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'Eu ia completar um ano no iFood e tinha férias marcadas, mas fui demitido'

O iFood demitiu 355 funcionários de diversas áreas nesta semana - Adriana Toffetti/A7 Press/Folhapress
O iFood demitiu 355 funcionários de diversas áreas nesta semana Imagem: Adriana Toffetti/A7 Press/Folhapress

Do UOL, em São Paulo

03/03/2023 04h00Atualizada em 03/03/2023 11h43

José (nome fictício) iniciou mais um dia de trabalho no iFood na quarta-feira (1º). Por volta do meio-dia, foi chamado para uma reunião online com seus gestores para o que imaginou ser mais uma conversa sobre trabalho. Entretanto, soube ali que seria demitido.

Ele está na lista de 355 profissionais desligados pela startup de entrega de refeições. Em meio a tantos anúncios que atingiram sua equipe, José afirma que o seu corte tem um incômodo a mais.

Eu ia completar um ano no iFood semana que vem, mas fui demitido. Já tinha marcado férias para o meio do ano, estou com viagem comprada. Não posso perder, faz muito tempo que eu não consigo descansar.
José (nome fictício), funcionário demitido do iFood

O UOL conversou com profissionais de diferentes áreas que foram cortados pelo iFood. Todos afirmaram não estar surpresos com as demissões. Eles aceitaram conversar com a reportagem sob condição de anonimato —sem ter seus nomes e cargos revelados.

A empresa justifica o enxugamento de 6,5% do seu quadro atual —são cerca de 5,1 mil contratados— pelo "atual cenário econômico mundial" (veja nota ao final da matéria).

Após demitir em massa, o iFood prometeu alguns benefícios a ex-funcionários. São eles o pagamento temporário de plano de saúde, auxílio-alimentação e uma assinatura do LinkedIn Premium. A empresa também doará notebooks e celulares corporativos.

Unificação de equipes trouxe sobrecarga

Desde antes da virada do ano, José descreve o clima no iFood como "tenso". Ele afirma que houve trocas frequentes de lideranças nos últimos meses, além do congelamento de novas vagas, o que trouxe uma sobrecarga de trabalho.

Algumas áreas foram unificadas dentro da empresa, segundo ele. Só que a junção de equipes tão distintas trouxe desentendimentos sobre o que era prioridade ou não no trabalho.

Havia uma pressão muito alta em cima de metas. Muitas não foram atingidas porque eram inalcançáveis. Os gestores não se conversaram entre si, havia um conflito ali que todo mundo via.
José

Clima de insegurança antes das demissões

A empresa dizia que sua saúde financeira estava boa, segundo Janaína (nome fictício). Ela tinha um cargo de nível executivo e diz que ouviu essa informação da alta liderança do iFood que a saúde financeira da empresa ia bem. Em um fórum exclusivo para funcionários, o discurso era, nas palavras dela, o seguinte: "O iFood é o melhor lugar para estar no Brasil agora".

No entanto, a realidade seria diferente. Janaína diz que as trocas frequentes de cargos de gestores trouxeram um ar de insegurança para o trabalho.

O desafio era tão desgastante, e o time tão pouco integrado, que eu já estava no ponto de só fazer o meu trabalho mesmo.
Janaína (nome fictício), ex-executiva do iFood

Janaína também soube de sua demissão por chamada de vídeo. Ela ouviu de seus chefes que o corte foi motivado pela "mudança de projeto", e não pelo seu desempenho.

O recálculo de rota também afetou o trabalho de Marcos (nome fictício), que estava havia menos de um ano no iFood. Em janeiro, ele soube que seria demitido apenas no final de março. Seu espanto foi saber do corte já no início do mês.

Ele foi o único de uma equipe de quatro pessoas que perdeu o emprego, mas elogia a "transparência" de seus ex-chefes para tratar do assunto. "Eu tive uma passagem muito boa pelo iFood, gostei bastante", declara Marcos, que já começou a procurar um novo trabalho.

O que diz nota do iFood sobre demissões

Após as demissões, a empresa enviou ao UOL a seguinte nota:

"O cenário econômico em todo o mundo exigiu de muitas empresas ações imediatas para definir rotas de negócio para continuarem crescendo e oferecendo seus serviços e produtos aos seus clientes e parceiros.

Assim, ontem, infelizmente, tivemos de fazer o desligamento de 355 colaboradores, o que correspondia a 6,5% do nosso quadro em 28/2.

A condução deste momento foi dada com muita responsabilidade, com a liderança conversando individualmente com as pessoas e garantindo que todos tivessem o suporte necessário neste momento, incluindo extensão de plano de saúde, auxílio-alimentação, suporte para recolocação e doação dos equipamentos de trabalho (computadores e celulares).

Tudo com o máximo teor de respeito, responsabilidade, ética, coisas das quais não abrimos mão por aqui.

O comprometimento de todas as equipes segue firme e continuamos com o objetivo de crescer cada vez mais nos negócios priorizados, de maneira eficiente e rentável.

Estamos solidificando nossas posições nos mercados em que já temos vantagem de liderança e onde vemos maior potencial de criação de valor, crescimento, rentabilidade e geração de caixa."