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Magalu mostra visão estratégica e pioneirismo ao lançar trainee para negros

Nina Silva

Executiva em Tecnologia há mais de 20 anos, especializada em gestão de projetos internacionais e transformação digital. Nina é empresária, escritora, mentora para negócios e palestrante. CEO e uma das fundadoras do Movimento Black Money, Nina foi considerada pela UOL Universa uma das 19 mulheres de 2019, pela Forbes em 2019 uma das 20 Mulheres Mais Poderosas do Brasil e pela MIPAD (Most Influential People of African Descent) como uma das 100 afrodescendentes mais influentes do mundo abaixo de 40 anos.

22/09/2020 13h01

Contra fatos não há argumentos: Frederico Trajano é CEO da empresa que conseguiu valorização de mais de 1.000% em quatro anos, que cresce exponencialmente mesmo durante a pandemia e é conhecida por fortes pilares e estratégias que a diferenciam de outras empresas de varejo. Com foco em pessoas e seu autodesenvolvimento, ditam tendência em inovação e conseguiram fazer uma das mais bem-sucedidas sucessões de liderança.

Com o avanço do mercado eletrônico durante a pandemia, o Magalu cresceu por estar há anos investindo na transformação digital interna e de sua cadeia produtiva. Cresceu mais de 50% no primeiro semestre deste ano e tornou-se a maior varejista do Brasil.

A gigante do varejo mais uma vez larga na frente, em tempos de ESG, quando inclui microempreendedores em sua plataforma como parceiros para apoio durante a crise e, agora, com o lançamento do programa exclusivo para formação de lideranças negras em sua empresa. Inclusão realmente é o diferencial da empresa para o alcance de resultados inimagináveis.

Por isso, Frederico, com apoio do conselho presidido por Luiza Trajano, olharam os números e lançaram a iniciativa para reparação. Constataram que, de 40 mil funcionários, a metade é de pessoas negras, mas estes estão fora dos cargos de liderança, representando apenas 16% dos líderes da empresa. No comitê executivo e no conselho administrativo, não há representação negra. Nos últimos anos, o programa de trainee do Magalu formou apenas 10 negros das 250 lideranças que passaram pelo processo.

Com muita pesquisa e auxílio de órgãos competentes, como o próprio Ministério Publico do Trabalho, o programa de trainee foi planejado e segue em andamento mesmo com a resistência de juristas e reacionários desinformados.

Mas por que tanta resistência nas redes sobre a iniciativa positiva da empresa?

É simples: as camadas privilegiadas, que hoje estão em cargos de poder em instituições públicas e privadas, acreditam que precisam manter o status quo de uma sociedade excludente em benefício de um pequeno grupo. Por isso, qualquer medida reparatória inclusiva não é absorvida nem compreendida por conta do sistema racista estruturante de acessibilidade e oportunidades em diferentes âmbitos sociais.

Não querem entender medidas de transferências de oportunidades a partir de equidade, mesmo sendo o racismo determinante para todas as desigualdades sociais, por causa de como foi utilizado em prol do sistema de dominação regulatório entre grupos na história do Brasil. No entanto, racistas não compreendem que toda a sociedade brasileira perde com a exclusão socioeconômica da maioria populacional.

Durante a pandemia, as desigualdades raciais foram intensificadas, o desemprego impactou em maior grau a população negra —entre brancos, a taxa de desemprego é de 10,4%, entre pardos, 15,4%, e entre pretos, 17,8%. Esse agravamento é por negros não ocuparem profissões na área de tecnologia e por não estarem em cargos de liderança, estando mais suscetíveis à informalidade, a ocupações no comércio, serviços domésticos e funções operacionais, ocupações que têm sido mais afetadas durante a pandemia.

Definitivamente, o racismo é uma burrice econômica. Cerca de R$ 808 bilhões deixam de ser injetados no PIB brasileiro por causa das disparidades salariais entre negros e brancos. Negros são 56% da população autodeclarada no Brasil e configuram 75% dos 10% mais pobres, uma maioria minorizada em acesso.

É preciso apoiar ações intencionais na base da pirâmide socioeconômica, pois equivale a medidas para fomento contra disparidades sociais, garantindo renda e fomento ao consumo, o que auxilia no reaquecimento econômico para todo o país.

Racismo reverso não existe. Há uma atrofia mental na tentativa de deslegitimar a inclusão racial. No entanto, não há nenhum incômodo destas mesmas camadas quando vemos a lista da Forbes dos 10 maiores bilionários do país e só vemos uma mulher —não é por acaso que seja Luiza Trajano— e nenhuma pessoa negra.

Onde está a indignação quando vemos 33 novos empresários todos brancos que se tornaram bilionários mesmo diante da crise? Não vemos comoção sobre o Brasil ser um dos líderes mundiais em renda concentrada no 1% mais rico, onde 300 mais ricos possuem a renda de 3 bilhões mais pobres?

Pobreza tem cor no Brasil, e ações pautadas em raça, principalmente na aceleração de formação para cargos de poder, combatem as reais mazelas estruturadas pela antiga elite, elite esta que não sabe lidar com ações pautadas para um bem a todos os grupos e não apenas sobre si mesma.

Por que não há um questionamento de termos apenas 4% de líderes negros em cargos de C-level no Brasil ou porque os gestores de investimentos, grandes banqueiros e donos de indústrias são concentrados no grupo minoritário populacional segundo o IBGE, homens brancos? E isso mesmo com relatórios anuais da McKinsey que comprovam que maior diversidade de gênero entre colaboradores traz 25% de lucro, enquanto maior diversidade étnico-racial traz 35% de lucro a mais para as empresas em nível global.

Nas palavras de Frederico Trajano: "Se há deficiências estruturais, se há lacunas de formação, queremos dar a oportunidade para que elas sejam preenchidas e para que o potencial se torne real. Queremos ver mais negros na liderança do Magalu. Não se trata de caridade. Somos uma empresa, não uma ONG, e estamos convictos de que a diversidade nos tornará uma companhia melhor, capaz de gerar mais retorno aos acionistas."

Não há como falar de políticas de investimentos em ESG (Environmental, Social and Governance) sem falar de inclusão racial no DNA das empresas. Portanto, os incomodados devem se acostumar com esse tipo de ação, e as empresas que querem fazer o justo, o rentável e ainda serem inovadoras devem se espelhar no programa de trainee do Magalu e nos surpreender com iniciativas reais de impacto social focadas na população negra.

Enviei uma mensagem para Luiza Trajano perguntando se poderia ajudá-la com algo neste processo. Luiza, como sempre, foi lúcida e certeira: "Nina, é fazer o que vocês estão fazendo, apoiando nas redes. Estamos firmes".

O sucesso do Magalu nas últimas décadas se resume em pioneirismo, inovação, valores, estratégia, inclusão e visão. Portanto, mercado, sigam a líder!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.