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José Paulo Kupfer

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Se não ajudou, fala de Lula não atrapalhou alta da Bolsa e queda do dólar

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José Paulo Kupfer

Jornalista profissional desde 1967, foi repórter, redator e exerceu cargos de chefia, ao longo de uma carreira de mais de 50 anos, nas principais publicações de São Paulo e Rio de Janeiro. Eleito “Jornalista Econômico de 2015” pelo Conselho Regional de Economia de São Paulo/Ordem dos Economistas do Brasil, é graduado em economia pela FEA-USP e integra o Grupo de Conjuntura da Fipe-USP. É colunista de economia desde 1999, com passagens pelos jornais Gazeta Mercantil, Estado de S. Paulo e O Globo e sites NoMinimo, iG e Poder 360.

10/03/2021 19h29

Não dá para cravar que o recuo forte da cotação do dólar, no mercado cambial brasileiro, e a alta do Ibovespa, na Bolsa de Valores, nesta quarta-feira (10), foram causados pelo discurso do ex-presidente Lula. Ao longo do dia, o Banco Central fez intervenções e o dólar também se desvalorizou em relação a outras moedas. Além disso, a PEC Emergencial, mesmo desidratada, avançou na Câmara dos Deputados. Mas a fala de Lula, se não ajudou, pelo menos não atrapalhou na queda da cotação da moeda americana e da melhora nos índices no mercado de ações.

Mesmo com tendência de recuo desde o início do pregão, o Banco Central interveio no mercado cambial. Primeiro colocou US$ 1 bilhão em swaps cambiais e depois fez uma intervenção de US$ 400 milhões, com dólar à vista. Também nos mercados internacionais, a moeda americana recuou, inclusive em economias emergentes.

Mas o discurso em tom relativamente conciliador de Lula entra na composição das forças que levaram ao recuo de 2,5 na cotação do dólar, o maior desde de janeiro, e de elevação de 1,3%, na Bolsa. No dia anterior, quando o ministro Edson Fachin, relator da Lava Jato no STF (Supremo Tribunal Federal), anulou as sentenças do juiz Sérgio Moro contra Lula, o dólar subiu rápido ante o real e as cotações no mercado acionário oscilaram bastante.

Nos meios financeiros, a alta de terça-feira (9), no mercado cambial, assim como as oscilações no mercado de ações, foi atribuída à volta de Lula ao jogo político, na medida em que a sombra de um Lula eventualmente liberado para disputar as eleições presidenciais de 2022, forçaria o presidente Jair Bolsonaro a ampliar e aprofundar ações populistas, pressionando ainda mais as contas públicas.

A hipótese de um novo governo Lula, a partir de 2022, mais radicalmente intervencionista, também contribuiu para o estresse registrado nos mercados de ativos, na terça-feira. No dia seguinte, no palanque armado no Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo Campo, contudo, o ex-presidente apresentou-se, na avaliação geral, mais moderado do que o esperado.

É certo que Lula acenou com o controle de preços na Petrobras, o que, quando aventado por Bolsonaro provocou uma violenta derrubada no valor da ação da estatal. Também se declarou favorável ao aumento dos investimentos públicos - medida necessária para estimular o crescimento, mas que exigiria algum tipo de adaptação nas regras de controle dos gastos públicos, afetando, por exemplo, a regra do teto de gastos. O fato é que, pelo menos nessa primeira avaliação do mercado, Lula não assustou - ou não assustou tanto,

Pode-se especular se essa reação mais amena dos pregões diante do discurso de Lula não esteja revelando um cansaço de Bolsonaro, diante da condução desastrosa do combate à pandemia, e de um pé cada vez mais atrás em relação aos seus princípios econômicos liberais. Há, de fato, sinais mais evidentes de que o apoio dos representantes do mercado financeiro a Bolsonaro tem sofrido abalo, agora acentuado com o colapso dos hospitais e pelo aumento do número de contágios e mortes por covid-19, em combinação com a verdadeira sabotagem de Bolsonaro à vacinação dos brasileiros. Tudo resumido na convicção, já bastante generalizada, de que a vacinação precisa avançar muito mais rápido, para salvar não só vidas, mas também a economia.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL