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Tudo Golpe

Semente que cura a Covid-19, e a fé em tempos de pandemia

Engin Akyurt por Pixabay
Imagem: Engin Akyurt por Pixabay
Flávio Tasinaffo

A coluna Tudo Golpe é a extensão de um projeto criado por Flávio Tasinaffo com o objetivo de alertar e ajudar as pessoas a não caírem em golpes rotineiros. Siga também em facebook.com/tudogolpe e no Instagram @portaltudogolpe

26/05/2020 05h00

Valdemiro Santiago, pastor e líder da igreja Mundial, divulgou um vídeo no YouTube vendendo sementes por R$500, R$1 mil ou até mais no início deste mês. Disse que, uma vez semeada, os dizeres 'Sê tu uma benção' aparecerão na planta, associando-a a cura de pacientes com coronavírus e em estado terminal. E acrescentou: "E aí sim, conseguiu vencer a crise e a epidemia".

Ainda no vídeo, ele provoca: "Seria bom uma reportagem na Globo, Bandeirantes, Record, SBT, RedeTV, pra mostrar ao povo o poder de Deus. Se é que eles estão interessados nisso". Caro leitor, no momento em que escrevo este texto, o Brasil ultrapassa os 360 mil casos confirmados, já é o segundo colocado mundial neste índice, e contabiliza mais de 22 mil óbitos causados pela Covid-19. No mundo, são mais de 5 milhões de infectados e cerca de 350 mil mortes em uma pandemia nunca vista por esta geração. Mentes brilhantes estão envolvidas em cerca de 80 vacinas cujo desenvolvimento, em uma situação normal, poderia levar décadas. Ora, não é óbvio que qualquer sinal de cura, fosse por medicina tradicional ou alternativa, com explicações científicas ou divinas, seria amplamente divulgada por todas as mídias nacionais e internacionais? Uma semente na qual aparecerão textos bíblicos e que será capaz de curar a Covid-19 parece-me tão crível quanto o pé de feijão que levou o João ao reino do gigante e da galinha dos ovos de ouro.

Em tempo: o Ministério Público Federal solicitou a remoção dos vídeos e enviou notícia-crime ao Ministério Público Estadual para apurar possível prática de estelionato.

No dia 01 de março, em um culto divulgado nas redes sociais, a Igreja Catedral Global do Espírito Santo, no Rio Grande do Sul, pediu aos seus fiéis que fossem ao templo pois haveria unção com óleo consagrado no jejum para imunizar contra qualquer epidemia, vírus ou doença. Durante a cerimônia, Silvio Ribeiro, que se autoproclama profeta, perguntou: "Mas a unção com óleo vai curar coronavírus"? E ele mesmo respondeu: "Deus tem o poder de curar tudo". Ele também comentou: "O coronavírus é a trombeta de Deus proclamando arrependei-vos. O que é o coronavírus? Não é pra ti, eu vou profetizar, ninguém que é lavado, remido, redimido, perdoado, justificado, inspirado, ungido, lavado, salvado pelo sangue de Jesus, vai morrer". O Ministério Público do Rio Grande do Sul considerou o caso passível de enquadramento em crime de "charlatanismo ou curandeirismo". Ribeiro se retratou e comprometeu-se a não repetir o discurso.

Romildo Ribeiro Soares, mais conhecido como missionário R.R. Soares, líder da Igreja Internacional da Graça de Deus, tem utilizado seus horários na TV para anunciar milagres em pacientes com o coronavírus. Em programa recente, ladeado por assistentes, ele pergunta para a primeira quantos casos de Covid ela tinha para divulgar. Ela conta dois, incluindo um enviado por mídia social, segundo o qual a mãe de uma fiel, após 15 dias no respirador, foi curada pela oração do pastor. Em seguida, R.R. Soares se dirige ao segundo assistente: "...e você, tem quantos casos do Covid"? Após o relato de seis testemunhos, Soares pergunta a outro pastor:

- "Como é que está o 'score" agora?"

- "Chegamos a 112 do Covid", o colega responde.

Também neste caso, o Ministério Público Federal vai investigar e pedir a remoção dos vídeos que estão nas redes sociais da Igreja.

A Tanzânia, na África Oriental, soma pouco mais de 500 pacientes diagnosticados com a Covid-19. Seu presidente, John Magufuli, afirmou recentemente que o país venceu a doença, que ele classifica como satânica, apenas com auxílio da fé e orações. O líder tem sido acusado por profissionais locais da área da saúde de mentir sobre os números oficiais do coronavírus.

Um paralelo com as crenças indígenas

A malária foi uma das doenças mais mortais da história mundial, se não a mais letal de todas. Pesquisas apontam que os europeus a trouxeram para o continente americano a bordo dos navios negreiros e, por aqui, se surpreenderam ao descobrir que os índios já tratavam os sintomas com extrato de casca de cinchona. Séculos depois, a planta seria utilizada para o desenvolvimento de medicamentos. Para os indígenas, porém, uma doença não se explica apenas pela ciência - pode ser um castigo enviado por deuses desapontados e a cura passa por um ritual que envolve rezas e cantos.

O paralelo entre charlatões, que usam a religião para explorar o povo e enriquecer, com pajés indígenas deve ser feito com cuidado. Conversei com o jornalista Roberto Guerra sobre o tema: "O pajé é o curandeiro de uma tribo, que faz uso de substâncias curativas da natureza as associando com crenças religiosas e fé. Existe aqui a combinação entre medicina primitiva - mas nem sempre eficaz - e ritos espirituais. Um líder religioso vigarista ignora deliberadamente a ciência médica a qual uma tribo indígena não tem acesso, mas seus seguidores sim, para mistificar o empírico. E quando se falsifica o real, você abre espaço para o quimérico (irreal, fictício, utópico) ".

O medo como fator determinante

Líderes charlatões que desconsideram a ciência para propor o fantasioso criam o cenário ideal para a prática de golpes pela fé. "Eis o cenário ideal para se vender um pé de feijão a mil reais propondo a cura da COVID-19. Obviamente, precisa-se de conjuntura para propor o disparatado. E o ambiente ideal para se sugerir qualquer coisa esdrúxula, arbitrária, insensata e cruel tem de estar permeada pelo medo. Nazismo, fascismo e vários outros ismos políticos precisaram do medo preestabelecido para se desenvolverem e ganharem o respaldo das pessoas. Quer incitar o descabido, estabeleça o medo antes", expôs o jornalista Roberto Guerra.

A psicóloga Marcia Cristina de Altisent Oliveira Cardoso corrobora: "Posso afirmar que as pessoas estão mais suscetíveis a cair em golpes motivados pela fé, pois é uma maneira de conseguirem lidar com o desconhecido e buscar segurança diante do medo que a pandemia está instalando em todos nós. Estamos vivendo um momento em que as pessoas estão fragilizadas emocionalmente e, por esse motivo, buscam se apegar a regras, padrões e crenças que são desenvolvidos desde a sua infância. Ela (a fé) vem para trazer segurança, fortalecer e validar o que estão sentindo. As emoções são instintivas, ou seja, elas têm uma função importante para que possamos lidar com as situações que estamos enfrentando no dia a dia. Durante a pandemia, a emoção do medo, segundo o que percebo com alguns dos meus pacientes, tem sido algo marcante. A doutora Márcia continua: "Nossos pensamentos geram emoções que, por sua vez, geram comportamentos. Durante essa construção, podem acontecer algumas distorções cognitivas, que são pensamentos exagerados e irracionais e não permitem que os indivíduos consigam ver a situação de maneira ampla, ou seja, não conseguem buscar outras formas para enfrentar uma determinada situação e desenvolvem um pensamento, segundo o qual a pessoa religiosa tem a verdade, a cura, por ser uma 'figura de autoridade' dentro de suas crenças".

Mas, então, como lidar com essa questão, afinal, a fé envolve dogmas, a crença em milagres? Na opinião da psicóloga deve haver um equilíbrio entre ciência e religião sem que uma se sobreponha a outra: "Essa é uma discussão complexa, pois uma influencia a outra, como temos visto ao longo da história. Tanto as crenças como a ciência podem ser modificadas por diversas variáveis como questões políticas, sociais e até econômicas. O trabalho do psicólogo, nestas situações, é o de auxiliar o paciente a encontrar este equilíbrio, validando as emoções, auxiliando-o a buscar decisões ponderadas que respeitem sua fé, mas que também levem em consideração aspectos da realidade, respeitando seus limites e conhecimentos prévios".

A Dra. Márcia Cristina trouxe componentes históricos, como o Oráculo de Delfos que existiu há cerca de 2500 anos, na região central da Grécia, e era uma das mais poderosas e influentes instituições do mundo grego antigo. Na época, as pessoas que o procuravam buscavam conselhos que as apoiassem em decisões difíceis. E do bruxo Rasputin, espécie de conselheiro ou curandeiro do czar russo Nicolau II, com grande poder e influência principalmente sobre a czarina Alexandra, que o denominava um mensageiro de Deus. "Durante toda a história do mundo, existem diversos outros exemplos que reforçam a ideia de que, quando as pessoas estão com dificuldades, buscam figuras relacionadas às questões espirituais, religiosas e místicas", concluiu.

Muito antes do coronavírus, os golpes pela fé motivaram a criação do Tudo Golpe

Os golpes pela fé não são novidade e não escolhem religião. Das "amarrações infalíveis para o amor", passando por falsos padres ou profetas e pelas atrocidades cometidas pelo "medium" João de Deus, guardadas as devidas características de cada crime, qualquer um que se valha da crença das pessoas para obter vantagem, independentemente do que determina o Código Penal, causa repulsa.

Um golpe religioso, popularmente conhecido como "Golpe do Benzedeiro", no qual um falso benzedor promete abençoar o dinheiro de sua vítima, mas o furta, foi um dos meus incentivos para criar o Tudo Golpe. Eu tinha proximidade com uma vítima e isto, associado a outros motivadores, fez com que eu decidisse que não mediria esforços para ajudar as pessoas a não caírem em golpes rotineiros.

Criei uma página no Facebook, que virou comunidade em que consigo divulgar para milhares de pessoas notícias sobre os principais golpes e dicas para evitá-los. Também, recebo de seguidores dúvidas e informações sobre diversas modalidades de falcatruas. Essa troca de conhecimento na rede é conveniente e importantíssima porque a internet é, hoje, o local de muitas destas fraudes. Estar no UOL, desde setembro do ano passado, vai além do reconhecimento deste esforço. O importante, neste caso, é o alcance do trabalho, é ter ciência da oportunidade e da responsabilidade de ajudar as pessoas.

Para encerrar, é importante lembrar que não há, ainda, nenhuma vacina que combata a Covid-19. Nenhum medicamento cientificamente comprovado que seja capaz de curar a doença. Por enquanto, sigamos as orientações dos infectologistas e autoridades médicas, busquemos o distanciamento social tanto quanto for possível, façamos a nossa parte e confiemos que tudo isso vai passar.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.