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0,24 Ago.2020
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Animais ou seres mitológicos no mundo das Startups, no que investir?

Nina Silva

Executiva em Tecnologia há mais de 20 anos, especializada em gestão de projetos internacionais e transformação digital. Nina é empresária, escritora, mentora para negócios e palestrante. CEO e uma das fundadoras do Movimento Black Money, Nina foi considerada pela UOL Universa uma das 19 mulheres de 2019, pela Forbes em 2019 uma das 20 Mulheres Mais Poderosas do Brasil e pela MIPAD (Most Influential People of African Descent) como uma das 100 afrodescendentes mais influentes do mundo abaixo de 40 anos.

07/09/2020 23h53

A corrida para ser um unicórnio esbarra cada vez mais em liquidez e retorno para investidores. Mas poucas pessoas sabem que no mundo das Startups outros seres têm ganhado espaço quando se trata de atratividade e tangibilidade.
Startups são empresas jovens e emergentes que por meio da inovação conseguem escalabilidade focados em valor entregue não necessariamente em produto. Em sua maioria caracterizadas por seu modelo de negócio, canais e soluções serem intermediados ou até mesmo terem a tecnologia como finalidade na desburocratização de serviços, mas não se limitando a isso. Um termo que não temos na língua portuguesa e que realmente parece falar uma outra língua quando se trata de acessibilidade no Brasil que possui cerca de 1270 startups segundo pesquisa da Associação Brasileira de Startups (AbStartups).
O ambiente de caos e incerteza é propício para crescimento e criação de novas startups mas mesmo em cenários inconstantes investidores procuram por retorno. Quanto maior a incerteza, custos baixos com equipe e ativos quase zerados mais arriscado é o investimento que no caso pode trazer retornos inimagináveis em pouco tempo caso a startup consiga escalar e despontar com um alto diferencial perante suas concorrentes.
Algumas dessas empresas se destacam por serem supervalorizadas com alto valuation e acabam vendendo sonho para os investidores que procuram ver seus aportes se multiplicando exponencialmente mas quase nunca com retorno garantido. Há pouco tempo vimos o voo e o tombo do unicórnio Wework, startup que teve um crescimento meteórico e aportes em bilhões de dólares que teve sua realidade desnuda na tentativa desastrosa de abertura de capital. O mindset da busca por investimento vir antes de chegar a lucros reais traz um ciclo vicioso de cada vez mais trazer investimentos de fora, gerar mais crescimento com a queimada de caixa com intuito de valorização mas sem solidez lucrativa até mesmo para esses investidores. Brand is the game. Vemos marcas fortalecidas atraírem investimentos milionários na promessa de lucro futuro. Os ditos unicórnios que atingem a valorização de 1 bilhão de dólares no mercado antes do IPO propagam esse modelo que prioriza o crescimento exponencial e a liquidez em detrimento da sustentabilidade.

A expectativa sobre a rentabilidade dos unicórnios nem sempre é alcançada nem justifica os altos custos operacionais e tecnológicos que empresas tão enxutas praticam em prol de uma valorização acima do esperado. Este é um modelo que o movimento das Zebras United tentam "corrigir". Como falado por Mara Zepeda uma de suas fundadoras: "as zebras consertam aquilo que os unicórnios quebram". O manifesto das Zebras denuncia o modelo de mercado pautado em consumo e quantidade pois prezam por (co)criação, qualidade e crescimento sustentável compartilhado.

Um movimento criado por mulheres fundadoras de startups que trazem o contraponto aos unicórnios por priorizarem a praticidade e objetividade do preto no branco, lucro e propósito caminhando juntos para impacto social positivo de maneira gradual. A alusão às zebras se dá também por serem que andam em grupos, colaboram em si indo contra competições desleais. O objetivo é coletivo, onde juntas todas ganham e a sociedade ainda mais, no Brasil a startup Lady Drive é um caso atual onde além de um aplicativo de mobilidade promete às motoristas mulheres melhores retornos sobre cada corrida e às passageiras um ambiente seguro contra assédio. Em expansão a Lady Drive está em seu segundo equity crownfunding popularizando esta modalidade de financiamento onde pessoas que nunca antes pensaram em investimentos podem se tornar investidoras de uma startup com aportes iniciais em R$3.000,00 (três mil reais).

Durante a pandemia temos visto outros animais serem valorizados como no caso das Startups Camelos que buscam cautela, estabilidade, gestão de lucro realista e retornos a longo prazo. Uma das maiores críticas aos unicórnios é a prática de gastar muito dinheiro em uma única ideia ou solução, já a resiliência e o modelo mais fortalecido das startups camelos provocam uma confiança em momentos como o da crise atual onde gastos desenfreados demonstram uma insensibilidade e fragilizam os valores das startups pautadas em cashburn. Um fenômeno ainda mais incomum são as startups dragões que mesmo sendo empresas pequenas conseguem receber aportes bilionários em uma única rodada trazendo um retorno igual ou maior que o aplicado por seus investidores que as veem como uma aplicação segura, mas como o próprio nome sugere são raras, quase lendárias e muito desejadas por investidores anjos.

Entre zebras, camelos e unicórnios a sociedade se inclina cada vez mais para seres que realmente existem e coexistem com os humanos do que figuras mitológicas onde nem sempre é feliz o final da história.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.