Decisão da Opep ignora pico iminente da demanda por petróleo

Jessica Shankleman

(Bloomberg) -- A decisão tomada pela Opep no mês passado de reverter sua política de extração irrestrita e diminuir a produção de petróleo para dar impulso aos preços pode estar em desacordo com a tendência de longo prazo mais importante do setor: a demanda pelo que produzem poderia começar a cair nos próximos 15 anos.

Se continuar a haver avanços rápidos em energia renovável, veículos elétricos e outras tecnologias inovadoras, o consumo de petróleo atingirá um pico em 2030 e diminuirá depois disso, segundo um relatório do Conselho Mundial de Energia (WEC, na sigla em inglês).

Os maiores produtores do planeta, que se reunirão nesta semana em Londres para a conferência Oil and Money, talvez devessem revisar a premissa de que o mercado irá crescer nas próximas décadas.

A forte queda no custo da energia renovável - os custos dos módulos solares diminuíram 50% desde 2009 - já está derrubando o modelo de negócios das concessionárias de energia elétrica.

A ruptura poderia se espalhar para o setor de petróleo, à medida que os veículos elétricos se tornarem mais econômicos do que os movidos a gasolina ou diesel, substituindo o uso diário de milhões de barris de combustível no fim da década de 2020. As projeções de décadas de crescimento da demanda que sustentam investimentos em projetos de petróleo podem ser equivocadas.

"A perspectiva de longo prazo, para mais de 10 anos, é com certeza menos otimista", disse Alex Blein, gerente de portfólio da Amundi, que tem sede em Londres e possui mais de US$ 1 trilhão em ativos. "Considerando os avanços na tecnologia de baterias, em 2030 os veículos movidos a carbono serão a exceção e não a regra. Isso inevitavelmente provocará um impacto na demanda de petróleo".

Novos cálculos

Em 2008, quando a Organização de Países Exportadores de Petróleo diminuiu a produção para dar suporte aos preços pela última vez, a decisão fazia sentido economicamente.

Naquela época, a expressão "pico do petróleo" descrevia o temor crescente de que o mundo estava ficando sem petróleo, de maneira que as reservas de um trilhão de barris do grupo seriam uma garantia para conseguir um preço mais alto no futuro. Esse cálculo pode estar mudando, com um risco cada vez maior de que alguns recursos talvez não sejam mais necessários.

O WEC, que assessora governos e outras organizações em matéria de política, esboça três cenários para a demanda de petróleo.

Se a rápida adoção de novas tecnologias e novos modelos de negócios interromper o sistema atual, a demanda poderia atingir um pico de 103 milhões de barris por dia em 2030, na comparação com cerca de 86 milhões em 2014, e cair 0,9 por cento por ano, para 80 milhões em 2060.

Uma adoção mais agressiva de políticas de redução de emissões de carbono poderia acarretar um pico mais baixo em 2030, de 94 milhões de barris diários, e o status quo implicaria uma estabilização da demanda em cerca de 104 milhões entre 2040 e 2050, disse o WEC.

O maior risco é que os recursos fiquem "presos", ou seja, que seu valor se evapore porque sua extração já não é mais rentável, disse o WEC. Se os produtores de petróleo não conseguirem superar os desafios do pico de demanda, "a destruição de enorme quantidade de valor para o acionista público e privado é inevitável".

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