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José Paulo Kupfer

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Dilema do BC é ter de subir juros para conter inflação com economia fraca

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José Paulo Kupfer

Jornalista profissional desde 1967, foi repórter, redator e exerceu cargos de chefia, ao longo de uma carreira de mais de 50 anos, nas principais publicações de São Paulo e Rio de Janeiro. Eleito “Jornalista Econômico de 2015” pelo Conselho Regional de Economia de São Paulo/Ordem dos Economistas do Brasil, é graduado em economia pela FEA-USP e integra o Grupo de Conjuntura da Fipe-USP. É colunista de economia desde 1999, com passagens pelos jornais Gazeta Mercantil, Estado de S. Paulo e O Globo e sites NoMinimo, iG e Poder 360.

08/12/2021 19h54

Às vésperas do aumento de 1,5 ponto percentual decidido pelo Copom (Comitê de Política Monetária) nesta quarta-feira (8), era unânime entre os analistas do mercado financeiro que os diretores do Banco Central confirmariam a dose que levaria a taxa básica de juros (taxa Selic) de 7,75% nominais ao ano a 9,25%, com a qual fechará 2021. Também era unânime que o ciclo de altas nos juros básicos ainda vai se estender pelos primeiros meses de 2022.

Não se havia formado essa unanimidade até o início de dezembro, quando saíram os números oficiais do PIB (Produto Interno Bruto) do terceiro trimestre, atestando a estagnação da atividade econômica. Quem apostava em altas da Selic de dois pontos ou mesmo um pouco mais, diante da economia sem tração, deu um passo atrás.

O recuo dos que imaginavam uma ação mais agressiva contra a escalada inflacionária antes da informação sobre a fraca evolução da atividade expõe o mesmo problema enfrentado pelo BC. Até que ponto o "remédio" de segurar a economia para controlar a inflação pode ser administrado sem "matar" a economia?

O risco de um "overkill", ou seja, de uma dose excessiva de juros, no jargão do mercado, passou a fazer parte dos cálculos, tanto do mercado quanto do Copom. Mensagens mais recentes de diretores do BC à praça deixaram claro então que a autoridade monetária não iria forçar demais a política de juros, passando a atuar contra a inflação de modo mais gradual.

Ao deixar entender que a política de juros passava a ter como objetivo trazer a inflação para o centro da meta não mais 2022, mas em 2023, o BC promoveu a convergência das opiniões sobre qual seria a decisão do Copom, no último encontro de 2021. Mas não em relação à magnitude e extensão do ciclo de altas na Selic que conseguiria dobrar as pressões inflacionárias.

Abrem-se divergências nesses dois pontos. O comunicado divulgado no encerramento da última reunião de 2021 foi duro, mencionando o risco de desancoragem das expectativas em prazo mais longos. Considerou também "apropriado que o ciclo de aperto monetário avance significativamente em terreno contracionista". Não se esqueceu de afirmar com todas as letras que a ideia é aplicar mais uma dose de 1,5 ponto em fevereiro.

Mas alguns interpretam, inclusive a partir de menção no comunicado a uma possível redução de pressões inflacionárias externas, que, por trás do tom pesado do comunicado, foi deixada aberta uma porta para elevação mais leve da taxa básica nas primeiras reuniões do Copom em 2022.

No Boletim Focus mais recente, com projeções de mais de uma centena de analistas até a sexta-feira (3), a Selic no fim de 2022 estaria em 11,25%, a economia cresceria 0,5% e a inflação bateria em 5,01%. Essas estimativas, porém, se mostram, no momento, defasadas em relação às previsões dos especialistas que mais influenciam as opiniões no mercado financeiro.

Entre os especialistas que mais influenciam as opiniões no mercado financeiro, a posição majoritária considera que atuar para acelerar o recuo da inflação deve prevalecer sobre evitar comprometer o comportamento da atividade. Eles projetam nova alta de 1,5 ponto em fevereiro e 1 ponto em março, encerrando o ciclo, no fim do primeiro trimestre, com a Selic em 11,75%.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL