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José Paulo Kupfer

"Retrospectiva 2021": o que aconteceu no ano que vai começar

José Paulo Kupfer

Jornalista profissional desde 1967, foi repórter, redator e exerceu cargos de chefia, ao longo de uma carreira de mais de 50 anos, nas principais publicações de São Paulo e Rio de Janeiro. Eleito “Jornalista Econômico de 2015” pelo Conselho Regional de Economia de São Paulo/Ordem dos Economistas do Brasil, é graduado em economia pela FEA-USP e integra o Grupo de Conjuntura da Fipe-USP. É colunista de economia desde 1999, com passagens pelos jornais Gazeta Mercantil, Estado de S. Paulo e O Globo e sites NoMinimo, iG e Poder 360.

30/12/2020 04h00Atualizada em 30/12/2020 13h14

Agora que 2021 está terminando, é possível dizer que o ano foi ainda mais difícil do que se imaginava quando começou. Ninguém esperava uma recuperação forte da economia, mas havia, pelo menos nas previsões das consultorias e dos departamentos de pesquisa dos bancos, a expectativa de um ajuste mais acelerado.

Em vez dos 3,5% projetados pela maioria, o PIB (Produto Interno Bruto) avançou 2,4%. Um número positivo, é verdade, mas, em termos relativos, insuficiente para permitir que fosse possível classificá-lo como uma recuperação digna do nome. Excluído o carregamento estatístico vindo de 2020, mais uma vez, a atividade econômica propriamente dita apresentou expansão de 1%.

Era mesmo pouco realista esperar uma retomada mais robusta. Sem o impulso dos auxílios a vulneráveis e informais, que evitaram um mergulho ainda maior da economia no ano anterior, bem como dos recursos dirigidos à manutenção de empregos e do crédito para sustentar empresas, o desemprego bateu recordes em 2021. A perda da renda dos auxílios fez mais gente procurar trabalho, e acabar batendo em portas fechadas.

Havia uma expectativa de que a renda restrita fosse compensada pela poupança acumulada em 2020, que ganhou o nome de "poupança precaucional". Incertezas em relação ao futuro e, principalmente, impossibilidade de consumir, pelas medidas de distanciamento e pelo temor do contágio, resultaram, de fato, num acúmulo de poupanças. Só nos tradicionais depósitos de poupança, foram acumulados R$ 230 bilhões a mais do que o montante existente em 2019. Mas a parcela da poupança que voltou ao consumo em 2021 não foi suficiente para mudar a trajetória de crescimento sem tração da economia.

Também o drama da vacinação ajudou a dificultar uma recuperação mais alentada. Com o boicote na prática do governo Bolsonaro, a vacinação demorou para começar e só atingiu 70% da população, quando se pode considerar ter sido alcançada a imunidade social, já nos últimos meses de 2021.

O próprio presidente Bolsonaro, ao incentivar a não vacinação e tumultuando tanto o planejamento quanto a execução do programa de imunização, contribuiu, para que o número de mortos e infectados aumentasse, ajudando também a atrasar a recuperação econômica. Parte da decepção com o resultado de 2021 pode ser debitada do governo federal e, diretamente, de Bolsonaro.

Diferentemente do que ocorrera em 2020, contou-se com um ambiente externo mais favorável à economia brasileira em 2021. Além da rapidez e abrangência da vacinação contra Covid-19 nos Estados Unidos e Europa, que aos poucos foi liberando a economia global - e com isso puxando as cotações das commodities que o Brasil produz e exporta -, o novo governo americano, sob a presidência de Joe Biden, contribuiu para a redução das incertezas e da aversão aos riscos.

Com a farta liquidez internacional, garantida pelas políticas fiscais e monetárias dos países mais desenvolvidos, os fluxos financeiros se voltaram para as economias emergentes, que oferecem mais riscos, mas também mais rentabilidade aos investidores. Embora o Brasil tenha deixado o grupo dos emergentes preferenciais, no qual teve destaque antes da recessão de 2014-2016, ainda assim um volume apreciável de recursos externos ingressou no mercado brasileiro, em 2021.

Esse fluxo positivo resultou num aumento de quase 40% nos investimentos diretos estrangeiros em 2021, saindo de R$ 40 bilhões em 2020 e chegando a US$ 55 bilhões. Animou ainda a Bolsa brasileira e ajudou a estabilizar a taxa de câmbio, que variou de R$ 5,10 a R$ 5,5 por dólar ao longo do ano.

A inflação também, depois de um surto de altas de preços, em 2020, puxados por alimentos e repasses do dólar, também se acalmou. Tendo superado o centro da meta, de 4%, em 2020, com elevação de 4,4%, a inflação medida pelo IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo), com recuo nos preços dos alimentos do segundo trimestre, encerrou 2021 subindo 3,4%, abaixo do centro da meta fixado para o ano, de 3,75%.

Os juros, igualmente, não sofreram pressões mais fortes. Se, a partir de meados de 2021, o Banco Central deu início a um pequeno ciclo de altas na taxa básica, o objetivo foi mais o de ajustar níveis de liquidez, facilitando a colocação de títulos públicos pelo Tesouro e ampliando seus prazos de vencimento. No segundo semestre, o BC elevou a taxa Selic, então em 2% ao ano, elevando-a, gradualmente, para fechar 2021 em 3%. Em termos reais, os juros básicos continuaram ligeiramente negativos.

Embora o ambiente se mostrasse de certa mais favorável, a atividade econômica ainda estaria longe de produzir uma recuperação nos níveis necessários para tirar a economia do marasmo. É assim que a taxa de desemprego vai fechar 2021 em 16%, um recorde.

A taxa de desemprego subiu, ao longo do ano, na medida em que o exército de vulneráveis, agora sem o benefício de rendas emergenciais, teve de sair em busca de trabalho, aumentando a população ativa. Esse movimento não foi acompanhado, no mesmo ritmo, pelo crescimento da ocupação - seja no setor formal, seja no informal.

Além do desemprego direto e da situação precária do mercado de trabalho em geral, com grande número de desalentados e intermitentes, também a falta de um reajuste real, acima da inflação, para o salário mínimo, contribuiu para a manter a demanda fraca e grande parte dos negócios em banho-maria. Não por coincidência, a massa de renda total, depois de subir quase 5% em 2020, recuou 4%, em 2021, praticamente comendo os ganhos resultantes dos auxílios.

O quadro de retração no mercado de trabalho e, de resto, na capacidade instalada, tem relação com a forte contração das despesas públicas em 2021, na comparação com 2020. Se em 2020 o volume total de gastos chegou a R$ 1,9 trilhão, um terço dos quais apenas com o combate à pandemia, em 2021 recuou para R$ 1,5 trilhão. Os R$ 400 bilhões que deixaram de chegar a vulneráveis representam o equivalente a uma vez e um terço o que foi injetado na atividade econômica no ano de 2020, apenas com o auxílio emergencial.

A contenção fiscal provocou piora nos índices de pobreza, de extrema pobreza e de desigualdade. Sem uma renda básica, houve, em 2021, reversão na melhora observada em 2020. A parcela de pessoas com renda de até um terço do salário mínimo, recuara de quase 20% da população, em 2019, para menos de 12%, em 2020. Mas já voltou aos níveis de dois anos atrás, em 2021.

Tudo considerado, em 2021, a economia brasileira aumentou a distância em relação ao pico pré-recessão obtido em 2013. Sete anos depois, ainda está mais de 5% abaixo daquele nível.

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Entre os riscos e desafios que nos esperam em 2021, voltando do futuro, a coluna deseja o melhor Novo Ano possível a seus leitores!