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Flávio: Pedro deixará a Caixa para não usarem denúncias contra Bolsonaro

28.mar.2022 - Pedro Guimarães, presidente da Caixa Econômica Federal - Valter Campanato/Agência Brasil
28.mar.2022 - Pedro Guimarães, presidente da Caixa Econômica Federal Imagem: Valter Campanato/Agência Brasil

Do UOL, em São Paulo

29/06/2022 16h08Atualizada em 29/06/2022 17h05

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) disse hoje que o presidente da Caixa Econômica Federal, Pedro Guimarães, deixará o cargo no banco para que as denúncias de assédio sexual de funcionárias contra o chefe da estatal não sejam usadas contra o presidente Jair Bolsonaro (PL) na campanha à reeleição.

Apesar das críticas, Flávio elogiou o trabalho de Pedro à frente da Caixa e chamou o aliado do presidente de "competente".

Então, assim, a tentativa da oposição e de parte da imprensa de querer vincular ao presidente Bolsonaro não tem nada a ver. O presidente Bolsonaro agora vai ser responsável por questões pessoais, por condutas pessoais que não têm nada a ver com o serviço público para o qual ele foi escolhido para exercer uma determinada missão? O presidente obviamente não tem nada a ver com isso. Flávio Bolsonaro ao jornal O Estado de S.Paulo

Flávio declarou que a "coisa [denúncias] surgiu agora" após veiculação do site Metrópoles e afirmou que "isso é inaceitável" para o governo. De acordo com o senador, Bolsonaro conversou diretamente com Pedro na noite de ontem no Palácio da Alvorada, em Brasília. Mais cedo, Bolsonaro ignorou o tema em conversa com apoiadores.

"Então, a decisão do presidente foi correta de imediatamente chamar o Pedro pra conversar e o Pedro compreendeu que poderia ser usado pra explorar o presidente, já que é um problema inaceitável, mas é coisa de cunho pessoal do Pedro; não tem nada a ver com o governo, não tem nada a ver com a presidência... e a conversa foi nessa linha", explicou, destacando que soube depois do tom da conversa e que Bolsonaro "já tinha tomado [a decisão] de tirar o Pedro de lá".

Segundo o filho do presidente, a decisão de Bolsonaro servirá "para preservar o próprio Pedro e o governo mostrando que não compactua com isso". Ao ser questionado sobre se a saída de Pedro Guimarães será "a pedido" ou exoneração, Flávio informou que não sabe qual será o despacho no DOU (Diário Oficial da União).

"Eu não sei qual vai ser formalmente o despacho no Diário Oficial. Mas o fato é que formalmente, imediatamente partiu dele: 'olha, Pedro, não dá; tão acusando você aí'... E o Pedro de pronto entendeu, já foi conversar sabendo que isso deveria acontecer."

Bolsonaro não sabia das denúncias, diz Flávio

Flávio também alegou em entrevista ao jornal que Bolsonaro não sabia das denúncias contra o presidente do banco estatal. O senador declarou ainda que as denúncias de assédio sexual parecem ser "bem robustas". O MPT (Ministério Público do Trabalho) do Distrito Federal e o MPF (Ministério Público Federal) abriram investigações para apurar as denúncias.

"Que eu saiba, eles tão sabendo agora quando o fato se tornou público e qualquer rumor ou boato que tivesse aí... Como presidente vai tomar qualquer tipo de conduta com base em boatos? Não pode fazer isso. Mas, do jeito que os fatos estão se apresentando, parece que são bem robustos. E aí, pra preservar o próprio Pedro da Caixa e o governo mostrar que não compactua com isso, essa atitude foi tomada."

Pedro Guimarães é presidente da Caixa desde o início do atual governo e é presença frequente em eventos ao lado de Jair Bolsonaro, além de participar várias vezes da live semanal do mandatário.

O senador, que é também um dos coordenadores da campanha do pai, informou que Pedro tinha pretensões políticas "mas nunca o presidente cogitou colocá-lo de vice" e ainda exaltou o trabalho feito pelo presidente da Caixa.

O perfil dele [Pedro], apesar de um baita de um... separando a parte pessoal da profissional, né, sendo possível separar as duas partes: ele é um profissional que fez um trabalho ímpar na Caixa. Você tirar um retrato do que é a Caixa Econômica hoje e o que ela era antes do governo... é incomparável. A melhoria, o superávit, toda a função social que a Caixa cumpriu na questão da Casa Verde e Amarela, na questão do auxílio emergencial e agora do Auxílio Brasil... de todo o compliance (política de governança) que foi implementado lá dentro. Então, é uma pessoa que inegavelmente é competente. Flávio Bolsonaro ao jornal O Estado de S.Paulo

E continuou: "Mas, obviamente, é inaceitável uma conduta pessoal dessa, que não tem nada a ver com o governo, com o trabalho... Alguém que usa a sua posição dentro de uma empresa dentro de um cargo público pra assediar alguém, isso o presidente Bolsonaro não compactua".

Nomeação de Daniella Marques para o cargo

Flávio também confirmou o nome de Daniella Marques, atual secretária especial de Produtividade e Competitividade e parceira do ministro da Economia, Paulo Guedes, para a chefia da Caixa no lugar de Pedro Guimarães. A informação foi adiantada pela colunista do UOL Carla Araújo na manhã de hoje.

Ao ser perguntado sobre o tempo que demoraria para a nomeação da nova presidente, Flávio respondeu: "Acredito que publique a desoneração dele de hoje para amanhã, junto com a nomeação dela". Ele rasgou elogios para a secretária especial da Economia.

"As áreas em que estão havendo essas trocas são áreas bastante técnicas e o ministro [Guedes] trouxe uma equipe brilhante pra dentro do governo. Grande parte das pessoas já eram bem-sucedidas no setor privado, como é o caso da Daniella Marques. Uma pessoa que jamais precisaria estar no governo vem porque se identifica com as maneiras, porque a missão de ajudar as pessoas — no caso específico dela, as mulheres, onde ela está agora, — é uma missão muito nobre, motiva muito a Daniela. E eu particularmente sou um grande admirador do trabalho dela."

Por fim, o parlamentar também destacou que a nomeação de uma mulher no cargo em meio às denúncias de funcionárias "foi pensada para dar uma resposta mais do que clara, pra evitar qualquer tipo de dúvida de interpretação de que o presidente Bolsonaro não admite esse tipo de conduta dentro do governo dele".

A nomeação de uma mulher também ocorre enquanto o governo Bolsonaro encontra resistência em meio ao eleitorado feminino, tido como um dos grupos importantes no pleito deste ano.

Denúncias de assédio sexual

Ontem, o portal Metrópoles divulgou denúncias de funcionárias do banco, que incluem toques íntimos não autorizados, abordagens inadequadas e convites incompatíveis com a relação de trabalho supostamente praticadas por Pedro Guimarães. Os atos começaram a surgir no fim do ano passado.

Todas as mulheres que falaram ao Metrópoles, sem que seus nomes fossem divulgados, trabalham ou trabalharam em equipes que atendem diretamente o gabinete da presidência da Caixa. As cinco entrevistadas disseram que se sentiram abusadas em diferentes ocasiões, e sempre em compromissos de trabalho.

Os casos teriam acontecido, muitas vezes, em viagens relacionadas ao programa Caixa Mais Brasil. Segundo relato, o presidente do banco escolhe, preferencialmente, "mulheres bonitas" para as comitivas nas viagens. De acordo com Ana*, uma das funcionárias que denunciaram o assédio, o comunicado de escolha é como um prêmio.

Outra prática comum, segundo as funcionárias, é que mulheres que despertam a atenção de Guimarães durante as viagens sejam chamadas para atuar em Brasília, muitas vezes promovidas hierarquicamente sem preencher requisitos necessários. A prática deu, inclusive, origem a uma expressão usada para se referir a elas: "disco voador".

Em contato com o UOL, o Ministério da Economia disse que não irá se manifestar sobre o caso.

Em nota, a Caixa afirma que "não tem conhecimento das denúncias apresentadas pelo veículo e que adota medidas de eliminação de condutas relacionadas a qualquer tipo de assédio.". Ainda no texto enviado ao UOL, a instituição diz que "o banco possui um sólido sistema de integridade, ancorado na observância dos diversos protocolos de prevenção, ao Código de Ética e ao de Conduta, que vedam a prática de 'qualquer tipo de assédio, mediante conduta verbal ou física de humilhação, coação ou ameaça'".

Guimarães participou e discursou nesta manhã em um evento da Caixa apesar de o banco ter cancelado o pronunciamento e coletiva de imprensa do evento na noite de ontem. O presidente da empresa chegou ao local acompanhado da esposa. Em discurso, ele afirmou que tem uma "vida pautada pela ética", mas não mencionou diretamente o caso.

*Nome fictício