrir [suspender] os pedágios para que não tivéssemos contato com os atendentes e o nosso custo fosse um pouco aliviado, mas até agora, nada. Estamos à deriva, sem assistência nenhuma", afirmou.

O UOL procurou o Ministério da Infraestrutura, mas não obteve resposta até a publicação desta reportagem.

Probabilidade de paralisação é baixa

Os caminhoneiros dizem que há, como é frequente, uma ou outra conversa sobre possível paralisação da categoria, caso o quadro não melhore. Mas dizem que a probabilidade de uma greve em meio à epidemia é quase nula.

"Nós não queremos parar de jeito nenhum, ainda mais em um momento como este. O Brasil precisa de nós. Houve só uma conversa [sobre paralisação para o], caso a gente não tenha condições de fazer nosso trabalho Mas queremos continuar na estrada", disse França.

"Por enquanto, só estamos falando de saúde. Seria bom parar uns dois dias para o governo ver que existimos, mas acho difícil, não tem a união total [dos caminhoneiros] que precisaria", concordou Dedéco.

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