Contadora cria roupa sem bolso, cordão ou metal para presos e visitantes

Márcia Rodrigues

Colaboração para o UOL, em São Paulo

Depois de ficar cinco anos visitando o marido em presídios de São Paulo, a contadora Gladys Dantas, 39, resolveu transformar uma reclamação frequente de mães, mulheres e filhas de presos em seu negócio.

Criou a marca Liberta!, em outubro deste ano, e começou a produzir uma linha de roupas exclusiva para presidiários e visitantes. A empresária não revela o motivo de o marido ter ficado preso e diz que, atualmente, ele já cumpriu toda a pena e trabalha com produção musical.

Segundo ela, há várias regras para entrar em cada uma das unidades prisionais do Estado. "As roupas não podem ter zíper, metal, bolso, cordão e botão de ferro. Em alguns, os visitantes também não podem entrar com as cores amarela, azul, preta e branca."

Roupas são difíceis de achar

Dantas também afirma que o Estado dá apenas um único uniforme para o preso, e a substituição ao longo do tempo do cumprimento da pena fica por conta dos familiares. "Pode parecer simples, mas é muito difícil achar roupa que atenda às exigências tanto para o presidiário, como para o visitante."

A Secretaria de Administração Penitenciária do Estado nega as duas informações. Ela diz que não há regra para o vestuário dos visitantes e que todos passam pelo detector de metal. Sobre os uniformes, a Secretaria afirma que a roupa é substituída na medida em que há desgaste ou solicitação do detento.

Gladys declara, no entanto, que apesar de oficialmente não existir restrições, na prática, há sim.

Calça custa R$ 40 e camiseta, R$ 30

Os uniformes da maioria dos presídios do Estado são calça cáqui (sarja ou moletom) e camiseta branca. Ela diz que a produção da Liberta! obedece às regras de as peças serem largas, mas que procura deixá-las mais adequadas ao corpo da mulher e do homem.

"Tanto para o homem como para a mulher, as peças devem ter elástico, não marcar o corpo e não podem ter bolsos nem botões. Não desrespeitando essas regras, nós desenhamos as calças femininas mais modeladas para o corpo da mulher, para aumentar a autoestima delas."

Dantas diz que não sabe costurar, mas tem uma amiga que possui uma confecção e iniciou a produção. Para a primeira leva, a empresária investiu R$ 7.000. Foram feitas 300 peças (200 femininas e 100 masculinas). "Consegui vender 80% das femininas e 20% das masculinas no primeiro mês de atividade."

A calça de sarja (masculina e feminina) custa R$ 40. A blusa ou a calça de moletom sai por R$ 50 e a camiseta básica custa R$ 30. Para a visitante ainda há a regata de R$ 30.

Propaganda pelas redes sociais

A divulgação das peças é feita pelas redes sociais Facebook e WhatsApp. As vendas são feitas no boca a boca e com a ajuda de uma representante que faz plantão na Barra Funda, bairro da região oeste de São Paulo, às sextas-feiras e sábados, nos pontos de onde saem os ônibus para as penitenciárias do interior.

Nos outros dias, ela reveza os plantões e fica em frente aos Centros de Detenção Provisória da capital. "Também entregamos encomendas no Metrô, conforme solicitação do cliente."

A empresária não revela o faturamento e diz que ainda não teve lucro. O próximo passo é confeccionar roupas para o verão. "Serão calças e camisetas, como determinam as regras, mas com tecidos mais leves." Ela também está avaliando expandir o negócio para outros Estados. "Estou atrás de um investidor para aumentar a produção."

Negócio começou com serviço de entrega para presos

Além da marca Liberta!, Dantas administra, há três anos, o Jumbo Online, site onde os familiares encomendam alimentos, cigarros e artigos de higiene pessoal para os presos. O Estado fornece produtos de higiene pessoal e alimentação, mas as famílias podem levar o que os presos gostam de usar ou comer. Tudo é vistoriado antes de ser entregue.

"Eu compro o produto e faço a embalagem seguindo as normas dos presídios. Se a unidade exige que o xampu seja enviado em uma embalagem transparente, por exemplo, eu substituo a original." Ela afirma que as encomendas são enviadas pelos Correios e que cobra 20% do valor da compra pelo serviço. O faturamento e o lucro não foram revelados.

Marca traduz desejo do cliente, diz consultor

Para Bruno Zamith de Souza, consultor do Sebrae-SP (Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas de São Paulo), a marca Liberta! faz um trabalho muito forte de identificação com o seu público-alvo. "A empresária conseguiu traduzir em um único nome e de forma direta, a aspiração do cliente pela liberdade."

Zamith também afirma que a empresária soube trabalhar muito bem o seu conhecimento sobre o sistema prisional. "Não importa se as regras são oficiais ou não. Por mais que não estejam escritas no papel, quem visita um parente sabe com qual roupa consegue entrar com mais facilidade. E deu para perceber que ela conhece muito bem o processo."

O consultor aponta como risco do negócio a possibilidade de o sistema prisional mudar alguma regra e ela já estiver com a coleção pronta. "Ela precisa estar muito antenada a qualquer possível mudança." Zamith também diz que a fabricação em escala pode ser um problema futuro. "É preciso alinhar bem os processos antes de aumentar a produção."
 

Onde encontrar

Liberta! - https://www.facebook.com/glejumbonline/?fref=ts

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