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Caixa: Funcionários dizem que sofreram retaliação na gestão Guimarães

Pedro Duarte Guimarães, ex-presidente da Caixa Econômica Federal - Marcos Corrêa/PR
Pedro Duarte Guimarães, ex-presidente da Caixa Econômica Federal Imagem: Marcos Corrêa/PR

Do UOL, em São Paulo

15/07/2022 18h02Atualizada em 15/07/2022 18h05

Funcionários da Caixa Econômica Federal relatam perda de cargos como forma de retaliação durante a gestão do ex-presidente Pedro Guimarães. Os trabalhadores foram ouvidos pelo jornal O Globo.

Guimarães deixou o banco público após denúncias de assédio sexual. Ele nega todas as acusações.

Advogado do banco, Sebastião Barza afirmou ao jornal que perdeu o cargo de consultor jurídico em fevereiro de 2020, após a descoberta de que ele se filiou ao PT em 1997 - antes mesmo de entrar no banco. Apesar de garantir nunca ter feito militância política na Caixa, e dizer que se desfilou do partido, Barza relatou ter ouvido que ele iria para outro prédio para evitar o encontro do presidente "com esquerdistas".

"O que me foi dito é que, em razão disso [filiação ao PT], eu perderia minha função de consultor jurídico, porque não se admitiriam esquerdistas dentro da matriz. E que, para dar continuidade ao meu trabalho, teria que continuar em outro prédio, para que o presidente e as outras pessoas não topassem com esquerdistas nos corredores", relata Barza.

O advogado afirmou que soube que listas com nomes de filiados ao PT chegavam do Palácio do Planalto, e eram enviada a todas as estatais. Segundo explicou, era como uma "lista de pessoas que não eram desejadas".

Após a perda de função, Barza voltou para a Bahia, seu estado de origem. Para ele, o medo de retaliações impediu a formalização de denúncias à época. "Esse medo coletivo, em uma fase em que o governo estava forte, foi o que determinou que as pessoas se calassem e não denunciassem. Nós intuímos que isso seria abafado, pela força do governo na época e pela tônica. E que isso poderia se voltar contra a gente. Agora que estourou, que o Pedro Guimarães caiu, as pessoas podem tomar um pouco mais de coragem", avalia.

Procurada por O Globo, a defesa de Pedro Guimarães negou envolvimento na perda de funções dos funcionários: "Pedro Guimarães nunca tomou conhecimento do ocorrido. Jamais praticou, estimulou ou autorizou qualquer ato que possa ser caracterizado como perseguição", disse, em nota, José Luis Oliveira Lima, advogado do ex-presidente.

Regra sobre conselhos

O advogado Eduardo Pereira contou ter perdido o cargo logo após um episódio no qual Pedro Guimarães se irritou com funcionários e disse ter sido traído após descobrir uma mudança no regimento interno que, na prática, o faria perder mais de R$ 100 mil por mês. Ao O Globo, Pereira disse que, após a reunião, foi avisado pelo atual diretor jurídico do banco, Gryeco Loureiro, sobre a remoção de sua função de assessor da direção.

"Tenho desconforto em falar desse assunto. Mas efetivamente perdi minha função e a informação que me foi dada é que perdi a função por esse motivo. Ele [Loureiro] me relatou que essa situação teria desagradado o presidente e, em função disso, minha função estava sendo retirada, mas com a preservação do valor da minha função [salário]", conta.

Para O Globo, Gryecos Loureiro negou que tenha promovido mudanças por motivos ideológicos ou a mando de Pedro Guimarães. Segundo ele, os casos são apenas "decisões internas da diretoria jurídica".

A resolução que desagradou Guimarães foi, aprovada por executivos do banco em 2021, e estabelecia um limite à participação do presidente em conselhos de subsidiárias da Caixa e de empresas privadas das quais o banco é sócio. Ele chegou a integrar 18 conselhos, que lhe renderam mais de R$ 130 mil mensais em jetons (uma espécie de gratificação pelo trabalho extra), de acordo com o site Metrópoles. O valor era acrescentado ao salário de R$ 56 mil que Guimarães recebia como presidente da Caixa.

"O Mauro [Cunha, ex-presidente do Conselho de Administração da Caixa] nunca nem chegou a comentar isso comigo, porque ele sabia que era inaceitável. Então, isso é traição. Porque isso passou sem nunca ninguém passar para mim", afirmou Pedro Guimarães na ocasião.

Em seguida, ele pede que sua chefe de gabinete, Rozana Alves, o assessor Álvaro Pires e o vice-presidente da Caixa, Celso Leonardo Barbosa, façam um levantamento de tudo o que foi feito nos últimos três anos, "porque nego está me fod*, nego vai me fod*".

Relembra as acusações contra Pedro Guimarães

Os casos de assédio sexual relatados por funcionárias da Caixa contra Pedro Guimarães incluem toques íntimos não autorizados, abordagens inadequadas e convites incompatíveis à relação de trabalho. As denúncias estão sendo investigadas pelo Ministério Público Federal. O TCU (Tribunal de Contas da União) também pediu a órgãos de controle a abertura de investigação.

Depois dos primeiros casos, outros relatos surgiram. Uma testemunha, que é assessora de diretoria do banco e trabalhava na matriz, mas não diretamente com Guimarães, disse que as funcionárias se escondiam no banheiro ao ouvir a voz do chefe no corredor. O relato foi mostrado pela GloboNews.

Ua funcionária da Caixa há 11 anos e gerente de agência há 7 anos em uma capital do país, Rosimara* (nome fictício), afirma que a entrada de Guimarães na chefia do banco trouxe com ela uma naturalização da cultura do assédio.

Casos de assédio moral também foram denunciados. Áudios obtidos pela coluna de Rodrigo Rangel, no site Metrópoles, mostram o ex-presidente da Caixa ameaçando funcionários de demissão, além de uma rotina de xingamentos.

Caguei para a opinião de vocês porque eu que mando. Não estou perguntando. Isso aqui não é uma democracia, é aminhadecisão
Ex-presidente da Caixa, Pedro Guimarães, durante uma reunião

Em outro áudio, Guimarães insinua que pode demitir funcionários que tomarem decisões sem consultá-lo.

"Vocês são malucos. Vocês só têm a perder. Não tem que ligar para ninguém. Se eu não dei ok, não dei ok e acabou. Por que vocês vão tomar o risco de perder a função por uma coisa que eu não autorizei?", questiona Guimarães.