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Nova previsão oficial de tombo de 4,7% para o PIB em 2020 ainda é otimista

José Paulo Kupfer

Jornalista profissional desde 1967, foi repórter, redator e exerceu cargos de chefia, ao longo de uma carreira de mais de 50 anos, nas principais publicações de São Paulo e Rio de Janeiro. Eleito “Jornalista Econômico de 2015” pelo Conselho Regional de Economia de São Paulo/Ordem dos Economistas do Brasil, é graduado em economia pela FEA-USP e integra o Grupo de Conjuntura da Fipe-USP. É colunista de economia desde 1999, com passagens pelos jornais Gazeta Mercantil, Estado de S. Paulo e O Globo e sites NoMinimo, iG e Poder 360.

13/05/2020 18h55

O ministério da Economia alinhou suas projeções para a evolução do PIB (Produto Interno Bruto) em 2020 com as estimativas do mercado financeiro. A retração prevista agora pelo governo é de 4,7% sobre a base de 2019. A previsão oficial anterior, de meados de março, apontava microcrescimento de 0,02% no ano. Nesta semana, os analistas de mercado elevaram a queda prevista da atividade econômica, neste ano, para 4,1%.

Pode-se dizer que tanto a projeção do mercado quanto a do governo são otimistas. Já circulam outras estimativas que apontam quedas maiores. Grandes bancos globais estimam recuos acima de 7% para a economia brasileira em 2020. Modelos de previsão de economistas brasileiros sinalizam contração de até 11%, em cenários mais pessimistas.

Todas as previsões, das mais otimistas às mais sombrias, consideram algumas premissas comuns. Uma delas é a duração, rigidez e extensão geográfica das medidas de isolamento social. Quanto maior o período de isolamento, mais forte for a imposição de isolamento e mais extensa for a área alcançada pelas medidas, mais a economia afundará.

A SPE (Secretaria de Política Econômica), do ministério da Economia, calcula que cada semana de isolamento, com aumento das demissões e quebras de empresas, promove perdas econômicas de R$ 20 bilhões. Assim, cada mês de restrição da circulação de pessoas faz o PIB encolher em cerca de 1%.

O histórico das projeções da SPE, no governo Bolsonaro, não é muito confiável. De todo modo, a premissa em que se apoia para chegar ao volume de perdas não pode ser contestada. Quanto maiores e mais amplas forem as medidas de isolamento, mais a economia sentirá.

Isso não significa que a causa da possível depressão econômica que se avizinha é o isolamento. A causa é a disseminação do vírus e o número crescente de pessoas infectadas, que não só retira de circulação força de trabalho e consumidores, sem falar na dramática situação de congestionamento dos serviços de saúde que acarreta.

Enquanto soluções mais eficazes, como vacinas e medicamentos que minimizem os impactos da Covid-19, não são postas à disposição, resta o isolamento, em suas diversas formas e modalidades, para mitigar seus terríveis efeitos sanitários e econômicos. A saída possível para reduzir as perdas econômicas é evitar que os isolamentos se prolonguem.

Trata-se, portanto, de aceitar as restrições à circulação de pessoas, colaborando para que sejam seguidas e funcionem no controle da doença. Em outros países, onde as medidas de isolamento foram rapidamente implantadas e disciplinadamente cumpridas, o relaxamento e a reabertura dos negócios começou mais cedo.

Não basta, porém, controlar o contágio, desafogando os sistemas de saúde, permitindo que fábricas, lojas e serviços voltem a operar. É preciso fazer a reabertura de forma organizada e coordenada, evitando facilitar recidivas da doença. Sem isso, a volta do contágio afastará consumidores e imporá novos e intermitentes isolamentos. Só há algo pior para a economia do que um isolamento prolongado. É o isolamento prolongado e intermitente.

José Paulo Kupfer