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Os novos ganhadores e perdedores do Nafta na América do Norte

Erik Wasson, Joshua Wingrove e Eric Martin

12/12/2019 17h12

(Bloomberg) -- Empresas, trabalhadores e congressistas de três países passaram o último ano no limbo, aguardando os retoques finais do acordo de livre comércio EUA-México-Canadá. Agora, todos têm uma noção melhor de quem ganhou e de quem perdeu.

O acordo aguarda votação na semana que vem na Câmara dos Deputados dos EUA, onde os democratas fizeram com sucesso revisões de última hora para garantir a aprovação. O Senado dos EUA planeja votar o projeto em 2020, enquanto as legislaturas no México e no Canadá também terão que ratificar o acordo atualizado.

Embora o chamado acordo "USMCA" marque uma vitória política para o presidente Donald Trump enquanto busca a reeleição, o benefício geral para o PIB dos EUA é pequeno: um aumento de 0,35% no sexto ano do acordo, segundo estimativas oficiais do governo norte-americano. No entanto, como todos os acordos comerciais, o pacto cria ganhadores e perdedores na comunidade empresarial. Líderes políticos dos países, indústrias siderúrgicas e consumidores on-line são beneficiados, enquanto empresas farmacêuticas dos EUA, empresas mexicanas e produtores de leite canadenses ficam em segundo plano.

Os vencedores: Trump, Trudeau, consumidores on-line

Exportações agrícolas dos EUA: Laticínios e aves dos EUA conseguem novo acesso ao mercado do Canadá e há alguns ganhos para trigo e bebidas alcoólicas. O impulso é pequeno, mas agricultores esperam que o progresso de um acordo comercial sinalize o fim da guerra comercial com a China.

Empresas de Internet: O USMCA possui uma nova seção de comércio digital que ajudará empresas de Internet com uso intensivo de dados a evitar requisitos onerosos de armazenamento e tributação de dados. O setor reprimiu uma tentativa de última hora de remover proteções contra processos para empresas como a Alphabet, dona do Google, Facebook e Twitter para o conteúdo postado pelos usuários.

Consumidores on-line e Amazon.com: O acordo aumentará os limites do Canadá e do México acima dos quais os consumidores pagam impostos em uma remessa para outros países. Isso significa, por exemplo, que os canadenses agora poderão comprar mais on-line e sem impostos.

Empresas dos EUA: Grupos empresariais, como a Associação Nacional de Fabricantes e o Instituto Americano do Petróleo, pressionaram muito para que todas as partes participassem, porque queriam eliminar a possibilidade, ainda que remota, de que Trump acabasse com o livre comércio na América do Norte. O aumento da confiança dos empresários pode significar que o benefício econômico da aprovação do acordo supera as expectativas.

Presidente dos EUA, Donald Trump: Menos de uma hora antes de os democratas da Câmara dizerem que pretendiam votar o acordo comercial de Trump, haviam apresentado artigos de impeachment contra ele. A finalização deste acordo dá a Trump uma vitória política muito necessária, enquanto luta contra o impeachment e concorre à reeleição em 2020.

Primeiro-ministro do Canadá, Justin Trudeau: O país teve alguns problemas, incluindo a manutenção dos chamados painéis de disputa do capítulo 19 contidos no antigo Nafta, que os negociadores americanos queriam eliminar, mas admitiram manter. Uma das grandes concessões do Canadá concordava em aumentar a proteção de patentes para medicamentos biológicos, mas isso foi removido da versão final. Isso significa que o Canadá alcançou uma de suas principais metas e não precisará seguir uma de suas principais concessões.

Presidente do México, Andrés Manuel López Obrador: Embora o setor privado do México esteja preocupado com parte do acordo - incluindo o processo para queixas trabalhistas -, o presidente mexicano emergiu como vencedor. A finalização do acordo significa que López Obrador conseguiu manter o livre comércio com os EUA, o maior parceiro comercial do país. Não fazer isso e ver Trump sair do Nafta poderia ter sido catastrófico para a estagnada economia mexicana.

Os perdedores: farmacêuticas, empresas mexicanas, fazendeiros canadenses

Fabricantes de medicamentos: Grandes associações da indústria farmacêutica, como PhRMA e BIO, são contra o acordo, e a Câmara dos EUA disse que está "decepcionada" com as disposições sobre medicamentos. O USMCA, como originalmente negociado por Trump, estabeleceria 10 anos de proteção de dados para medicamentos biológicos. É um prazo mais baixo do que os 12 anos nos EUA, mas exigiria que o Canadá e o México oferecessem mais proteção, provavelmente aumentando os preços dos medicamentos. Essa disposição foi removida no último minuto por insistência dos democratas que trabalham para reduzir os preços dos medicamentos nos EUA.

Empresas transfronteiriças: O novo acordo elimina principalmente o capítulo 11 dos painéis de solução de controvérsias, que costumavam ser uma via para as empresas processarem governos por decisões políticas. O novo acordo dará aos governos mais margem de manobra para fazer mudanças, mesmo que isso signifique puxar o tapete de um negócio.

Empresas mexicanas: O setor privado não gostou de o México ter feito muitas concessões na negociação final e recebido pouco em troca, além da manutenção do livre comércio. Gustavo de Hoyos, diretor da câmara de comércio Coparmex, disse que o conselho das empresas mexicanas não foi suficientemente seguido. A principal preocupação é que novas disposições trabalhistas possam deixar as fábricas mexicanas vulneráveis a processos frívolos.

Produtores de leite canadenses: Uma das grandes barganhas do Canadá foi negociar uma fatia do seu mercado de laticínios protegido, o que é um problema em todas as negociações comerciais do país. O governo anunciou uma compensação de 1,35 bilhão de dólares canadenses (US$ 1,3 bilhão) aos produtores de leite por dois outros acordos comerciais e prometeu apoio semelhante assim que o USMCA entrar em vigor.

Pecuaristas dos EUA: O grupo de criadores de gado R-CALF USA criticou o acordo, dizendo que o fracasso em restaurar a rotulagem do país de origem para a carne bovina permite que os produtos importados continuem em concorrência desleal com pecuaristas dos EUA.

Indústrias canadenses e americanas de alumínio: Associações dos dois países expressaram decepção - a Associação de Alumínio do Canadá disse que deixar regras como fundição fora do acordo tornaria o México "mais ou menos o quintal norte-americano da China para descartar os produtos de seu excesso de capacidade". A Associação Mexicana de Alumínio respondeu que o país não importa alumínio bruto da China e não precisará importar enquanto a região continuar sendo uma opção competitiva de mercado.

Grupos ambientalistas: O Sierra Club e o Conselho de Defesa dos Recursos Naturais se manifestaram contra o acordo. Os ambientalistas queriam disposições sobre mudanças climáticas no USMCA, algo que os democratas concluíram que não aconteceria sob comando de Trump.

--Com a colaboração de Shawn Donnan, Jenny Leonard, Joe Deaux, Josh Eidelson, Ari Natter e Michael Hirtzer.

Para contatar o editor responsável por esta notícia: Daniela Milanese, dmilanese@bloomberg.net

Repórteres da matéria original: Erik Wasson Washington, ewasson@bloomberg.net;Joshua Wingrove em Ottawa, jwingrove4@bloomberg.net;Eric Martin em Cidade do México, emartin21@bloomberg.net