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Gabriela Chaves

Três ideias para construir um futuro antirracista

Gabriela Chaves

Gabriela Chaves é economista e fundadora da NoFront - Empoderamento Financeiro, plataforma que ensina educação financeira a partir de músicas de RAP. Também é mestranda em Economia Política Mundial pela UFABC e pesquisadora do NEPAFRO - Núcleo de Estudos Afro-Americanos, nas áreas de gênero, raça e trabalho. Em 2020, pela Editora Senac São Paulo, lançou o livro “Economia do Setor Público”.

20/11/2020 04h00

Apesar de todos os dados, pesquisas e da atuação dos movimentos sociais que apontam para a dimensão estrutural do racismo, falar em consciência negra no Brasil ainda gera muitos protestos e incômodos.

Penso que toda essa resistência diante da realidade vem do apego generalizado à tese da democracia racial. Nas palavras de Abdias do Nascimento: "Devemos compreender 'democracia racial' como significando a metáfora perfeita para designar o racismo estilo brasileiro: não tão obvio como o racismo dos Estados Unidos e nem legalizado qual o Apartheid da África do Sul, mas institucionalizado de forma eficaz nos níveis oficiais de governo, assim como difuso e profundamente penetrante no tecido social, psicológico, econômico, político e cultural da sociedade brasileira".

Eu sou uma mulher negra do século 21, com pouca paciência para pessoas que insistem em ideologias de séculos passados. Se a essa altura do campeonato você ainda acha que o racismo não existe, sugiro fortemente que leia a coluna da Cris Guterres dessa semana. E faça terapia. O movimento em curso não começou ontem e não vai acabar amanhã.

Em toda a história desse país existiram, ao menos, três grandes projetos nacionais para a população negra: a escravidão, o embranquecimento sistemático e o genocídio.

Na primeira etapa, a escravidão, sob profundas violências, promoveu o empobrecimento do nosso povo, através da extensa exploração do trabalho não pago.

Na segunda, utilizaram-se do racismo científico para defender a hierarquia social e difundiram a miscigenação como uma política de embranquecimento da população.

Na terceira, quando perceberam que nenhuma miscigenação seria capaz de tornar o Brasil um país caucasiano, intensificaram o genocídio, através da execução literal de nossos corpos.

Há algum tempo decidi depositar minhas energias na construção do futuro. E sinto que existe uma geração inteira comigo. Se você se reconhece nessa parte, eu quero falar sobre algumas questões importantes contigo.

1 - Reconheça quem veio antes de você

Vivemos um momento de grande visibilidade das lutas raciais e isso é extremamente importante. Não podemos esquecer, entretanto, que a resistência negra no Brasil existe desde o século 16.

A militância negra não começou no Twitter, tampouco na televisão ou nas vitrines. Procure conhecer a sua história, por mais difícil que seja essa pesquisa. Entender as gerações do movimento negro e até mesmo da sua própria família vai lhe trazer elementos muito valiosos para compreensão do mundo ao seu redor.

2 - Pense nas próximas gerações

Eu ousaria dizer que o empoderamento que vivemos hoje só é possível em função das lutas travadas pelos nossos mais velhos. É graças à luta do movimento negro por cotas nas universidades, por exemplo, que podemos celebrar o aumento progressivo de negros nas universidades.

Que avanços podemos proporcionar para as próximas gerações? Penso que essa é uma tarefa urgente e inegociável. Precisamos investir nas crianças e garantir toda a infraestrutura possível. Já imaginou poder pagar com tranquilidade um curso de inglês para o seu sobrinho? Garantir que os exames da sua mãe estão em dia? É sobre isso que estou falando.

3 - Desfrute das suas conquistas

Está tudo bem querer ter uma vida legal, sem passar necessidade! Está tudo bem você querer ter uma moradia digna, se vestir bem, se alimentar direito. Você pode conquistar qualquer coisa material.

Geralmente, quando pessoas negras desfrutam do mínimo de dignidade, chamam isso de ostentação. Não dê ouvidos, são apenas ideologias atrasadas do século 19. Como já cantou Mano Brown, preto e dinheiro não são palavras rivais! Então, mostra para esses ** como é que faz!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.