PUBLICIDADE
IPCA
1,16 Set.2021
Topo

José Paulo Kupfer

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Depois de negar doença e afundar a economia, Bolsonaro cede às vacinas

Conteúdo exclusivo para assinantes
José Paulo Kupfer

Jornalista profissional desde 1967, foi repórter, redator e exerceu cargos de chefia, ao longo de uma carreira de mais de 50 anos, nas principais publicações de São Paulo e Rio de Janeiro. Eleito “Jornalista Econômico de 2015” pelo Conselho Regional de Economia de São Paulo/Ordem dos Economistas do Brasil, é graduado em economia pela FEA-USP e integra o Grupo de Conjuntura da Fipe-USP. É colunista de economia desde 1999, com passagens pelos jornais Gazeta Mercantil, Estado de S. Paulo e O Globo e sites NoMinimo, iG e Poder 360.

24/03/2021 17h12

Ninguém mais discorda de que a vacinação é o caminho seguro para fazer a economia voltar ao trilhos do crescimento. Nem mesmo o presidente Jair Bolsonaro, que sabotou o quanto pôde as vacinas - sim, sabotar é verbo correto para a atitude de Bolsonaro. Em pronunciamento em rede de rádio e televisão, nesta terça-feira (23), ele mentiu, como é de feitio já bem conhecido, ter sempre defendido a aquisição de vacinas e a vacinação, mas afirmou que sua missão agora é "fazer de 2021 o ano de vacinação dos brasileiros".

Deixando de lado a atitude covarde, típica de Bolsonaro quando se vê acuado, o fato é que, embora muitos negassem, seguindo a liderança do presidente, todas as evidências sempre apontaram ser falsa a oposição entre a decretação de lockdowns, para evitar o contágio, e, em consequência, as internações e mortes, e salvar a economia. Menos de duas semanas depois da decretação da pandemia pela OMS (Organização Mundial da Saúde), esta coluna publicou um texto mostrando que conter o contágio de covid-19 e impulsionar a economia eram variáveis dependentes e interligadas.

O negacionismo irresponsável de Bolsonaro, na época, se amparava em declarações e atitudes do então presidente americano Donald Trump. Trump dizia - e Bolsonaro repetia - que a "a cura poderia ser pior do que a doença". Há exatamente um ano, Bolsonaro declarou: "A vida em primeiro lugar, mas sem emprego a sociedade enfrentará um problema tão grave quanto a doença - a miséria".

Como mencionado na coluna de 24 de março de 2020, essa declaração foi a senha para que empresários assumissem a defesa de restrições "seletivas" de movimentação de pessoas. Ficou famosa, na ocasião, a afirmação de Junior Durski, dono da rede de lanchonetes Madero, segundo a qual o país não podia parar "por conta cinco mil ou sete mil pessoas que vão morrer".

Um ano, e, no Brasil, 300 mil mortos depois - um em cada três mortos por covid-19 a cada dia no mundo inteiro agora é brasileiro -, rumo ao tenebroso número de meio milhão de brasileiros mortos, vacinas, a forma mais eficiente de conter o contágio da doença e desamarrar a economia, não são mais contestadas no Brasil - nem por Bolsonaro, é o caso de repetir. O problema é: o governo federal sabotou as vacinas.

Ao longo dos últimos 12 meses, Bolsonaro falou grosso com os fabricantes de imunizantes, afirmando que deveriam procurá-lo se quisessem vender suas mercadorias, vetou a CoronoVac chinesa - a "vachina", desdenhou - negociada por seu adversário político, o governador de São Paulo, João Dória, e agora corre atrás das sobras. O resultado do negacionismo irresponsável é a lentidão a obtenção de doses em volume suficiente e o atraso no processo de vacinação, com o consequente aumento do número de infectados, de internações e de mortes.

A condução catastrófica da pandemia pelo governo Bolsonaro é responsável direta pelos recordes de doentes e mortos por covid-19. Da mesma forma, a resistência em promover o distanciamento social, evitando aglomerações, e os protocolos de prevenção de contágio, como o uso de máscaras, é responsável pelas extraordinárias perdas econômicas a que o país tem assistido. A paralisação voluntária das fábricas das grandes montadoras de veículos, é uma prova de que, compreensivelmente, quando a desorganização no enfrentamento ao contágio da covid-19 chega a um limite, pipocam lockdowns voluntários.

Essas perdas são potencializadas por avaliações equivocadas da conjuntura e inversões nas prioridades de política econômica. A avaliação de que as possibilidades da ocorrência de uma segunda onda eram "baixíssimas", exposta no fim de 2020, à luz do violento recrudescimento da pandemia, nos primeiros meses de 2021, é uma escandalosa comprovação de desídia profissional de seus formuladores.

São óbvias - e graves - as consequências dessa negligência. Uma deles foi o fim súbito do auxílio emergencial de 2020, que evitou mergulho ainda maior da economia no ano passado, e poupou perdas de mais de R$ 500 bilhões. Sem auxílios, os números da pobreza extrema no Brasil voltaram ao inaceitáveis níveis pré-pandemia, e a economia perdeu tração, entrando em 2021 com risco de contração no primeiro semestre.

Uma obsessão fora de hora com "equilíbrios fiscais" também contribuiu para que se chegasse neste ponto dramático em que o país se encontra. Há um ano já se sabia que, diferentemente do que pregaram Bolsonaro, seus ministros e seus seguidores, quanto mais rápidos e rígidos fossem os lockdowns, melhor para a saúde e para a economia.

Não faltaram exemplos mundo afora, deixando claro que com isolamentos mais rápidos e duros, para mitigar o contágio de covid-19, menores seriam os custos e mais rápida a recuperação. Mas aqui o esforço oficial foi na direção de vetar e cortar despesas públicas, na contramão do resto do mundo.

Um novo auxílio, restrito a uma parcela média de R$ 250, por apenas quatro meses, para menos de 40 milhões de pessoas, somando um total de R$ 44 bilhões, equivalentes a 0,5% do PIB, só foi obtido com a chantagem - chantagem é a palavra correta - de uma emenda constitucional que visava contrair gastos públicos, mas o esforço ficou pela metade, com a desidratação de cortes promovida no Congresso. Restou um amparo claramente insuficiente para os necessitados e para reerguer a economia.

Ocorre que, mesmo com todas as vedações fiscais, as contas públicas vivem estado de bagunça. Ao fim do primeiro trimestre, não há ainda um Orçamento aprovado para 2021, e os sinais são de que acabará sendo produzida uma colcha de retalhos orçamentária. O climão, na discussão do Orçamento, é o de quem gritar mais, entre aliados do governo - militares, políticos da base, ministros mais fieis -, levará maiores nacos de recursos.

A expressão numérica dessa obra de destruição pode ser encontrada no RAF (Relatório de Acompanhamento Fiscal), de março de 2021, produzido pela IFI (Instituição Fiscal Independente), órgão vinculado ao Senado Federal, que faz o acompanhamento sistemático das contas públicas, divulgado na segunda-feira (22). Numa tabela esclarecedora e atualizada, apresenta a relação entre a variação do PIB (Produto Interno Bruto) e o tempo de duração de lockdowns, combinado com o nível de paralisação das atividades.

Restrições à movimentação de pessoas, por quatro semanas, que implicam paralisação de 50% da atividade econômica, por exemplo, resultariam em perda de 1 ponto percentual no PIB de um ano. Sabe-se que, na melhor das hipóteses, o PIB de 2021 deve crescer 3,5% sobre o de 2020, com mais chance de não avançar mais do que 2,5%, se a vacinação não atrasar ainda mais. A perda, portanto, seria de de no mínimo um terço. Se a paralisação alcançar 75% da atividade, a redução subiria para 1,5 ponto, podendo expressar perda de mais da metade do crescimento previsto.

A moral dessa história macabra é óbvia. Ao negar a doença e desprezar a cura, Bolsonaro e seu governo afundaram a economia.

PUBLICIDADE

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL