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REPORTAGEM

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Se é proibido até fumar, como a chama olímpica é transportada no avião?

Chama olímpica é transportada em avião para os Jogos Olímpicos Tóquio 2020 - Instagram/tokyo2020
Chama olímpica é transportada em avião para os Jogos Olímpicos Tóquio 2020 Imagem: Instagram/tokyo2020

Por Alexandre Saconi

Colaboração para o UOL, em São Paulo

11/08/2021 04h00

Um dos momentos mais importantes (e bonitos) das Olimpíadas é o acendimento da pira olímpica, que ocorre na cerimônia de abertura. A chama é levada desde a Grécia até o local dos Jogos em uma festividade que dura semanas.

Para isso, pelo menos um dos trechos do transporte costuma ser feito por avião, devido ao tempo e às longas distâncias que o fogo tem de percorrer. Mas, se dentro de uma aeronave comercial é proibido até mesmo fumar, como é possível transportar fogo aceso constantemente de maneira segura?

O segredo está em uma série de fatores, desde a preparação de equipes e da aeronave, até o invólucro onde a chama será levada, que não pode oferecer riscos nem permitir que ela se apague.

Preparo especial

chama latam - Rodrigo Cozzato/Latam - Rodrigo Cozzato/Latam
Estrutura especial carrega a chama olímpica das Olimpíadas do Rio 2016 dentro de cabine de avião
Imagem: Rodrigo Cozzato/Latam

Os aviões que transportaram a chama olímpica nas Olimpíadas de 2016 no Rio foram os mesmos que realizam voos comerciais. Segundo a Latam, empresa que realizou o transporte oficial no Rio, o tecido das poltronas e carpetes da aeronave são revestidos de material não inflamável, que restringe a propagação de chamas.

A chama é transportada em lamparinas fechadas, que são alimentadas por querosene. A tocha, que é aberta, não pode ser levada acesa no voo.

Esses dispositivos de transporte são uma evolução das Lâmpadas de Davy, que eram lamparinas utilizadas em minas de carvão, local com alto risco de explosão devido aos gases ali presentes.

Seu funcionamento impede que a chama se propague no ambiente, absorvendo e dissipando o calor da lamparina, o que permite que a chama fique acesa durante o voo sem maiores perigos.

Também é confeccionada uma estrutura especial para que o dispositivo com a chama seja fixado nos bancos em segurança e não se mexam, evitando, também, que se apaguem. Ainda assim, mais de uma lamparina é levada, e, caso uma enfrente problemas, outras estão ali de reserva.

Guardiões

Guardiões - YouTube/LATAM Airlines - YouTube/LATAM Airlines
Guardiões da chama olímpica ao lado da lamparina acesa durante voo ao Brasil
Imagem: YouTube/LATAM Airlines

Alguns profissionais são selecionados para manter a segurança e a vigilância permanente da chama, seja em solo ou seja em voo. Eles são chamados de guardiões, e, nos aviões, ficam sentados ao lado das lamparinas, garantindo que nada aconteça a elas.

Esses guardiões acompanham e vigiam a chama desde o seu acendimento, em Olímpia (Grécia) até o seu destino, e ainda permanecem ao seu lado durante todo o revezamento da tocha, até quando a pira olímpica é acesa na cerimônia de abertura.

A operação aérea, por sua vez, não costuma contar com passageiros pagantes a bordo, sendo restrita às equipes do COI (Comitê Olímpico Internacional), da organização dos jogos e convidados. Os tripulantes dos aviões também são treinados para voar com a chama a bordo.

Os órgãos aeronáuticos dos locais onde esses aviões irão sobrevoar ainda têm de aprovar a operação, para ter certeza de que o voo será seguro.

Escolta de caças

escolta - Rodrigo Cozzato/Latam - Rodrigo Cozzato/Latam
Caça F-5 da FAB escolta avião da Latam com a chama olímpica dos jogos do Rio de Janeiro em 2016
Imagem: Rodrigo Cozzato/Latam

A chegada da chama ao país-sede onde os Jogos Olímpicos irão acontecer é sempre marcada por uma cerimônia de grandes proporções. Em 2016, no Rio, a chama foi transportada pela Latam, em um voo partindo da Suíça com destino a Brasília.

Enquanto se aproximava para o pouso, o avião, um Boeing 767-300ER, foi escoltado por caças F-5 da FAB (Força Aérea Brasileira), para garantir que a operação fosse concluída em segurança.

Dentro do Brasil, foram mais 12 voos realizados com a lamparina contendo a chama durante 15 dias para 13 cidades onde o revezamento da tocha ocorreu.

Foram cerca de 8.000 quilômetros ao todo, dessa vez, realizados em um Airbus A319 personalizado para a ocasião. Participaram dessa operação nove pilotos e 16 comissários, que foram treinados para o transporte da chama a bordo, além de mais de 300 funcionários da companhia que prestavam o suporte para os voos em solo nos aeroportos.

Em decorrência da pandemia de covid-19, a cerimônia de transporte e o revezamento da tocha para as Olimpíadas de Tóquio deste ano foram restritos. Ainda assim, todas as etapas acabaram sendo realizadas, mas sem a presença do público esperado.

caças - Sargento Batista/Força Aérea Brasileira - Sargento Batista/Força Aérea Brasileira
Dois caças F-5 da Força Aérea Brasileira escoltam avião que carrega a chama dos Jogos Olímpicos Rio 2016
Imagem: Sargento Batista/Força Aérea Brasileira

Curiosidades

  • A primeira vez em que a chama olímpica viajou de avião foi para as Olimpíadas de Oslo (Noruega), em 1952
  • Nos Jogos Olímpicos de Inverno de 1992, em Albertville (França), a chama viajou em um Concorde, ultrapassando a velocidade do som pela primeira vez
  • Uma lamparina para o transporte seguro de chama pode ser comprado por 1.499 euros (cerca de R$ 9.130); esse modelo também é utilizado para transportar o fogo sagrado, ligado a tradições católicas ortodoxas
  • Em 2008 (Pequim - China), o transporte da chama foi feito pela Air China; em 2012 (Londres - Inglaterra), pela British Airways; em 2016 (Rio de Janeiro - Brasil), pela Latam; na edição deste ano, em Tóquio (Japão), o voo foi realizado pela Japan Airlines em parceria com a ANA (All Nippon Airways)

Veja como foi a escolta do avião com a chama da Rio 2016:

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