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Análise: A Teoria dos Jogos dos voos com overbooking

Mohamed A. El-Erian

(Bloomberg) -- Devido ao grande problema que a United Airlines criou para si mesma depois que um passageiro foi arrastado de um voo lotado na semana passada, a Delta afirmou que poderia ampliar os incentivos para o "embarque recusado voluntariamente".

Os agentes agora poderão oferecer até US$ 2.000 para convencer os passageiros a desistirem de seus assentos, quantia significativamente maior que o limite anterior de US$ 800. Se a oferta não funcionar, os supervisores dos agentes poderão autorizar pagamentos de quase US$ 10 mil.

O objetivo da Delta é claro: usar o incentivo de preço para lidar com voos sobrevendidos e, assim, evitar a indignação alimentada nas redes sociais, que certamente ressurgirão se houver outra "reacomodação" (como a United inicialmente classificou o incidente) involuntária bagunçada.

À primeira vista, essa abordagem deverá funcionar no sentido de reduzir as situações de embarques recusados da Delta, que somaram um total estimado em 1.200 em 2016. E depois que uma grande empresa aérea aplicar um sistema do tipo, as demais deverão seguir o exemplo (particularmente grandes empresas, como American e United).

Conluio de passageiros

Mas e se as ideias da teoria dos jogos --e, particularmente, o potencial maior de pagamentos coletivos elevados por meio de possíveis conluios-- baseassem as reações dos passageiros? Eles estudariam formas de se enriquecerem à custa da empresa aérea.

Um exemplo: quando a empresa aérea chamar os voluntários, aqueles que estiverem dispostos a responder formariam um grupo consultivo que destacaria um passageiro para perder o voo e depois fecharia um acordo para negar as ofertas, coletivamente, até que as empresas aéreas se aproximassem de seu novo máximo de US$ 10 mil.

Nesse momento, o passageiro escolhido se apresentaria como voluntário, receberia a compensação, ficaria com uma boa parte dela e faria pagamentos paralelos menores para os demais membros do grupo.

Dificuldades da conspiração

É claro que a abordagem não é infalível. É difícil conseguir um conluio efetivo e um compromisso firme em um avião cheio de estranhos, especialmente considerando que os passageiros chegam ao portão de embarque em horários diferentes e que, após o voo, é improvável que interajam com seus colegas passageiros no futuro.

O incentivo para que um passageiro se recuse a fazer parte do grupo ou rompa com ele é considerável --especialmente porque não existem mecanismos fáceis de imposição de disciplina em um grupo.

Para aumentar os desafios da formação de coalizões efetivas, a compensação da empresa aérea provavelmente virá na forma de créditos de viagem, e não em dinheiro, o que tornaria complicado e difícil garantir os pagamentos paralelos.

Existe também o problema da participação não-genuína de passageiros que não têm um desejo real de se apresentarem como voluntários, mas que veem a situação como uma oportunidade de obter um pagamento potencial livre de riscos.

Redução do overbooking

Mesmo que os passageiros superem todos esses problemas é improvável que essas teorias de jogos permitam um "jogo repetido", no qual os passageiros se beneficiam repetitivamente da situação à custa da empresa aérea. Afinal, a empresa não tardaria em perceber que agora sua melhor abordagem de valor presente líquido é diminuir a exposição contingencial reduzindo as práticas de overbooking.

Então, isso significa que a proposta da Delta nada mais é do que uma estratégia inteligente de relações públicas pensada para tirar participação de mercado das outras empresas aéreas? Bem, provavelmente exista algum elemento desse tipo, mas isto está longe de ser fácil, especialmente porque outras empresas aéreas provavelmente seguirão o exemplo.

O resultado mais provável dessa mudança na política que rege o embarque recusado voluntariamente deverá se materializar sem notícias de destaque de passageiros que tiraram vantagem das empresas aéreas.

Em vez de efetuarem pagamentos chamativos, as empresas aéreas reduzirão a quantidade de assentos vendidos em voos com overbooking. E como alguns passageiros cancelarão no último minuto, algumas rotas populares podem acabar com assentos vazios.

Os passageiros terão uma experiência um pouco menos terrível, as empresas aéreas ganharão um pouco menos de dinheiro e as tempestades do Twitter se concentrarão em outros aspectos da experiência de viagem.

Esta coluna não reflete necessariamente a opinião do conselho editorial ou da Bloomberg LP e seus proprietários.

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