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Após 2 anos do 1º acidente, Boeing 737 MAX pode voltar a voar em breve

Agência de segurança de aviação da Europa considera 737 MAX seguro para voar - Karen Ducey/Reuters
Agência de segurança de aviação da Europa considera 737 MAX seguro para voar Imagem: Karen Ducey/Reuters

Vinícius Casagrande

Colaboração para o UOL, em São Paulo

03/11/2020 04h00

A maior crise em mais de cem anos da Boeing começava há dois anos, quando um 737 MAX da Lion Air caía no mar de Java, na Indonésia. Menos de cinco meses depois, um outro avião do modelo, da Ethiopian Airlines, também sofreria um acidente, causando a paralisação de todos os voos com aeronaves desse modelo no mundo.

Dois anos após o primeiro acidente, o Boeing 737 MAX pode estar próximo de ser liberado pelas autoridades aeronáuticas para voltar a voar. A agência norte-americana FAA finalizou seus voos de teste e a agência europeia Easa já chegou a afirmar que o modelo poderá ser liberado para retomar os voos até o final do ano.

"Estamos finalizando tudo o que precisa ser concluído e acho que, pela primeira vez em um ano e meio, posso dizer que podemos ver o final do trabalho com o MAX, e estamos começando a ver como colocar o MAX de volta em serviço até o final do ano", afirmou Patrick Ky, presidente da Easa, em uma entrevista coletiva virtual realizada no final de setembro.

No Brasil, a responsável pela liberação do avião é a Anac. A agência afirmou que a validação para retorno das aeronaves está em andamento, mas, por enquanto, sem previsão para retorno das operações.

"Na segunda quinzena de setembro, especialistas da Anac estiveram nos Estados Unidos dando início à avaliação operacional, que é uma das fases do processo de retomada das operações. É nessa fase, de estudos de engenharia relacionados à segurança das operações (a avaliação operacional), que seguimos no momento", afirmou a Anac.

Aéreas já planejam voos

Com a fase final dos testes e sinalização de que o avião pode ser liberado em breve, companhias aéreas já começam a planejar o retorno das operações com o modelo. É o caso, por exemplo, da American Airlines.

A empresa planeja colocar o 737 MAX de volta à sua malha em 29 de dezembro. A empresa já começou a vender mais um voo diário na rota entre Miami e Nova York que seria operado com o 737 MAX. A informação já consta no sistema de reserva da companhia aérea.

Na Europa, o executivo-chefe da empresa de baixo custo Ryanair, Eddie Wilson, afirmou no início do outubro que espera a liberação do 737 MAX nos Estados Unidos no próximo mês, abrindo caminho para que a companhia aérea comece a receber os primeiros aviões no começo de 2021.

A Gol é a única companhia aérea brasileira com aviões Boeing 737 MAX na frota. São sete aeronaves que estão paradas desde março do ano passado. Em nota, a empresa afirmou que acompanha o processo de perto, e segue confiante na nova certificação dos Boeing 737 MAX.

"Seguimos o cronograma de retorno ao serviço que for divulgado pela Boeing e, após termos a liberação das autoridades aeronáuticas (FAA e ANAC), estimamos que nosso primeiro 737 MAX decole em até 30 dias. Reforçamos que a companhia trabalha para garantir o cumprimento de todos os requisitos técnicos e operacionais, incluindo treinamento de nossos pilotos, sempre com toda a segurança, nosso valor número um", afirmou a Gol.

Mais de 800 aviões parados

Atualmente, são cerca de 800 aviões do modelo parados em todo o mundo. Quando foi proibido de voar após o segundo acidente em março do ano passado, 387 aeronaves já haviam sido entregues às companhias aéreas. Mesmo com a proibição dos voos, a Boeing continuou produzindo o modelo. Nesse período, foram fabricados cerca de 400 aviões que ainda não puderam ser entregues.

Para que todas essas aeronaves possam voltar a voar, o modelo passou por uma série de mudanças, especialmente no sistema MCAS (Maneuvering Characteristics Augmentation System, ou sistema de ampliação de característica de manobra), que teria sido a principal causa para os dois acidentes.

O sistema seria responsável por evitar que o avião entrasse em uma atitude que pudesse gerar perda de sustentação. A atuação do MCAS, no entanto, forçava que a aeronave baixasse o nariz em uma fase crítica do voo, levando a um mergulho em direção ao solo.

As principais mudanças se concentram no software que controla o MCAS para evitar que o piloto tenha de lutar contra o avião para que não ocorra um acidente. Além disso, foram adicionados novos requisitos de segurança, como a instalação de novos sensores. A Boeing recomendou a todas as companhias aéreas que operam o modelo uma revisão geral nos sensores de ângulo de ataque. Um erro de leitura pode ter colaborado para a falha dos sistemas. O processo de treinamento dos pilotos também foi revisto.

Boeing teria ocultado falhas

Durante o processo de investigação das causas dos acidentes, a Boeing foi acusada de ocultar falhas de projeto do avião tanto dos pilotos quanto das autoridades regulatórias. Um comitê do Congresso dos EUA chegou a afirmar que o avião é "essencialmente falho": "A Boeing cometeu erros e escondeu informações sobre o 737 MAX, enquanto os organismos reguladores não conseguiram fazer uma supervisão adequada, levando a uma aeronave essencialmente falha", afirmou o comitê.

A Boeing não respondeu diretamente a essa acusação e em nota divulgada à época disse: "Como empresa, aprendemos muitas lições difíceis com os acidentes do voo 610 da Lion Air e do voo 302 da Ethiopian Airlines, e com os erros que cometemos. Como este relatório reconhece, o resultado é que fizemos mudanças fundamentais em nossa empresa e continuamos a buscar maneiras de melhorar. Mudar é sempre difícil e exige comprometimento diário, mas nós, como empresa, nos dedicamos a fazer", afirmou.

Com as mudanças no projeto, a Boeing afirma que as mudanças e a avaliação detalhada de todos os sistemas tornaram o 737 MAX um dos modelos mais seguros do mundo. Agora, o desafio da Boeing e das companhias aéreas que operam o modelo será convencer os passageiros. Uma pesquisa da consultoria Barclays com 1.765 passageiros nos Estados Unidos e na Europa logo após a proibição de voo com a aeronave apontou que 52% preferem voar em outro modelo de avião se tiverem essa opção.