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Selic vai cair? Governo já tem pronto o discurso 'nunca será o suficiente'

Na semana em que todas as atenções se voltam para a reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) que vai definir a taxa básica de juros da economia brasileira (a Selic), o governo segue firme e forte na proposta de encurralar politicamente o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto.

A estratégia pode ser resumida na linha do "nunca será o suficiente". Em outras palavras, aconteça o que acontecer, o presidente Lula e sua equipe econômica já têm na ponta da língua a narrativa para sustentar que Campos Neto teima em manter o país aprisionado em um longevo relacionamento abusivo com os juros estratosféricos.

Desta vez, a aposta dos analistas de mercado é de que o Copom vá, finalmente, reduzir a Selic em 0,25%. Motivos para tanto não faltam. Em primeiro lugar, a inflação — principal alvo do Banco Central — emite seguidos sinais de enfraquecimento.

Além disso, o governo vem acumulando vitórias importantes no Congresso, como a aprovação (ainda que parcial, ressalte-se) da reforma tributária e do novo "arcabouço fiscal", o plano para colocar as contas públicas em ordem.

A maré inegavelmente positiva fez até com que agências internacionais de classificação de risco, como a Fitch, melhorassem a nossa imagem perante investidores. É bem verdade que o Brasil ainda não reconquistou o carimbo de "bom pagador", o que em tese contribui para atrair capital estrangeiro. Mas essa perspectiva parece mais factível do que até pouco tempo atrás.

Nesse contexto, a chance de Campos Neto aplacar os ânimos do governo beira o impossível. Se o Copom decidir pela manutenção da Selic em 13,75%, por quaisquer "razões técnicas", vai dar ainda mais pano para a manga do discurso da base petista que tacha o atual presidente do Banco Central de "bolsonarista" sabotador da economia.

Se reduzir em 0,25% a taxa básica de juros, como a ampla maioria dos analistas espera, tampouco será perdoado por uma resolução que, na melhor das hipóteses, deverá ser definida como "excesso de cautela".

Se surpreender e decidir pela improvável navalhada de 0,5%, o Copom não terá feito nada além da obrigação, aos olhos da equipe econômica de Lula.

Prova disso foi a entrevista concedida no fim de semana por Fernando Haddad ao Jornal GGN. Num recado cirurgicamente lançado às vésperas da aguardada reunião do comitê, o ministro da Fazenda disse que há espaço "bastante considerável" para baixar a Selic. Na verdade, ele foi além ao sustentar que mesmo um corte de 0,5% seria "muito pouco".

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Haddad também criticou a atual composição do Copom como pouco "plural" e afirmou que a nomeação dos dois novos diretores do Banco Central indicados pelo governo, aprovada no Senado no começo do mês, pode oxigenar as futuras discussões do comitê.

Efeitos na dívida pública

A verdade é que não se trata apenas de encolher a Selic para puxar o bonde do crédito barato para quem deseja produzir e gerar emprego. Segundo indicadores do próprio Banco Central, cada 1% da Selic representa um acréscimo de quase R$ 36 bilhões à dívida pública do Brasil.

Assim, reduzir a taxa de juros também ajuda e muito a suavizar o peso dos bilhões de reais pagos a credores dos títulos vendidos pelo tesouro para financiar seus custos. Isso é especialmente vital para um governo tido por muitos como "gastador". Sem falar na necessidade real e urgente de conter o déficit das contas públicas: para este ano, a estimativa é de um rombo de até R$ 110 bilhões, cerca de 1% do PIB.

Uma coisa é certa: mesmo que o Copom apanhe de surpresa o mercado e o governo, Roberto Campos Neto não deve sair tão cedo do radar de guerra da equipe de Lula.

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Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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