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Plano de Bolsonaro promete de novo subir isenção do IR a 5 salários mínimos

O presidente Jair Bolsonaro - Zanone Fraissat/Folhapress
O presidente Jair Bolsonaro Imagem: Zanone Fraissat/Folhapress

Do UOL, em Brasília e São Paulo

10/08/2022 10h18

O plano de governo do presidente Jair Bolsonaro (PL), candidato à reeleição ao Palácio do Planalto, foi atualizado pela equipe de campanha, reciclando a promessa —feita em 2018 e não cumprida— de ampliar a isenção do Imposto de Renda para cinco salários mínimos, o que equivale a R$ 6.060 em 2022. Na versão anterior do plano, à qual o UOL teve acesso ontem, a promessa era de subir bem menos, para R$ 2.500, o que beneficiaria menos gente. Hoje a isenção vale para quem ganha até R$ 1.903,98 por mês.

"O governo reeleito de Jair Bolsonaro continuará perseguindo a efetivação dessa proposta e a ampliação da desoneração ao trabalhador. Sem a pandemia e com o crescimento econômico, com responsabilidade fiscal, será possível perseguir o objetivo de isentar os trabalhadores que recebam até cinco salários mínimos durante a gestão 2023-2026", diz o documento.

O texto foi organizado pelo candidato a vice na chapa do presidente, o general Walter Braga Netto. O marqueteiro oficial da campanha, Duda Lima, também foi um dos responsáveis pela formatação das propostas.

A promessa é a mesma feita na campanha de 2018. Na época, isentar de IR quem ganhava até cinco salários mínimos equivalia a R$ 4.770.

O plano de governo deste ano menciona que o governo tentou subir a isenção do IR para R$ 2.500 por meio da reforma tributária. "Em julho de 2021, foi enviada ao Congresso Nacional uma proposta que chegou a ser aprovada pela Câmara dos Deputados, mas não avançou no Senado", afirma o documento.

É verdade que a reforma tributária está parada no Senado, mas o governo não depende dela para corrigir a tabela do imposto. Se quiser, pode editar uma medida provisória, como fizeram outros presidentes.

Promessa de auxílio de R$ 600, sem mencionar necessidade de PEC

Apesar de não detalhar a fonte de recursos nem citar a dependência de um aval do Congresso Nacional para manter o Auxílio Brasil em R$ 600, o programa de governo reforça a promessa que Bolsonaro tem feito da manutenção do valor do benefício.

O documento diz que, caso o presidente seja reeleito, "um dos compromissos prioritários será a manutenção do valor de R$ 600 para o Auxílio Brasil a partir de janeiro de 2023".

O programa que substituiu o Bolsa Família pagava parcelas de R$ 400. Mas, após o Congresso aprovar a PEC Kamikaze com a bênção do Executivo, driblou as regras do teto de gastos e ampliou os valores de benefícios, em ano eleitoral. A medida, porém, só vale até o final de 2022.

Em entrevista ao SBT na semana passada, o presidente admitiu que precisará de uma nova PEC para conseguir manter o valor do benefício no patamar atual.

Sem privatização da Petrobras

O programa de governo do presidente Bolsonaro para 2023-2026 não trata da privatização da Petrobras. Segundo auxiliares da campanha, a exclusão da estatal tem uma explicação: o tema é polêmico, com potencial de tirar mais votos do que atrair o eleitorado.

A orientação de deixar o tema de fora do programa foi da chamada ala política e dos marqueteiros da campanha. A avaliação é que Bolsonaro deve continuar falando da redução do preço dos combustíveis, mas sem atrair para si a polêmica da privatização.

Reajuste dos servidores

Com salários congelados desde 2019, os servidores teriam reajuste na remuneração, de acordo com a minuta do plano de governo de Bolsonaro. Segundo o documento, "o aperfeiçoamento dos seus planos de cargos e salários será um dos meios de incentivar o servidor".

O governo tem sido pressionado por algumas categorias do funcionalismo, sobretudo os profissionais da segurança pública, que cobravam o presidente pelo aumento salarial. Bolsonaro chegou a prometer o reajuste, mas o ministro da Economia, Paulo Guedes, alegou falta de dinheiro.

Valores conservadores no plano

O plano de governo com 48 páginas reforça valores conservadores e reedita propostas que já estavam no plano apresentado nas eleições de 2018. (Para ler mais detalhes do material, clique aqui)

Segundo integrantes da campanha, o primeiro passo para a elaboração do texto foi identificar as promessas de 2018 e também as ações e "entregas" do governo entre 2019 e 2022.

Na essência, o governo reeleito de Bolsonaro continuará a implementar as mudanças e reformas estruturantes (que só não foram mais abrangentes devido à pandemia de Covid-19 e a guerra entre a Federação da Rússia e a Ucrânia), com o objetivo de melhorar a eficiência dos gastos públicos. Dessa forma, revendo gastos, desvinculando, desobrigando e desindexando as despesas, aumentar a eficiência do uso do dinheiro público para atender as reais necessidades da população brasileira, garantindo a renda básica, a educação, a saúde e a segurança.
Trecho do documento

Com o lema "pelo bem do Brasil", o documento aponta como "valores e princípios centrais" do plano de governo um capítulo denominado "A liberdade e a vida". Nesse trecho, são citadas as liberdades "econômica, religiosa, de expressão, para a defesa de direitos e para o uso responsável dos recursos naturais".

No programa, Bolsonaro, que tem dificuldades com o eleitorado feminino, diz que dará continuidade ao modelo de gestão que prioriza a geração de emprego e o empreendedorismo, "em especial das mulheres, para a redução das desigualdades, para a prosperidade e pelo bem do Brasil".

Além disso, a proposta da reeleição afirma que os valores conservadores representados "por Deus, Pátria, Família, Vida e Liberdade são inegociáveis".

"Liberdade é tão importante quanto a própria vida! Ela não tem serventia se a vida do cidadão é caracterizada pelo autoritarismo; pelas intervenções do Estado na sua família e nas suas propriedades; pelas tentativas de cercear o direito inalienável da imprensa de informar livremente, pela falta de segurança jurídica ou da possibilidade de escolhas individuais", diz o texto.

'Eleições seguras', sem falar de urna eletrônica

Uma das principais bandeiras de Bolsonaro ultimamente, o questionamento da confiabilidade das urnas eletrônicas, sem apresentação de provas, ficou de fora do documento, pelo menos por enquanto. A visão da campanha é de que toda vez que Bolsonaro ataca o sistema eleitoral sua rejeição sobe.

Justamente por isso, com os dizeres "Democracia, soberania, universalismo e equilíbrio", um trecho da minuta defende eleições "seguras".

O texto diz que o governo Bolsonaro tem primado por defender e promover o regime democrático e, se for reeleito, buscará interagir com países que defendam "valores que são caros aos brasileiros e se encaixem no ambiente democrático", como "eleições livres e transparentes, liberdade de opinião, igualdade e respeito aos Poderes constituídos e sua independência constitucional".

Apesar desse trecho, durante todo seu mandato, o presidente tem feito ataques às urnas e a instituições, principalmente o STF (Supremo Tribunal Federal) e o TSE (Tribunal Superior Eleitoral), e feito ameaças golpistas.

Segurança pública

Assim como em 2018, estão entre as promessas de Bolsonaro ações de interesse de policiais e militares, como o excludente de ilicitude. "O governo federal encaminhou projeto de lei sobre o excludente de ilicitude para maior proteção do profissional da Segurança Pública e das Forças Armadas em operações. Essa conquista será perseguida pelo governo no novo mandato", diz a minuta.

Em junho, a comissão de Segurança Pública da Câmara, composta majoritariamente por parlamentares da bancada da bala, aprovou um projeto de lei que amplia as hipóteses de excludente de ilicitude a policiais e a integrantes das Forças Armadas empregados em ações subsidiárias e de garantia da lei da ordem.

Na prática, o texto cria novas situações — além das já previstas no CP (Código Penal) e no CCP (Código de Processo Penal) — para evitar punição aos agentes de segurança que matarem alguém durante uma operação, por exemplo.

Armas de fogo

Nessas eleições, Bolsonaro seguirá defendendo a flexibilização nas regras de acesso às armas de fogo no país, com a justificativa de contribuir para a "pacificação social e preservação da vida".

"Neste segundo mandato, serão preservados e ampliados o direito fundamental à legítima defesa e à liberdade individual, especialmente quanto ao fortalecimento dos institutos legais que assegurem o acesso à arma de fogo aos cidadãos", diz.

Durante o governo Bolsonaro, o número de pessoas com registro de atividades de caçador, atirador desportivo e colecionador (CAC) cresceu 474%, segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP).