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PIB cresce, mas famílias lutam para se reerguer: 'Ainda mais endividados'

Felipe da Silva, ex-dono de padaria reduziu gastos, mas ainda não conseguiu liquidar as dívidas - Divulgação
Felipe da Silva, ex-dono de padaria reduziu gastos, mas ainda não conseguiu liquidar as dívidas Imagem: Divulgação

Marcela Schiavon

Colaboração para o UOL, em São Paulo

01/06/2023 09h04

Felipe, 34, parou de lavar roupa na mão, mas viu sua dívida aumentar. Alan, 27, tem obtido uma renda extra com vendas na internet, mas não sobrou dinheiro para consertar as goteiras da casa. Carla, 40, terminou de pagar as parcelas da troca do carro, mas desde a pandemia ainda sonha viajar de novo com a família. Trabalhadores ouvidos pelo UOL contam que ainda enfrentam dificuldades para pagar as dívidas e para recuperar o nível de renda e padrão de consumo do período pré-pandemia.

O IBGE divulgou hoje que o PIB (Produto Interno Bruto) cresceu 1,9%, puxado pela agropecuária. O consumo das famílias desacelerou e teve alta de apenas 0,2%.

'O que era uma renda extra hoje é a renda principal'

Felipe da Silva, viu a padaria da família fechar com a pandemia e até agora não conseguiu se reerguer completamente. Ele vive com os pais e compartilha a guarda dos dois filhos. Morador de Mauá (SP), ele conta que arcou com todos os direitos trabalhistas da demissão dos 12 funcionários e ficou sem uma fonte de renda fixa.

Ele tentou abrir uma hamburgueria em 2022, mas não teve sucesso. Hoje, a renda da família vem da venda de salgados. Eles vendem por meio de aplicativos de entrega e também fornecem para estabelecimentos e eventos. A mãe de Felipe, Dina, é funcionária pública, mas seu salário não é o bastante para suprir as necessidades financeiras da família. "Começamos a trabalhar por conta. O que era uma renda extra, hoje é a renda principal. Temos sobrevivido com isso", diz.

Ele recorreu ao cheque especial para tentar pagar as dívidas e ainda está com o nome sujo. "Enfrentamos dificuldades para pagar todas as contas e acabamos nos endividando ainda mais", conta. Eles contam com a ajuda de amigos e família para parcelar compras, já que não conseguem ter o nome limpo para solicitar cartão de crédito.

Desde então, abriu mão de viagens e lazer em família, para priorizar o pagamento das contas. "Faz uns três anos que não temos lazer com a família. Atualmente, temos tentado nos reestabelecer financeiramente para ter um lazer de qualidade", diz.

Também não conseguem comprar novos eletrodomésticos. Houve um período em que ficaram sem máquina de lavar roupa, lavando tudo à mão. Conseguiu comprar a máquina este ano. Aos poucos, ele está se reerguendo financeiramente e abatendo as dívidas.

A gente não aproveita a vida, por selecionar as prioridades. Então, o que deixamos de fazer? Aproveitar a vida, mesmo."

'Não consigo comprar telhas e acabar com goteiras'

Alan Luiz Foganholi e sua mãe, Angela - Divulgação - Divulgação
Alan Luiz Foganholi e sua mãe, Angela
Imagem: Divulgação

O contador Alan Luiz Foganholi ainda não conseguiu pagar as prestações de um empréstimo. Por isso não tem sobrado dinheiro para acabar com as goteiras de sua casa. Ele é de Santo André, e ainda está pagando um crédito pessoal de R$ 5.000 que fez na época da pandemia.

Há seis anos, ele não tem condições de comprar material de qualidade para resolver o problema das goteiras nos quartos. "Tenho um empréstimo para pagar até 2024. Até lá, meus gastos pessoais ficam limitados e não consigo comprar telhas para a casa", diz ele. Foganholi tenta remendar a situação das goteiras com manta líquida, que é a solução mais econômica.

Para levantar uma renda extra, conta com uma lojinha no Instagram. Lá ele vende camisas de times, mas diz que as vendas ainda estão baixas. O contador mora com a mãe, Angela, que é diarista.

Ele e a mãe deixaram de lado passeios ao shopping e a compra de itens como biscoitos e chocolates. Ele também deixou de comprar as amadas camisetas de time para uso próprio. "Recentemente a gente ia em um show, mas acabou que pelo preço do ingresso a gente desistiu de ir", diz.

Às vezes deixo [de comprar] algum item que eu queria muito porque tenho que pagar esse empréstimo".

Sonho de viajar novamente

Carla Anacleto e seu marido, Edmílson.  - Divulgação - Divulgação
Carla Anacleto e seu marido, Edmílson.
Imagem: Divulgação

A manicure Carla Anacleto sonha em conseguir viajar de novo. A última viagem que fez com sua família, que é de Ribeirão Pires (SP), foi para Porto Seguro (BA) em 2019.

Família tenta retomar renda, impactada pela pandemia. A profissão de Carla exigia contato físico e integra o setor de serviços, a mais impactada peça da crise provocada pelo coronavírus. Seu marido, que é motorista de carreta, também viu a renda diminuir nos últimos anos.

A filha do casal tem TEA (Transtorno do Espectro Autista). A família enfrenta dificuldades financeiras devido aos altos custos dos tratamentos, que não são totalmente cobertos pelo plano de saúde. "Sempre gastamos o suficiente, tendo os pés no chão. O que encarece muito são os tratamentos da filha e o convênio", diz.

O orçamento é comprometido com o financiamento do apartamento. Parte da dívida foi amortizada com o carro do casal. "Vendi o carro em 2020 e, junto com o FGTS do meu marido, quitei parte do apartamento", afirma. Eles substituíram o antigo carro por um veículo menor, que também foi financiado até o início deste ano.

Para economizar, eles passaram a buscar alternativas de lazer mais acessíveis, como passeios de bicicleta e idas a parques. Mas a manicure planeja viajar no final do ano para fora do país e diz já ter começado a poupar para isso.

Endividamento atinge 78,3% das famílias

A parcela de famílias brasileiras com dívidas (em atraso ou não) chegou a 78,3% em abril, segundo pesquisa da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). A previsão é que o percentual se mantenha nos próximos dois meses e suba para 78,4% em julho, segundo a entidade.

A parcela de inadimplentes — aqueles que têm contas ou dívidas em atraso — chegou a 29,1% das famílias em abril, abaixo dos 29,4% de março, mas acima dos 28,6% de abril de 2022. A pesquisa aponta que o aumento ocorreu principalmente na classe média. Já a inadimplência de empresas atingiu novo recorde, com mais de 6,5 milhões de empreendimentos negativados em abril, de acordo com indicador da Serasa Experian,

O maior endividamento dos brasileiros ocorre em um cenário de juros elevados e crédito caro, que inibem o consumo e pressionam o ritmo de crescimento da economia e da renda.