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A economia também precisa de vacinas

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Claudio Felisoni

Claudio Felisoni

Professor Titular da FEA/USP, presidente do Conselho do Labfin.Provar, da FIA, e presidente do Ibevar (Instituto Brasileiro de Executivos do Varejo e do Mercado de Consumo)

04/12/2020 04h00

Investir é uma iniciativa desafiadora, porém é algo que necessariamente precisa ser assumido. O desafio está exatamente em enfrentar o futuro. E o futuro é desconhecido. Tal desconhecimento produz risco ou incerteza. Risco não é o mesmo que incerteza.

O risco se refere às situações em que se conhecem os estados futuros e a essas situações se podem associar probabilidades de ocorrência. Por exemplo, o valor das ações da Vale do Rio Doce no próximo mês fechará em alta ou em baixa? É bem possível que, em função dos resultados recentes da companhia, a competição internacional e a política cambial, alguns consigam atribuir probabilidades para essas duas diferentes situações.

Entretanto, qual a chance de o mundo ser acometido por uma nova pandemia nos próximos 50 anos? Isso, sem dúvida, é bem mais difícil prever. Esse evento é incerto. Sua ocorrência não pode ser dimensionada, isto é, é muitíssimo complicado estabelecer probabilidades para tal situação. Por essa razão, fica muito comprometido o processo de gestão quando é a incerteza, e não os riscos que estão presentes.

De outro modo, situações de risco podem ser administradas. Três são as diretrizes para reduzir os riscos. A primeira é exatamente diversificar a carteira dos investimentos: não colocar todos os ovos em uma única cesta. A segunda alternativa para redução dos riscos é procurar obter mais informações, de modo a tornar mais claros os fluxos futuros. Finalmente, pode-se até eliminar totalmente o risco, contratando um seguro. Nesse caso, é óbvio, o problema é o preço do seguro em confronto com as expectativas de ganho.

Já foi explorada, em artigo recente, a questão do risco e, certamente, o assunto, tendo em vista a importância, voltará a ser contemplado. Como compor uma carteira diversificada realmente é um tópico do maior interesse. Também o é a questão de como se proteger valendo-se de seguros.

Em que pese a relevância dos dois processos anteriores, não se pode deixar de considerar que ambos, em geral, podem e devem ser precedidos por um esforço para obtenção de mais informações. Muitas dessas informações são disponíveis, porém, precisam ser selecionadas e acompanhadas, pois são determinantes do desempenho das diferentes alternativas de investimentos.

Todos os negócios se desenvolvem no contexto da economia. Portanto, conhecer minimamente as variáveis que delineiam os contornos desse ambiente de negócios e acompanhar seus respectivos comportamentos é essencial para qualquer investidor, seja ele pequeno ou grande.

Há alguns aspectos que merecem particular atenção. Não há dúvida que o primeiro desses aspectos se refere à evolução e perspectivas associadas ao produto da economia, ou, mais especificamente, o que se espera em termos do chamado PIB (Produto Interno Bruto) para os exercícios futuros.

O PIB, para facilitar o entendimento, consiste no valor total de tudo que se produz e se comercializa. Não é exatamente isso, porque, se assim fosse, as atividades seriam repetidamente contadas (duplicidade). Na verdade, o PIB é a composição dos valores adicionados dos bens e atividades computados considerando todos os canais de produção e distribuição.

Porém, para os propósitos aqui postos, a observação acima não é relevante. O que realmente importa são as perspectivas para o PIB real, isto é, descontada a inflação. Elas é que vão definir o potencial de rentabilidade e os riscos das alternativas de investimentos. Quanto maiores as taxas de crescimento esperado do PIB, maior o otimismo com a economia. É esse otimismo que estimula indivíduos, empresas e instituições a aplicar recursos na construção do futuro. Ou seja, como dizia Keynes, é o investimento que cria a renda. O investimento, por sua vez, depende de como a sociedade vê o futuro.

Essa visão do futuro depende de condições objetivas e da interpretação que os indivíduos fazem dessas situações. O ano de 2020 deve ser encerrado com um encolhimento do PIB entre 4,5% e 5%. Mas, como assinalado, não é o passado que define as possibilidades e sim o que está por vir. Para 2021 estima-se uma expansão da ordem de 4%, entretanto, muitos elementos dificultam a previsibilidade, isto é, para o próximo ano, infelizmente, há mais incerteza do que riscos. Quais as razões?

A pandemia elevou o déficit público primário (receitas menos gastos, valor negativo não considerando os juros da dívida do governo) em mais de 600%, passando de R$ 124,1 bilhões para R$ 877,8 bilhões.

Os problemas decorrentes do necessário aumento vertiginoso do gasto público estão sendo e serão ainda mais amplificados pela ausência de importantes reformas que de há muito são absolutamente requeridas: a reforma tributária e a política. Essas são as vacinas que precisariam ter sido já aplicadas.

Após a implantação das reformas trabalhista e previdenciária, o conflito entre os Poderes simplesmente paralisou os avanços, agravando os efeitos deletérios futuros da pandemia. Portanto, o fim da pandemia não encerra o período de dificuldades. O Brasil terá, lamentavelmente, de enfrentar ainda tempos bem complicados, caracterizados por baixa previsibilidade, ou seja, incerteza e grande volatilidade no valor dos ativos.

Este material é exclusivamente informativo, e não recomendação de investimento. Aplicações de risco estão sujeitas a perdas. Rentabilidade do passado não garante rentabilidade futura.

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