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José Paulo Kupfer

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Prioridade à vacina chega depois de o negacionismo desorganizar a economia

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José Paulo Kupfer

Jornalista profissional desde 1967, foi repórter, redator e exerceu cargos de chefia, ao longo de uma carreira de mais de 50 anos, nas principais publicações de São Paulo e Rio de Janeiro. Eleito “Jornalista Econômico de 2015” pelo Conselho Regional de Economia de São Paulo/Ordem dos Economistas do Brasil, é graduado em economia pela FEA-USP e integra o Grupo de Conjuntura da Fipe-USP. É colunista de economia desde 1999, com passagens pelos jornais Gazeta Mercantil, Estado de S. Paulo e O Globo e sites NoMinimo, iG e Poder 360.

08/03/2021 15h25

O ministro da Economia, Paulo Guedes, anunciou, nesta segunda-feira (8), que a Pfizer adiantará ao Brasil cinco milhões de doses previstas para entrega no segundo semestre. Com isso, o total previsto de doses do imunizante da farmacêutica americana aumentará de nove milhões para 14 milhões. No total, até o fim do ano, de acordo com informações do governo, a Pfizer entregará 100 milhões de doses de sua vacina.

Essa antecipação foi negociada numa reunião do presidente Bolsonaro com o presidente mundial da farmacêutica, Albert Bourla. "A grande guerra, como a economia e a saúde andam juntas, é antecipar a vacinação em massa", afirmou Guedes, logo após o encerramento da videoconferência, que não estava prevista na agenda presidencial. "Vacinação em massa é a primeira prioridade do governo", completou o ministro, anunciando o embarque do governo no "mimimi" ironizado por Bolsonaro.

Nem era preciso Guedes relacionar as perspectivas da economia à contenção da pandemia de covid-19. O fato de o anúncio ter sido feito pelo titular da Economia - e não, por exemplo, do ministro da Saúde - é um símbolo forte de que o governo finalmente pode ter entendido que é falso o impasse entre salvar vidas e salvar a economia.

Até chegar neste entendimento quase óbvio - que, espera-se, não venha a ser mais uma vez desqualificado por Bolsonaro -, perderam-se um número inaceitável de vidas e também de empregos, de renda e de faturamento pelas empresas. Quando os sistemas hospitalares entram em colapso, como está ocorrendo agora, os negócios também tendem a colapsar, por falta de trabalhadores para fazer a produção andar e de consumidores para comprar o que está em estoque.

Neste ponto, é preciso ficar claro que a culpa direta por tanto sofrimento inútil é toda do governo e, acima de tudo, do presidente negacionista, diversionista e horrivelmente insensível. Tirar o corpo fora, negar ter dito o que disse e menosprezar o sentimento alheio são características de Bolsonaro. Foram essas características que impediram o país de conter as consequências da pandemia ao mínimo possível, lançando-o além do máximo de perdas que se poderia imaginar.

É preciso também cautela em relação à aparente virada operada na atitude do presidente em relação à vacinação. Isso porque é claro que ela não se deve a uma compreensão do gravíssimo problema sanitário e humanitário causado pela pandemia, mas a uma visão utilitária das tendências de reversão de sua popularidade, com ênfase na rateada da economia está evidenciando. São prova disso as ações de Bolsonaro contra necessários lockdowns, a acintosa recusa em usar máscara e a promoção de aglomerações.

Já que salvar a economia decorre do salvamento de vidas, e está se comprovando que vacinas salvam vidas, a negação absoluta da vacinação dará agora lugar ao espetáculo da corrida do governo atrás de todos e quaisquer imunizantes. Bolsonaro pode até continuar, pessoalmente, a rugir contra vacinas, mas deixou de atrapalhar as tentativas de reduzir os danos causados por seu negacionismo.

Seu cálculo político é óbvio. Com todos vacinados em 2022, a economia pode deslanchar às vésperas das eleições presidenciais, em que se apresentará para um segundo mandato, depois de assumir o primeiro, não custa lembrar, declarando ser contra reeleições.

Bolsonaro pegou carona no auxílio emergencial definido e determinado pelo Congresso, enquanto ele e Guedes hesitavam em liberar - e, quando viram ser inevitável, ainda tentaram restringir seu valor e alcance. Quer repetir a dose com a vacinação e com um novo auxílio.

O problema é que é tão incerto contar com imunização geral até o fim do ano quanto com uma economia vigorosa no ano eleitoral. No caso das vacinas, enquanto o Brasil, nas palavras de Bolsonaro, é bom não esquecer, esperava ser procurado pelos fabricantes, outros países arremataram quase toda a produção prevista. Agora, sobrou uma espécie de xepa de fim de feira, com relativamente poucas doses disponíveis, num quadro que só vai mudar com investimentos em aumento da produção, o que leva algum tempo.

A esta altura, a lentidão na vacinação, causada por oferta insuficiente e trapalhadas do ministério da Saúde na distribuição das doses, tenderá a provocar mais mortes, mais contágio, mais ocupação de hospitais e, em consequência, mais dificuldades na economia. Esta, por sua vez, emparedada pelo recrudescimento da pandemia, perdeu o fôlego que obteve, no segundo semestre de 2020, com a retirada abrupta do impulso que a injeção de recursos, via auxílio emergencial amplo e programas de sustentação de emprego e renda, proporcionara.

Com a projeção de retração no primeiro semestre se tornando consensual, as perspectivas para o resto do ano não são muito animadoras. O incrível negacionismo de Bolsonaro afetou todo o governo e, na economia, resultou numa desorganização da produção. É essa desorganização que pode explicar o quadro de estagflação que está tomando corpo. Mesmo com números de desemprego recordes, problemas de suprimento estão pressionando os preços. A inflação, já projetada acima do centro da meta, em 2021, e também a forte desvalorização do real ante o dólar, têm levado os analistas de mercado a pressionar o Banco Central por elevações dos juros básicos.

Não há melhor explicação para uma situação em que, mesmo com a economia em baixa, os juros tendem a subir do que a desorganização das cadeias de produção. A correção, depois dos todos os malefícios do negacionismo, obviamente vai demorar mais a chegar e custará muito mais caro.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL