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José Paulo Kupfer

Para evitar travar a economia, BC arrisca descontentar o mercado

José Paulo Kupfer

Jornalista profissional desde 1967, foi repórter, redator e exerceu cargos de chefia, ao longo de uma carreira de mais de 50 anos, nas principais publicações de São Paulo e Rio de Janeiro. Eleito “Jornalista Econômico de 2015” pelo Conselho Regional de Economia de São Paulo/Ordem dos Economistas do Brasil, é graduado em economia pela FEA-USP e integra o Grupo de Conjuntura da Fipe-USP. É colunista de economia desde 1999, com passagens pelos jornais Gazeta Mercantil, Estado de S. Paulo e O Globo e sites NoMinimo, iG e Poder 360.

28/10/2020 19h18

A manutenção da taxa básica de juros em 2% nominais ao ano, na reunião do Copom (Comitê de Política Monetária) desta quarta-feira (28) não era motivo de nenhum dúvida. A expectativa estava concentrada nos termos, e mais do que isso, no tom do comunicado emitido no encerramento do encontro. E o tom foi brando, diferentemente do que muitos esperavam.

Por unanimidade, o Copom manteve a taxa básica nos 2% previstos, mas, se reafirmou sua preocupação com instabilidade na área fiscal que novos cortes nos juros poderiam trazer, não se alinhou com os analistas de mercado, ainda deixando uma portinhola aberta para reforçar estímulos monetárias à atividade. "Devido a questões prudenciais e de estabilidade financeira, o espaço remanescente para utilização da política monetária, se houver, deve ser pequeno.", informa o Copom, no comunicado.

A tendência é que esse desalinhamento se reflita na taxa de juros futuros, que devem voltar a subir. Elas estavam em queda, expressando expectativas de que o BC indicasse uma retomada dos ciclos de alta dos juros já nos primeiros meses de 2021. Isso não aconteceu no encontro desta quarta-feira.

Dificilmente, porém, e pelo menos tão cedo, o espaço para novos cortes nos juros básicos que o BC diz existir será usado. Os juros devem permanecer inalterados, na última reunião do Copom em 2020, prevista para o começo de dezembro. Em 2021, a tendência é que tenha início um ciclo de altas da taxa Selic, em princípio moderadas. O próprio BC prevê taxa Selic a 2,75%, no ano que vem.

Coerente com o objetivo de evitar contração monetária, mantendo espaços para ajustes fiscais, os diretores do BC insistiram em considerar que não houve alteração no regime fiscal, ao mesmo tempo em que consideraram estarem as expectativas inflacionárias bem ancoradas até 2022. Ignoraram as fortes altas recentes nos índices de preços por atacado, que estão levando os índices gerais, aqueles que corrigem contratos como os de aluguel residencial, a se aproximarem de 20%, em 12 meses.

Resumindo o enredo, o BC continua empenhado em evitar uma política monetária contracionista. Na mesma linha da que está executando na gestão da dívida pública, quando evitar colocar na praça papéis de vencimento mais longo, mas a juros mais altos. Parece convicto de que sua missão é abrir espaços para um ajuste fiscal que não derrube tanto a atividade econômica. Para isso, aceitou o risco de descontentar o mercado.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.