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Após queda no 1º tri, "hecatombe" aguarda economia dos EUA no 2º tri

José Paulo Kupfer

Jornalista profissional desde 1967, foi repórter, redator e exerceu cargos de chefia, ao longo de uma carreira de mais de 50 anos, nas principais publicações de São Paulo e Rio de Janeiro. Eleito “Jornalista Econômico de 2015” pelo Conselho Regional de Economia de São Paulo/Ordem dos Economistas do Brasil, é graduado em economia pela FEA-USP e integra o Grupo de Conjuntura da Fipe-USP. É colunista de economia desde 1999, com passagens pelos jornais Gazeta Mercantil, Estado de S. Paulo e O Globo e sites NoMinimo, iG e Poder 360.

29/04/2020 18h30

Se a retração da economia americana, no primeiro trimestre do ano, que chegou a 1,2% sobre o último trimestre de 2019, expressando recuo de 4,8% em termos anualizados, já foi o pior resultado desde a grande recessão causada pelo crise financeira de 2008, difícil será classificar o que se espera para o segundo trimestre, quando os impactos negativos da pandemia de covid-19 terão afetado em cheio a atividade econômica. Mas não seria inapropriado qualificar o recuo previsto como "hecatombe".

As projeções, para o intervalo abril-junho, apontam pesadíssima contração de 8%, expressa por uma taxa anualizada (normalmente utilizada nos Estados Unidos para medir a evolução da economia) superior a 35%. Nunca, nem na Grande Depressão dos anos 30 do século 20, a economia americana mergulhou tão fundo num único trimestre. Se for considerado o primeiro semestre deste ano, a queda acumulada passará de 9%.

A queda da atividade no primeiro trimestre, maior do que a esperada, em combinação com a consolidação da expectativa de um tombo histórico no segundo trimestre, tem refreado previsões mais otimistas quanto à recuperação no segundo semestre. Até recentemente, a maioria dos analistas imaginava um movimento em "V", com a retração dos primeiros seis meses, auge da pandemia nos Estados Unidos, compensada por um rebate positivo também forte, na segunda metade do ano. Mas essa possibilidade tem perdido defensores. Crescem as apostas de que a trajetória de recuperação terá a forma de "U".

Com a altíssima taxa de propagação e de mortos, a perspectiva de que as medidas de isolamento social pudessem ser mais rapidamente relaxadas está se enfraquecendo. As perdas econômicas gigantes têm aumentado a pressão pela reabertura dos negócios, mas cresce também a compreensão de que quanto mais rápida e menos segura for essa abertura, mais as consequências para economia serão mais adversas.

As estimativas mais recentes do CBO (Escritório de Orçamento do Congresso, na sigla em inglês), órgão independente vinculado ao Congresso americano, equivalente à IFI (Instituição Fiscal Independente) brasileira, projetam contração da atividade econômica de 5,6%, no conjunto de 2020. A queda prevista para o segundo trimestre, em relação ao trimestre anterior chega a incríveis 12% (40% em termos anualizados). Já o rebote, no terceiro trimestre, projetaria um crescimento de 5,4% (23,5% anualizados), completado por avanço de 2,5% (10,5% anualizados), no intervalo de outubro a dezembro.

Quedas no consumo das famílias, retração dos investimentos, setor externo em baixa e serviços paralisados contribuirão para elevar a taxa de desemprego, que se mantinha abaixo de 4%, recorde de baixa há um bom período, a perto de 12% no ano, chegando a dois dígitos pela primeira vez desde 2009. Com incertezas em relação à duração das restrições de circulação de pessoas, as previsões atuais sinalizam que a economia americana só retornará ao nível do pico pré-pandemia, na melhor das hipóteses, em 2022.

Errata: o texto foi atualizado
Uma versão anterior deste texto informava incorretamente, no primeiro parágrafo, que a retração de 1,2% do PIB dos EUA foi em relação ao último terço de 2019. Na verdade, foi em relação ao último trimestre. A informação foi corrigida.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

José Paulo Kupfer