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Com dívidas, dona das Casas Bahia pedirá recuperação judicial? É improvável

Casas Bahia e Ponto Frio pertecem à Via, que acumula dívidas trabalhistas em nível bilionário - Nacho Doce/Reuters
Casas Bahia e Ponto Frio pertecem à Via, que acumula dívidas trabalhistas em nível bilionário Imagem: Nacho Doce/Reuters
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Vinícius de Oliveira

Colaboração para o UOL, em São Paulo

20/01/2022 16h26

Dona de marcas como Casas Bahia e Ponto Frio, a Via (VIIA3) tem sido alvo, nos últimos meses, de especulações sobre uma suposta recuperação judicial. O estopim teria sido o relatório do terceiro trimestre de 2021, que trouxe reserva de R$ 1,2 bilhão para dívidas trabalhistas a serem pagas nos próximos anos.

O aumento do valor das reservas, com o cenário econômico negativo se desenhando —alta da inflação e dos juros, e menor margem de lucro—, teria acendido o alerta em alguns investidores. O UOL conversou com três analistas de diferentes casas de análise, que deram suas opiniões sobre os riscos de a companhia entrar em recuperação judicial. Segundo a análise, é improvável que isso aconteça. Veja também o que fazer caso você tenha ações da empresa ou queira comprar.

Cenário improvável

Analista da Inversa, João Abdouni afirma que há um pouco de exagero na história, pois a Via refinanciou parte das dívidas recentemente. "É uma empresa de capital aberto, então tem uma série de formas de se capitalizar, caso necessário", diz.

Gustavo Bertotti, mestre em Economia e economista-chefe da Messem Investimentos, concorda. Para ele, o pedido de recuperação judicial da varejista é um rumor que não deve se concretizar. "Investidores questionaram a XP Investimentos sobre uma possível recuperação judicial da Via, em cima do aumento das provisões trabalhistas, e a própria XP classificou esse cenário como improvável".

De acordo com Paulo Cunha, sócio-fundador da iHUB Investimentos, "as empresas varejistas têm sofrido um pouco mais no mercado, por questões de margens de lucro mais comprimidas e inflação. O que parece que aconteceu é que algumas pessoas juntaram esse cenário, com o aumento das provisões trabalhistas, mais a dívida relativamente alta da Via. Só que, se você analisar mais friamente, não é a fotografia que se desenha".

Por que a Via não deve entrar em recuperação judicial

Os analistas apontam três motivos para não acreditar que a Via entrará em processo de recuperação judicial:

  1. A renegociação dos vencimentos das dívidas de curto prazo;
  2. A posição sólida do caixa da empresa; e
  3. A compra da CNT, empresa de soluções logísticas para o e-commerce.
Berlotti afirma que a Via apresenta solidez no mercado, uma vez que o resultado do terceiro trimestre do ano passado apresentou disponibilidade de caixa da empresa. Ainda, "a Via vem fazendo uma gestão de passivos e atuando na questão do endividamento. Isso é importante", diz.

O relatório divulgado pela XP Investimentos aponta que 78% das dívidas da Via são de longo prazo, contra 40% no final de 2020. Esse cenário dá mais fôlego ao caixa da companhia, que hoje está com R$ 1,6 bilhão à disposição.

Além disso, os analistas entrevistados destacam que a compra de empresas não é comum em companhias que estão para entrar em processo de recuperação judicial, já que geralmente o cenário é de queda nos investimentos.

A Via foi procurada pelo UOL e, segundo a assessoria, não irá se pronunciar sobre o caso.

O que são provisões trabalhistas?

Não se sabe ao certo como o rumor sobre uma recuperação judicial da Via começou, mas a revisão das provisões trabalhistas para os próximos anos pode ter sido o estopim. Em seu balanço, a Via divulgou que deve gastar nos próximos anos R$ 1,2 bilhão em processos trabalhistas.

Abdouni, da Inversa, explica que provisões trabalhistas funcionam como um dinheiro reservado no balanço para pagar possíveis perdas em processos realizados por ex-funcionários contra a companhia.

Cunha complementa e diz que "toda empresa que tem muitos funcionários tem que ter algum tipo de provisão. Tanto na questão de passivos, caso haja alguma demissão, ou para processos na Justiça. Isso é normal".

"O fato de a provisão trabalhista ter sido feita mostra transparência e que a empresa vem fazendo uma gestão de passivos. Isso é observado pelo mercado", fala Bertotti.

Tenho ações VIIA3 ou quero comprar; e agora?

No relatório mais recente divulgado, a XP Investimentos mantém a recomendação neutra sobre as ações da Via. Os analistas ouvidos pelo UOL acreditam que quem tem ações da empresa não precisa se preocupar imediatamente, mas deve ficar de olho em alguns fatores importantes.

"Puramente pelo boato da recuperação judicial, eu diria que o investidor não precisa se preocupar. É claro que a análise deve envolver muito mais coisas. Hoje a recomendação da XP é neutra, não é recomendada a compra, por outras questões: compressão de margem de lucros, inflação em alta e juros subindo", diz Cunha.

Antes de comprar ações de qualquer empresa, ele recomenda analisar o histórico, ver quem são os administradores, se são trocados com muita frequência, como está a posição de caixa, se ela tem muitas dívidas e se as margens de lucro estão crescentes.

Bertotti afirma que o cenário não está favorável para as empresas varejistas. "O setor está sendo penalizado pela alta da inflação, baixa de consumo e também pela alta do juros. Não é um fato isolado da Via, é um fato do setor macroeconômico. É uma situação complexa pela qual o setor vem passando, mas os juros futuros caíram nesta quarta e as ações do varejo subiram como um todo".

Já Abdouni alerta sobre uma possível "queima sistemática de caixa" da Via e também reforça a necessidade de atenção redobrada aos relatórios. "No caso da Via, as despesas de crediários, os custos das operações são maiores que as receitas. Isso é algo que, a longo prazo, se não for resolvido, levará a empresa à falência", afirma.

Ele diz também que "quem investe ou pretende investir precisa analisar a geração de caixa da companhia. Outro ponto de atenção é que vários balanços da empresa tem problemas de reapresentação, por algum erro de períodos anteriores".

O que acontece com ações de empresa em recuperação judicial?

Apesar do cenário improvável no caso da Via, os analistas também explicaram o que acontece com as ações quando uma empresa entra com um processo de recuperação judicial.

De acordo com Cunha, as negociações das ações da companhia na Bolsa podem ser interrompidas temporariamente, se o anúncio for feito durante o pregão, para evitar grande volatilidade. "Mas não existe uma regra específica".

"Em linhas gerais, o papel acaba ficando mais esquecido pelos investidores profissionais e institucionais. Acaba entrando no campo mais especulativo, perde liquidez e relevância. Empresas como OGX e Oi, por exemplo, já foram importantes, e hoje você raramente ouve falar delas. Dificilmente um grande fundo compra ações dessas empresas", afirma o analista da iHUB Investimentos.

Já Bertotti e Abdouni reforçam que o desempenho do papel depende do humor do mercado. "A recuperação judicial pode ser mal vista ou bem vista. É muito difícil prever", diz o analista da Messem Investimentos. "Varia muito conforme o cenário", afirma o analista da Inversa.

Este material é exclusivamente informativo, e não recomendação de investimento. Aplicações de risco estão sujeitas a perdas. Rentabilidade do passado não garante rentabilidade futura.