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Bancos brasileiros vão 'sangrar' após crise internacional? Veja o que especialistas preveem para o setor

13/04/2023 12h54

Nas últimas semanas, problemas financeiros dos bancos foram suficientes para ‘tirar o sono’ do mercado financeiro, com uma crise severa de credibilidade após a falência do Silicon Valley Bank (SVB) nos EUA e da derrocada do Credit Suisse, que foi posteriormente vendido por US$ 1 bilhão ao UBS. Essa crise bancária vai afetar os pares no Brasil?

Primeiro, é preciso lembrar e entender a crise dos bancos internacionais. Por motivos diferentes, ambos os casos vieram à tona em uma janela de tempo relativamente curta e são significativos em meio a um contexto em que a palavra “recessão” ocupa diversas manchetes e os juros historicamente altos do Federal Reserve (Fed) colocam um estresse extra na gestão dos bancos.

Considerando os balanços anualizados e divulgados ao fim de 2022, a quantidade da perda dos títulos no ‘market to market’ em relação ao patrimônio líquido de bancos e instituições financeiras, há uma elevação acima do ‘teto’ – em tese, 100% – de diversas instituições, incluindo as que ficam dentro do guarda-chuva de ajuda das autoridades pelo seu tamanho.

Dentre bancos de US$ 100 bilhões a US$ 50 bilhões em ativos, o USAA Federal Savings Bank mostra uma perda de 103%. Em um evento de corrida bancária, esse player não ganharia o ‘bote salva-vidas’ do Fed, que só ajuda bancos com mais de US$ 250 bilhões em ativos pela normativa atual.

Na faixa de US$ 200 a US$ 500 bilhões, o Charles Schwab Bank – instituição que foi o ‘benchmark’ para a criação da XP – mostra uma perda de 167%. Acima de US$ 500 bilhões, o Bank of America (BofA) teve uma perda de 65%.

Para efeito de comparação, o SVB mostrava uma perda de 100%.

Apesar disso, e de a inadimplência estar em patamares relativamente altos no Brasil, especialistas consultados pelo Suno Notícias destacam que o teor de concentração e o caráter regulatório do setor bancário do país devem ser suficientes para frear uma crise de crédito.

Além disso, a possibilidade de comprar Letras Financeiras do Tesouro (LFT) também dá um grau de segurança a mais para os bancos brasileiros, explica Matheus Guimarães, CFA e analista do setor financeiro da XP.

“É óbvio que todo esse caos lá fora traz mais preocupação, mas, quando olhamos para a operação dos bancos [brasileiros], vemos um cenário saudável; achamos que está bem adequado em termos de alocação de de títulos”, comenta.

“Se tivermos algum problema no Brasil, as instituições estão bem estruturadas. O Banco Central tem as ferramentas para intervir em um eventual caso de necessidade, seja por meio de linha de crédito, ou crédito compulsório. Quando olhamos o setor, concordamos que ele vai estar mais no holofote. Nesse momento, todas as pessoas do planeta estão olhando desconfiadas para qual o próximo banco que apresentará dificuldade”, acrescenta.

Apesar disso, o risco de crédito e o os eventos recentes não devem ‘passar batido’ pelo setor, e podem mudar um pouco a maneira como os players se comportam.

Somado a esse contexto, o ambiente de custo de capital mais alto também deve ‘bater’ mais em empresas substancialmente mais endividadas.

“Estamos mais cautelosos, de fato, no que se trata de crédito. Na parte de corporate, vemos muitas empresas alavancadas e com um custo de dívida que só sobe. Achamos que o ambiente para crédito é relativamente complicado. No varejo, por exemplo, você sofre duplamente, porque além da dívida mais cara o ciclo de consumo piora com juros nesse patamar”, analisa Welliam Wang, CFA e head de renda variável da AZ Quest.

Menos bancos, mais regulação

Sendo citada majoritariamente como um ponto negativo na maioria das vezes, a concentração bancária pode ser um fator que joga contra um eventual problema no ciclo de crédito brasileiro.

Ricardo Almeida, diretor de renda variável da ASA Investments, destaca que o cenário atual mostra um risco substancialmente menor em solo brasileiro.

“O setor bancário brasileiro é muito diferente em termos de regulação, segurança e supervisão. Não dá para dizer que esse tipo de coisa nunca aconteceria aqui, mas a probabilidade é muito baixa. Você tem um regulador muito mais atuante e com regras mais claras e rígidas sobre alavancagem e o quanto você pode carregar de ativos”, relata, em entrevista ao Suno Notícias.

“O que tivemos aqui foi uma expansão de pessoas físicas que se endividaram a uma taxa de juros baixa, e você teve um salto da Selic”, acrescenta.

A preocupação com os patamares de tomada de crédito, aliás, foi citada pelo gestor Luis Stuhlberger na última carta do Fundo Verde.

Segundo a Asset, "há sinais de um incipiente 'credit crunch' [crise de crédito] atingindo a economia brasileira, cujo enfrentamento requer boas políticas públicas e não bravatas. Não por acaso os prêmios de risco dos ativos brasileiros seguem bastante altos".

Inadimplência ainda preocupa

Os patamares de inadimplência, citados pelos especialistas, mostram um cenário relativamente alto de endividamento das famílias. A maioria dos gestores, aliás, só espera um recuo na inadimplência durante o segundo semestre deste ano.

O fator, aliás, foi responsável pela derrocada das ações do Bradesco (BBDC4) em dois pregões que sucederam a publicação dos seus balanços – referentes ao terceiro e quarto trimestre do ano de 2022.

Segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic) da Confederação Nacional do Comércio (CNC), em março a proporção de famílias brasileiras endividadas cresceu 0,3 ponto porcentual (p.p.) em fevereiro ante janeiro, para 78,3%, após dois meses de estabilidade.

Esse cenário foi suficiente para a Federação Brasileira de Bancos (Febraban) cortar a projeção das carteiras de crédito de 8,3% para 7,9%.