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Por que está cada vez mais difícil achar produtos com quantidades redondas?

Produtos têm quantidades reduzidas - Reprodução/Instagram
Produtos têm quantidades reduzidas Imagem: Reprodução/Instagram

Felipe de Souza

Colaboração para o UOL, em Campinas (SP)

08/06/2022 04h00Atualizada em 08/06/2022 10h37

Você já reparou que está cada vez mais difícil encontrar produtos com quantidades redondas nas prateleiras dos supermercados? O sabão em pó não é mais de um ou dois quilos, e a lata de ervilha não pesa mais 300 gramas.

Não é só impressão. A redução da quantidade de produto que vem nas embalagens é um dos efeitos diretos da aceleração da inflação, que criou um efeito chamado "reduflação".

"Para evitar aumento, a empresa fabricante mantém o preço, mas reduz a quantidade do produto vendido, o que na prática é um aumento no valor pago pelo consumidor", explica o economista e membro do IBGC (Instituto Brasileiro de Governança Corporativa) Carlos Caixeta. "As empresas procuram evitar aumento de preços porque os produtos ficam menos competitivos, reduzindo as vendas e comprometendo sua saúde financeira."

O UOL percorreu alguns supermercados do interior de São Paulo e constatou várias alterações. Uma embalagem com ervilhas (conhecida como pouch), que pesava 300 gramas com líquido, agora pesa 260 gramas.

ervilha - Felipe de Souza/Colaboração para o UOL - Felipe de Souza/Colaboração para o UOL
Ervilha com quantidade reduzida de produto, com 40g a menos
Imagem: Felipe de Souza/Colaboração para o UOL

O biscoito tipo wafer, que antes vinha em uma embalagem com 200g, agora pesa 160g. Praticamente todas as marcas de sabão em pó vêm com 800 gramas. Algumas até criaram embalagens ainda menores, de 200 gramas a 400 gramas, com o argumento de que o uso é voltado para "pessoas que moram sozinhas".

Os rolos de papel higiênico —que, a propósito, agora vêm "amassados" para que as embalagens fiquem menores —têm de 5 metros a 10 metros menos do que antes.

Exemplos não faltam. Nas redes sociais, há várias reclamações sobre produtos que tiveram as quantidades reduzidas.

O que explica as medidas 'quebradas'?

O UOL questionou algumas companhias sobre o motivo de os produtos não virem mais com os pesos "redondos".

As empresas alegam que a redução nas embalagens faz parte das estratégias de venda e de consumo, além da "adaptação de mercado", mas nenhuma explicou por que as reduções são feitas de modo a deixar as embalagens com medidas "quebradas".

Caixeta resume a situação: ou mantém o preço, ou reduz de alguma forma. E a forma encontrada é justamente na produção.

A opinião é compartilhada pelo coordenador da área de Cível, Relações de Trabalho e Consumo na Andrade e Silva Advogados, Aldemir Pereira Nogueira, que acredita que os pesos já não são mais redondos para passar uma "falsa sensação" de que o consumidor está levando produtos mais baratos.

"Em vez de aumentar o preço, é reduzida a gramatura, causando essa ideia de que o produto está com preço mais barato. Contudo, isso pode confundir o consumidor no ato da compra, caso a informação não seja clara", disse.

Pode ou não pode reduzir?

As empresas podem legalmente reduzir os produtos, mas com ressalvas. É o que explica o coordenador da área Cível, Relações de Trabalho e Consumo na Andrade Silva Advogados, Aldemir Pereira Nogueira.

As alterações podem ser feitas, desde que corretamente informadas ao consumidor, conforme determinação do Ministério da Justiça (portaria 81, de 23 de janeiro de 2002) e do Código de Defesa do Consumidor (Lei nº 8.078, de 11 de setembro de 1990).

"O fabricante tem que informar de forma clara e específica a alteração do tamanho. Exemplo: se houve redução da quantidade, deve-se colocar quanto era antes, para quanto foi e a porcentagem de redução, em letra legível na embalagem", explica.

Nogueira lembra que as empresas devem manter essa comunicação por pelo menos três meses.

Caso o consumidor perceba que o produto foi alterado, mas não houve informação adequada, pode recorrer aos órgãos de defesa do consumidor, e as empresas podem ser multadas por maquiagem de produto. Os valores chegam a R$ 9,9 milhões.