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José Paulo Kupfer

Fracasso com vacina terá efeito dominó negativo na economia e no emprego

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José Paulo Kupfer

Jornalista profissional desde 1967, foi repórter, redator e exerceu cargos de chefia, ao longo de uma carreira de mais de 50 anos, nas principais publicações de São Paulo e Rio de Janeiro. Eleito “Jornalista Econômico de 2015” pelo Conselho Regional de Economia de São Paulo/Ordem dos Economistas do Brasil, é graduado em economia pela FEA-USP e integra o Grupo de Conjuntura da Fipe-USP. É colunista de economia desde 1999, com passagens pelos jornais Gazeta Mercantil, Estado de S. Paulo e O Globo e sites NoMinimo, iG e Poder 360.

20/01/2021 04h00

O preço do negacionismo do presidente Jair Bolsonaro, em relação à pandemia de Covid-19, que se dissemina por seu governo, ainda não pode ser inteiramente calculado. Mas já é possível arriscar uma ideia de quanto custará. Ninguém duvide de que será bastante alto.

Nem se fale em vidas perdidas, já acima de 200 mil brasileiros, ou em infectados, um total que já passa de 8,5 milhões, muitos com sequelas irreversíveis. Essa é uma conta que, infelizmente, ainda está longe de chegar ao fim, e não tem preço.

Na economia - e, em consequência, nos empregos, padrão de vida e bem-estar dos cidadãos -, no entanto, os prejuízos podem ser contabilizados. Eles se avolumam e mostram tendência de se tornarem gigantescos.

Novos estudos e relatórios, com dados mais concretos, têm sido divulgados, nos últimos dias, relacionando o início da vacinação e a velocidade de imunização com as oscilações previstas para a atividade econômica ao longo de 2021. Essas são as variáveis que permitirão ou não estancar o colapso do sistema hospitalar, liberando ou não a economia para funcionar sem tantas amarras.

Na medida em que vai ficando claro que o governo fracassou na obtenção inicial de um volume suficiente de imunizantes, assim como na montagem de um plano eficaz de vacinação rápida, começam a pipocar projeções negativas para o desempenho econômico em 2021. O atraso no início efetivo da aplicação das doses, a provável intermitência na imunização, por falta de vacina, e, enfim, a incompetência logística que produzirá o prolongamento do processo, transbordando o fim do ano, estão na raiz das previsões de um PIB (Produto Interno Bruto) menor do que o inicialmente estimado.

Com a escassez de vacinas, os cronogramas de vacinação, divulgados tanto pelo governo federal quanto pelos estaduais, tiveram que ser adiados. Também a previsão de imunização dos grupos de risco precisou ser mais diluída no tempo.

Não há, no momento, previsão de entrega, pelas fábricas produtoras chinesas e indianas, do IFA (Ingrediente Farmacêutico Ativo), a principal matéria-prima das vacinas - a da AstraZeneca/Oxford, adquirida pelo governo federal, e a chinesa Coronavac, contratada pelo governo de São Paulo. Sem elas, nem a Fiocruz, nem o Butantan, que detêm grande capacidade de produzir vacinas, podem multiplicar as doses. Na Fiocruz, nenhum insumo chegou até aqui da China ou da Índia para a produção da vacina. A previsão do início da entrega de doses da vacina já foi adiada da primeira de fevereiro para março

O grupo financeiro francês BNP Paribas, oitavo no ranking mundial, e com atuação em 72 países, por exemplo, enviou a seus clientes, nesta terça-feira (19), um relatório em que rebaixa sua projeção de crescimento da economia em 2021, ao mesmo tempo em que eleva a estimativa da inflação. Os atrasos e o menor alcance da vacinação, combinado com a sombria hipótese de que o pico da segunda onda de contágio, no Brasil, mais severa do que a primeira, se dará em meados do primeiro semestre estão no centro das causas das novas e mais pessimistas projeções.

Assumindo que a população de risco estaria toda vacinada até abril e metade dos adultos até agosto, com o restante recebendo a vacina até o primeiro trimestre de 2022, o BNP Paribas reduziu sua previsão de crescimento econômico, em 2021, de 3% para 2,5%. No Boletim Focus, no qual o Banco Central organiza as projeções do mercado financeiro, a expansão estimativa para atividade econômica ainda é de 3,4%, neste ano.

Nas avaliações do BNP Paribas, a abrangência e a velocidade da vacinação será insuficiente para impedir que a segunda onda de contágio promova paralisações e interrupções na atividade econômica. Com o agravante de que os próprios analistas do banco avaliam como otimista a hipótese assumida de que haverá vacinas para todos, nos prazos considerados.

É um diagnóstico semelhante ao do economista Affonso Celso Pastore, referência em análise de conjuntura no Brasil. Em boletim a clientes de sua consultoria, na segunda-feira (18), Pastore resumiu assim as dificuldades que farão as projeções para a evolução do PIB em 2021 descerem para 3%: "Ao afetar negativamente a popularidade de Bolsonaro, o fracasso do governo na elaboração de um plano eficaz de vacinação, a violência da segunda onda de contágio, e a piora da atividade econômica aumentam os riscos de uma reação fiscal desordenada, com reflexos no câmbio, dificultando a tarefa do Banco Central."

A variável chave para o desempenho da economia em 2021, já um consenso, é, sem dúvida, a evolução da pandemia e a possibilidade de sua contenção pela vacinação. Se a demanda hospitalar para tratamento de Covid-19 não for contida, o sistema entrará em colapso, como já entrou em Manaus e ameaça implodir por outras localidades, com uma dramática escassez de oxigênio. Em consequência, não só lockdowns serão inevitáveis, como a própria população tenderá a adotar, voluntariamente, medidas de distanciamento, colaborando para a paralisação da atividade econômica.

Um estudo contrafactual, elaborado pelo economista Bráulio Borges, da consultoria LCA, a pedido do site jornalístico Jota, deixa evidente o quanto os furos nos esquemas de vacinação podem afetar, negativamente, a recuperação da economia e dos empregos. De acordo com o trabalho, se 70% da população fossem vacinados até agosto, o PIB poderia crescer 5,5% em 2021, recuperando a perda de 2020 com alguma sobra. Se esses 70% da população fossem vacinados até junho, a expansão da atividade poderia chegar a 7%, neste ano.

Nenhuma das duas possibilidades, pelo menos na situação de momento, pode ser considerada viável. Além dos seis milhões de doses da Coronavac, produzidas pelo Butantan com matéria-prima importada e já distribuídas aos estados, um outro lote de 10 milhões de doses, também com insumos importados, aguarda liberação da Anvisa. Esse total, porém, é insuficiente para imunizar com as necessárias duas doses até mesmo apenas os profissionais de saúde, primeiro grupo de risco eleito para receber a vacina.

Há, no momento, desequilíbrio global entre a demanda dos países por vacina e a oferta de imunizantes pelos fabricantes. Até mesmo a organizada Alemanha vive um processo de vacinação mais lento do que o previsto, em virtude da escassez de doses. Mas, no caso brasileiro, a falta de insumos para a produção em escala, o atraso na vacinação e o esperado ritmo lento da aplicação das doses tem um culpado mais do que evidente.

Pode-se acusar Bolsonaro pela situação de calamidade sem susto de cometer injustiça. Desde o início, o presidente fez questão de negar a gravidade da situação, impedindo um planejamento estruturado e eficiente para enfrentar a doença e abrindo janelas para que a incompetência predominasse. Quando as vacinas começaram a ser aprovadas ao redor do mundo, o Brasil não havia garantido o estoque de suprimento necessário de nenhuma delas.

Ao liderar, ativamente esse movimento negacionista, Bolsonaro fez o país apostar numa única vacina, e boicotou esforços de governadores na negociação de outros imunizantes. Além disso, bombardeou negociações com países fabricantes, em especial a China, país alvo de provocações sem sentido dele e de seu filho Eduardo, presidente da Comissão de Relações Exteriores, da Câmara dos Deputados, e do chanceler Ernesto Araújo.

O resultado será um efeito dominó dramático. Potencializando mortes e infecções, como consequência de um colapso hospitalar que chegou ao ponto de se transformar em crise humanitária, constrangerá a economia, podendo promover uma explosão do desemprego e da pobreza.

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