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Dá para ganhar 5x mais no Tesouro Direto, mas opção não é para todo mundo

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Raphael Coraccini

Colaboração para o UOL, em São Paulo

20/08/2021 04h00

O investidor que procura o Tesouro Direto geralmente busca alguma tranquilidade e rendimentos certos, ainda que tenha que se contentar com retorno mais modesto. Mas há também quem use essa modalidade para tentar ganhos que podem extrapolar em até cinco vezes a rentabilidade comum desses títulos.

Os especialistas ouvidos pelo UOL dizem que, sim, é possível especular no Tesouro Direto —assim como os traders fazem na Bolsa — e ter uma rentabilidade bem maior do que a contratada, mas alertam que esse ganho depende do comportamento de indicadores e está reservado a algumas opções de títulos.

Marcação a mercado

O caráter de renda fixa do Tesouro Direto está no fato de que há uma garantia de renda ao final do contrato, mas, até que o prazo de vencimento desse contrato chegue, os títulos prefixados e indexados à inflação (Tesouro IPCA) podem ser negociados a um valor diferente do valor contratado. É nessa diferença que está a oportunidade.

Esses títulos sofrem o que é chamado de marcação a mercado, que é, basicamente, a diferença entre o preço de compra e o de venda, o que não acontece com os pós-fixados, como o Tesouro Selic. É essa particularidade que permite aos prefixados e indexados pela inflação renderem mais a quem os negocia antes do prazo de vencimento.

Como é possível buscar esse rendimento acima do valor contratado?

Carregar um título do Tesouro Direto até o vencimento implica receber exatamente aquilo que foi contratado. O rendimento acima do que foi estabelecido na compra do título só pode acontecer quando ele é vendido antes do vencimento, mas é preciso que isso aconteça em uma situação de queda da taxa aquém da que foi estabelecida quando o título foi negociado.

"Essa diferença de rentabilidade da taxa que você contratou para a taxa de mercado atual, você recebe antecipadamente por conta da marcação a mercado. Então, seu título valoriza e passa a valer mais diante da redução da taxa. É assim que, com um título de taxa de 10%, você recebe retornos de até 50%", afirma Marília Fontes, sócia-fundadora da Nord Research.

Quando os juros sobem, o efeito é inverso, o título rende menos na venda antecipada e o investidor que quiser ter o máximo rendimento possível deve segurar o título até o vencimento.

Rentabilidade variável na renda fixa

Mesmo em caso de rentabilidade acima do valor original, esse volume de dinheiro a mais pode variar conforme os indicadores de mercado, explica Mauro Calil, professor e presidente da Academia do Dinheiro.

"É preciso saber a hora de vender. Não é porque o nome é renda fixa e porque rendeu 18% em um mês que no próximo mês vai render igual. A renda é fixa porque existe uma promessa de rendimento, mas, na prática, ela é variável", diz o especialista.

Quais os riscos desse tipo de operação?

As taxas que incidem sobre a rentabilidade desses títulos são as de juros futuros, e elas podem mudar em um instante.

"Havendo qualquer incerteza, os investidores vão precificar os juros futuros maiores, e aí, o preço ao mercado cai e você perde no curto prazo", diz o professor. Essa perda, porém, é apenas no caso de venda antecipada do título. "Se você levar até o final [até o vencimento], você não perde nem ganha, você vai levar aquilo que contratou", diz.

Quem pode fazer trade no Tesouro Direto?

O trader e Investidor profissional João Homem explica que existe a possibilidade de fazer negociações frequentes com o Tesouro Direto, mas, para isso, "é preciso entender bem sobre como é composto um título e sobre matemática financeira, para que possa aproveitar oportunidades de comprar títulos com taxas mais altas e preços mais baixos, e vendê-los com taxas mais baixas e preços mais altos".

Já teve algum momento em que fazer trade com títulos públicos foi lucrativo?

Sim. João conta que, em 2016, houve situações em que era possível comprar um título prefixado pagando 14% ao ano durante um período de cinco anos e receber isso em 2021, num cenário de juros a 3% ao ano, que era a taxa futura prevista pelo mercado.

"Imagine que você emprestou dinheiro a um amigo em 2016 com juros de 14% ao ano prefixados, pois era a taxa praticada naquele momento. Porém, a cada mês a taxa praticada foi caindo, mas seu amigo cumpria o acordo de te pagar a taxa pré-acordada (14%). Sendo assim, você estava tendo um desempenho acima do mercado", diz.

O que prejudica a rentabilidade de quem faz trade com o Tesouro?

Impostos. Qualquer título de renda fixa tem uma tabela regressiva, com pagamento de 22,5% de Imposto de Renda sobre o lucro para quem vende antes de seis meses, caindo até 15% para quem retira o dinheiro depois de dois anos de aplicação.

Além disso, tem a incidência de IOF (Imposto sobre Operações Financeiras) para operações durante os primeiros 30 dias, o que praticamente anula qualquer rentabilidade em vendas de um dia para o outro (day trade).

"Se você decidir fazer day trade com o título, não vai fazer sentido, porque ao comprar num dia e vender no outro, você vai pagar um IOF de quase 98% sobre o que ganhou. Só faz sentido para operações um pouco mais longas, de pelo menos duas ou três semanas, porque o IOF cai bastante, mas ainda tem o IR", afirma Marília.

Vale a pena fazer trade com os títulos?

Os especialistas são unânimes em dizer que o atual ciclo de alta da taxa Selic joga contra a marcação a mercado e, portanto, contra a rentabilidade em operações de trade com títulos públicos do Tesouro Direto.

Para ter ganhos acima das taxas contratadas, as taxas de mercado precisam cair, o que não está no cenário atual. "As taxas estão subindo e existe o risco de você ter prejuízos com essas operações neste momento", afirma Marília.

Homem também não crê que este seja o momento para especular em Tesouro Direto,

"Nossos juros reais circulam entre neutro e negativo, a inflação segue num ritmo muito acelerado, o risco Brasil está aumentando e houve deterioração do Tesouro brasileiro nos últimos meses", diz.

Este material é exclusivamente informativo, e não recomendação de investimento. Aplicações de risco estão sujeitas a perdas. Rentabilidade do passado não garante rentabilidade futura.

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