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José Paulo Kupfer

Incertezas fiscais estão presentes, mas pressão nos mercados vem de fora

José Paulo Kupfer

Jornalista profissional desde 1967, foi repórter, redator e exerceu cargos de chefia, ao longo de uma carreira de mais de 50 anos, nas principais publicações de São Paulo e Rio de Janeiro. Eleito “Jornalista Econômico de 2015” pelo Conselho Regional de Economia de São Paulo/Ordem dos Economistas do Brasil, é graduado em economia pela FEA-USP e integra o Grupo de Conjuntura da Fipe-USP. É colunista de economia desde 1999, com passagens pelos jornais Gazeta Mercantil, Estado de S. Paulo e O Globo e sites NoMinimo, iG e Poder 360.

28/10/2020 17h18

A pressão sobre a cotação do dólar, que já vinha trazendo tensão ao mercado financeiro há algum tempo, registrou um pico na sessão desta quarta-feira (28). No início dos negócios, por volta das 10 hs, a taxa de câmbio bateu em R$ 5,79 (R$ 6 no câmbio turismo).

Reflexo do "efeito manada" que atropelou os mercados de ativos globais. Dólar em alta, no Brasil e lá fora, e Bolsas em baixa acentuada por todos os lados, exceto na China e na Coreia do Sul. Quedas fortes, entre 3% e 4%, nos mercados de ações pelo mundo. Bovespa, o principal índice da Bolsa brasileira, na mesma balada de perdas.

Uma intervenção do Banco Central, vendendo US$ 1 bilhão à vista, por meio de um swap tradicional, conseguiu acalmar a curva da taxa cambial, que permaneceu alta, mas abaixo de R$ 5,75 por dólar, ao longo da tarde. O achatamento da volatilidade com ação relativamente pequena deu um sinal de que as questões internas, concentradas em incertezas na área da política fiscal, embora presentes, não estavam no centro da escalada das cotações.

O fenômeno do efeito manada, embalado na temporada de volatilidades também produzidas pela marcha crispada das campanha eleitoral nos Estados Unidos, tomou corpo a partir da confirmação de que uma segunda onda de Covid-19 na Europa tornaria quase inevitável nova rodada de lockdowns. Lockdown, nos dicionários, pode ser traduzido como confinamento, bloqueio, aprisionamento, fechamentos, em resumo. Com a pandemia, passou também a significar mergulho ou colapso da economia.

Nunca se sabe exatamente quando a manada vai estourar no mercado, mas as razões para o estouro são fáceis de identificar. No presente caso, resultou de uma corrida para a moeda americana, que funciona como reserva de valor em escala global e, portanto, operam como porto seguro para os fluxos de dinheiro, ainda que incertezas infestem a economia dos Estados Unidos.

No caso das bolsas, há também ocasiões em que as vendas em enxurrada, encobertas por um "efeito manada", embutem movimentos de ajustes e correções de excessos. Altas recentes, sustentadas por otimismos com perspectivas de recuperação em "V", nas economias que se reabriam, pode ter acentuado a derrubada das cotações.

Por trás do movimento, no mercado brasileiro, há também outras causas. Algumas derivam da política monetária, que está sendo executada pelo BC com o claro objetivo de evitar reversão nos juros básicos hoje baixos, enquanto a economia permanece em grau elevado de desemprego - não são de mão de obra, mas também de utilização de capacidade de produção instalada.

Tanto isso é verdade que a curva de juros futuros, o principal indicador das avaliações do mercado sobre a política econômica, depois de altas em sequência nos últimos tempos, começou a recuar, inclusive nesta quarta-feira de turbilhões nos mercados. Aguarda-se um sinal do BC, no comunicado que será divulgado logo após o encerramento da reunião do (Copom) Comitê de Política Monetária, também nesta quarta-feira, indicando perspectivas de elevação da taxa básica em 2021. Já há, aliás, quem estime que, no fim do ano que vem, a taxa Selic terá dobrado, para 4% nominais ao ano. Nenhum movimento nas taxas básicas, porém, é esperado antes da virada do calendário. Mas indicações de que o BC deixará muito claro que não pretende mais cortar os juros básicos são aguardadas.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.