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FMI recomenda expansão fiscal e mais tributação para conter pobreza mundial

José Paulo Kupfer

Jornalista profissional desde 1967, foi repórter, redator e exerceu cargos de chefia, ao longo de uma carreira de mais de 50 anos, nas principais publicações de São Paulo e Rio de Janeiro. Eleito “Jornalista Econômico de 2015” pelo Conselho Regional de Economia de São Paulo/Ordem dos Economistas do Brasil, é graduado em economia pela FEA-USP e integra o Grupo de Conjuntura da Fipe-USP. É colunista de economia desde 1999, com passagens pelos jornais Gazeta Mercantil, Estado de S. Paulo e O Globo e sites NoMinimo, iG e Poder 360.

13/10/2020 18h13

A pandemia não afetou a tradição da publicação dos relatórios semestrais do FMI (Fundo Monetário Internacional) com as perspectivas para a economia mundial. O alentado volume de outubro de cada ano, que costuma acompanhar a reunião de outono, realizada em conjunto com a do Banco Mundial, acaba de ser publicado, embora o encontro da elite financeira internacional, que costuma atrair mais de cinco mil pessoas a Washington, capital dos Estados Unidos, sede das instituições multilaterais, desta vez será virtual.

Mas a pandemia, é mais do que natural, alterou a visão do FMI sobre a situação da economia e suas projeções para o futuro. Os efeitos dos lockdowns e dos programas de sustentação de pessoas e empresas concentraram a atenção dos técnicos que elaboraram o novo "Panorama Econômico Mundial". Além da tradicional revisão das previsões para o crescimento da economia mundial e de cada país, neste ano e em 2021, o relatório se preocupa com a transição dos estímulos fiscais e de crédito potencializados no pico da pandemia e os impactos disso no quadro de pobreza e desigualdade planetário.

O FMI sustenta que os estímulos, sobretudo os fiscais, que ajudaram a mitigar o mergulho das economias e do desemprego, em razão das paralisações determinadas pela pandemia, devem ser manejados com cuidado e gradualismo. Alerta o FMI que o risco de provocar segundas ondas recessivas, com tentativas de voltar à situação anterior de relativo maior equilíbrio, a partir de cortes mais amplos e rápidos nos estímulos, não deve ser desprezado.

Essa preocupação é tão evidente que o FMI, outrora conhecido como o "gendarme das finanças internacionais", e antigo baluarte das políticas de austeridade fiscal, sugere agora a adoção de medidas adicionais de tributação sobre rendas mais altas, como forma de ajudar no reequilíbrio das contas públicas, sem cortes drásticos nos estímulos fiscais.

Em uma subseção específica do "Panorama", o FMI destaca temores com a constatação de que, pela primeira vez em 20 anos, está ocorrendo um aumento da pobreza no mundo. Depois de observar que o crescimento econômico mundial, nas duas décadas anteriores à Covid-19, de 4,1%, em média, entre 2000 e 2019 - 1 ponto percentual acima da expansão média do período 1980-1999 - o relatório prevê o ingresso de 90 milhões de pessoas nas faixas de extrema pobreza.

Isso se deve, em parte, à redução das horas trabalhadas, nos dois primeiros trimestres de 2020, por culpa da pandemia. O corte nas horas trabalhadas, no segundo trimestre, significou o equivalente à perda de 400 milhões de postos de trabalho. No primeiro trimestre, essas perdas já tinham ultrapassado o equivalente a 150 milhões de empregos.

Evitar esse retrocesso é um dos objetivos das políticas econômicas recomendadas pelo FMI. Elas prescrevem expansão fiscal no curto prazo, e ajustes moderados e graduais, no médio prazo. Se as políticas funcionarem bem, o crescimento mundial em 2021 chegaria a 5,2% - 0,2 ponto menor do que o previsto em junho. Com os 4,4% de contração projetados agora para 2020 - 0,8 ponto abaixo da estimativa de junho -, a economia global terá avançado 0,6% sobre a base de 2019.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.