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Recessão ameaça trabalho e renda do brasileiro em 2022, dizem economistas

João José Oliveira

Do UOL, em São Paulo

02/12/2021 09h10Atualizada em 02/12/2021 11h20

Resumo da notícia

  • Com dólar, inflação e juros em alta, cresce risco de recessão se aprofundar no Brasil, dizem economistas
  • Desempenho do PIB no 3º trimestre reforça perigo de queda da economia ano que vem
  • Crescimento de serviços e da agropecuária podem ajudar economia brasileira em 2022

O PIB (Produto Interno Bruto) brasileiro caiu 0,1% no terceiro trimestre, e isso significa que o país está em recessão (economia mais fraca, com desemprego em alta e menos consumo, por exemplo). Segundo economistas, os últimos indicadores divulgados fortalecem a possibilidade de aprofundamento da recessão no ano que vem, o que deve atrapalhar a criação de vagas de trabalho e o aumento da renda média do trabalhador.

No segundo trimestre, o PIB caiu 0,4% (a divulgação inicial foi de -0,1%, mas o IBGE revisou agora para -0,4%). Por definição técnica, um país entra em recessão quando há dois trimestres seguidos de recuo. O resultado deste ano já coloca em risco o crescimento da economia brasileira também em 2022.

Os principais adversários da economia brasileira neste ano são os mesmos que devem continuar enfraquecendo a atividade econômica em 2022. Segundo economistas ouvidos pelo UOL, dólar valorizado, inflação e juros elevados vão continuar atrasando projetos das empresas e o consumo das famílias.

Segundo projeções de mais de cem instituições financeiras e consultorias apuradas pelo Banco Central por meio do Boletim Focus, o PIB brasileiro vai fechar 2021 com crescimento de 4,7%. Mas no ano que vem o indicador de tudo o que é produzido e consumido no país deve avançar apenas 0,6%.

Essas previsões estão piorando semana após semana. No começo de novembro, por exemplo, esses mesmos economistas diziam que o PIB iria crescer 5% em 2021 e 1,2% em 2022.

A desaceleração da economia neste ano deixa poucos vetores para o crescimento em 2022. O desemprego está elevado, temos queda da renda real, a inflação segue persistente, a alta da taxa de juros vai continuar. Tudo isso reduz consumo e nível de investimentos.
Antonio Correa de Lacerda, presidente do Conselho Federal de Economia (Cofecon) e professor de Economia Política da PUC-SP

O que acontece com a economia?

Inflação: Os economistas estão ficando mais pessimistas com relação à economia brasileira por causa da inflação. Os preços simplesmente não param de subir.

No começo do ano, por exemplo, o mercado esperava um IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo), indicador oficial de inflação do governo, de 4% neste ano. Mas ele já ultrapassou os 10% no acumulado em 12 meses.

A inflação diminui o poder de compra das famílias porque os salários e a renda não acompanham os reajustes de preços. Segundo o IBGE, o rendimento real habitual dos ocupados brasileiros em setembro, de R$ 2.459,00, é 11,1% menor que no terceiro trimestre do ano passado.

Embora a taxa de desemprego tenha diminuído neste ano, ainda há mais de 13 milhões de brasileiros sem fonte de renda.

O processo inflacionário, que só terá trajetória de queda no segundo semestre do ano que vem, vai continuar pressionando a renda das famílias, provocando resultados negativos principalmente nos setores de varejo e serviços.
Yihao Lin, economista coordenador econômico da Genial Investimentos

Juros: Para tentar recuperar o controle sobre a inflação, o Banco Central começou a subir juros. A taxa básica de juros, a Selic, já chegou ao maior patamar desde 2015. E a expectativa do mercado é que os juros sigam subindo até 11,25%, no ano que vem.

Juros altos combatem a inflação porque tornam empréstimos mais caros e isso reduz as compras.

A alta de juros encontra família e empresas muito endividadas. E quando a gente vê o que sinalizam os últimos indicadores da economia, na indústria e nos serviços, a gente vê que o efeito desse cenário para renda e emprego é terrível.
André Roncaglia de Carvalho, professor de economia, Unifesp Universidade Federal de São Paulo

Dólar: A inflação agora no Brasil - e no mundo - é a chamada inflação de oferta, que ocorre quando os custos das empresas estão aumentando por motivos sem ligação com o consumo das famílias. Com a pandemia, as matérias-primas (grãos, metais, petróleo) ficaram mais caras em todo o mundo.

Mas no Brasil o quadro é agravado porque a maior parte dessas matérias-primas é cotada em dólar. A moeda americana vale hoje 25% mais que antes da pandemia. Segundo economistas, o dólar deveria estar valendo algo como R$ 4,80, considerando os fundamentos da economia brasileira.

E essa diferença é provocada por incertezas de investidores e empresários estrangeiros com relação à política brasileira. Eles não sabem se o governo vai respeitar as regras de não gastar mais do que a lei permite.

Na dúvida, ou eles reduzem o fluxo de dólares para o Brasil, ou pedem juros maiores para aplicar aqui. É o chamado risco-país.

Esse problema é agravado pela questão eleitoral. Com a incerteza, o empresário vai adiar as decisões até ficar claro como será o novo governo.
Alexandre Espírito Santo, economista-chefe da Órama Investimentos e professor do Ibmec-RJ

Cenário mais pessimista

Segundo economistas, no cenário mais pessimista, os três problemas que já atrapalham o PIB brasileiro neste ano vão continuar afetando a economia em 2022.

A inflação até vai desacelerar, mas de forma mais forte apenas no segundo semestre e, ainda assim, vai continuar elevada, acima da meta do Banco Central. Os juros estarão mais salgados que em 2021, e o dólar deve seguir na casa de R$ 5,50.

Antonio Correa de Lacerda ainda aponta uma questão. Em 2021, tivemos um efeito estatístico positivo de 3,6%, que veio de 2020 (o resultado do ano anterior ajuda nos números do ano seguinte). Em 2022, esse efeito deve ser quase nulo.

Nesse cenário, a continuação do quadro de recessão no ano que aparece já no radar de grandes bancos, como o Itaú Unibanco, maior instituição financeira privada do país, e o suiço Credit Suisse, que veem o PIB do Brasil caindo 0,5% em 2022.

Taxas de juros mais altas levarão a uma atividade econômica mais fraca, e agora vemos recuo moderado de 0,5% do PIB em 2022.
Itaú Unibanco, em relatório

Cenário mais otimista

No cenário mais otimista, a economia brasileira pode ainda fechar o ano que vem com um pequeno crescimento, contando com a ajuda de alguns fatores, segundo apontam economistas ouvidos pelo UOL.

  • Recuperação mais forte do setor de serviços, com maior abertura de vagas no comércio, por exemplo.
  • Boa safra agrícola, que possa aliviar a inflação de alimentos.
  • Queda do valor do petróleo, que permita reduzir os preços dos combustíveis.
  • Chuvas que afastem totalmente risco de racionamento de energia e permitam uma redução dos preços da energia elétrica.

Se não tivermos outra onda da pandemia, e o setor de serviços conseguir ganhar força, haverá um impulso na indústria e no varejo. Retomando o emprego, é possível que a gente não feche 2022 em recessão. Mas ainda assim será um crescimento fraco, sem aumento da renda média.
André Roncaglia de Carvalho, Unifesp

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