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O dinheiro sempre acha um caminho para escapar

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Claudio Felisoni

Claudio Felisoni

Professor Titular da FEA/USP, presidente do Conselho do Labfin.Provar, da FIA, e presidente do Ibevar (Instituto Brasileiro de Executivos do Varejo e do Mercado de Consumo)

13/11/2020 04h00

Uma rápida pesquisa vai revelar os dois nomes mais comuns no Brasil: Maria e José. Pois é, um casal com esses prenomes estava, depois do jantar, a fazer contas e mais contas. Sobre a mesa, papéis de rascunho misturados com extratos bancários e comprovantes de despesa denotavam a situação confusa em que aqueles dois estavam metidos.

Essa situação revelava desorganização e, principalmente, tensão. Enquanto Maria ditava os valores, José os registrava em uma pequena calculadora. Porém bastava que Maria se demorasse alguns poucos segundos para que José demonstrasse sua insatisfação tratando-a rudemente. Maria, também, não ficava atrás. Qualquer pergunta que José fizesse vinha sempre seguida por uma resposta curta e descortês. Nada de anormal, afinal, quando falta o pão, todos brigam e ninguém tem razão. Não é verdade?

De qualquer modo aos trancos e barrancos eles precisavam fazer esse trabalho. Em vez de se sentarem para um momento de merecido descanso após terem colocado os dois filhos pequenos para dormir. Simplesmente não podiam fazer isso. Estavam lá municiados de montes de papéis espalhados como adversários com suas luvas de boxe: "E isso aqui, José, o que é no cartão? Para que gastar comprando esses jogos pela TV?" Perguntava agressivamente Maria. Respondia José: "Eu gosto, será que não tenho ao menos esse direito? Você gasta demais no mercado e não reclamo." Como se não estivesse exatamente naquele momento fazendo o que acabara de dizer que não fazia!

Subitamente, enquanto José digitava, Maria fixou seu olhar em um dos cantos do teto da sala. Disse ela: "Estamos com uma infiltração naquele canto. Ele olhou e viu que de fato a parede estava com fios de umidade. Era a parede que se conectava com a cobertura da garagem. Uma garagem construída somente com a laje, isto é, não tinha proteção de um telhado. Disse ele para a mulher: "Que coisa, impermeabilizei recentemente com todo o cuidado." Maria retrucou: "A água sempre acha um caminho para escapar."

Um olhou para o outro sem que ninguém dissesse nada e ao mesmo tempo pensaram: "Assim como o dinheiro." As microrrachaduras feitas na laje são as portas por onde a água escorre. Muitos são os fatores que as provocam, assim como diversas são as portas por onde o dinheiro vai embora. Nessas condições não se pode falar em poupar.

Portanto, se o casal não estiver atento, será impossível detectar por onde a água entra danificando as paredes. É preciso dizer aos dois que, desde o momento que acordamos até a hora que nos recolhemos, somos alvo das estratégias das empresas que querem e precisam vender seus produtos e serviços.

Por exemplo, um estudo do Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo e Mercado de Consumo (IBEVAR) constatou que nada menos que 72% das pessoas associam os preços quebrados (R$ 99,99; R$ 9.999,99 etc.) com promoção, independentemente de esta ser real ou não.

Em um outro interessante experimento, vendeu-se um batom nos Estados Unidos para duas amostras estatisticamente semelhantes de mulheres. Para um grupo, o batom foi vendido a US$ 6,00 e para o outro grupo, a US$ 5,90. No grupo que se praticou preço quebrado, registrou-se um volume de vendas 22% maior que o do grupo com preço fixado em US$ 6,00!

José disse à Maria que ela gastava muito no supermercado. Mesmo sendo Maria uma mulher cuidadosa, é bem provável que José tivesse razão, pois Maria se fazia sempre acompanhar dos dois filhos. O IBEVAR mostrou que os maiores gastos ocorrem quando as mulheres vão com os filhos no supermercado. Além disso, Maria não tinha o hábito de elaborar uma lista de compras antes de ir abastecer a casa. O mesmo estudo do IBEVAR revelou que as listas antecipadas de compras reduzem substancialmente o gasto médio.

Mas não é só o comportamento de Maria que produz fissuras nas finanças domésticas. José, quando vai às compras, frequentemente mete os pés pelas mãos: compra mais do que era necessário e tem a tendência de gastar além do que seria preciso. Não seria exagero dizer que José é muito atraído pelo alçapão da palavra "promoção", por exemplo: 30% off. Muitas vezes, ele trouxe para casa coisas porque eram baratas. Depois as largou em algum canto sem uso. Maria tem razão de reclamar das despesas de José. No caso do futebol, a assinatura do canal talvez pudesse ser substituída pela compra de alguns jogos.

De qualquer modo, Maria e José não vão se livrar desses estímulos para gastar, entretanto, assim como um viciado em alguma droga somente se liberta quando admite sua situação, tomar consciência dessas frestas abertas no orçamento é absolutamente essencial: "Em rio que tem piranha, jacaré nada de costas."

Os dois sentados naquela mesa agem como um legista: o orçamento estourou, não sobrou nada para alimentar uma desejável reserva. Estão os dois ali sentados em confronto tentando descobrir as frestas por onde o dinheiro desapareceu. Quem sabe tenham aprendido. Em vez de autópsia, eles deviam iniciar um tratamento. Precisam pensar em se proteger. Cobrir a laje com um telhado é o que se recomenda.

Este material é exclusivamente informativo, e não recomendação de investimento. Aplicações de risco estão sujeitas a perdas. Rentabilidade do passado não garante rentabilidade futura.

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