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Órgão do Ministério da Economia quer corte de jornadas e salários após a pandemia

Presidente do Ipea, o economista Carlos von Doellinger disse que medidas são as "mais viáveis" e que trariam "impactos para a economia" do país - Fátima Meira/Futura Press/Estadão Conteúdo
Presidente do Ipea, o economista Carlos von Doellinger disse que medidas são as "mais viáveis" e que trariam "impactos para a economia" do país Imagem: Fátima Meira/Futura Press/Estadão Conteúdo

Idiana Tomazelli

Em Brasília

22/07/2020 08h10Atualizada em 22/07/2020 14h16

O Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) propôs hoje em um documento uma desoneração temporária de tributos sobre salários, com maiores benefícios para contratos de jornada parcial, e a extensão dos instrumentos que permitem redução de jornada e salários na crise. O órgão é vinculado a pasta da Economia.

As sugestões constam no "Brasil Pós Covid-19", lançado hoje em meio ao aumento do desemprego e à preocupação do governo com a retomada da geração de vagas no mercado de trabalho no momento pós-pandemia de coronavírus.

No caso da autorização para cortes de jornada e salário, o Ipea argumenta que os efeitos devem permanecer mesmo após a fase mais aguda da pandemia, deixando empresas em situação de dificuldade. O foco dessa ação seria a preservação de empregos.

Por outro lado, o órgão reconhece que o governo não possui recursos suficientes para seguir bancando compensações aos trabalhadores atingidos por essas negociações. A União já destinou R$ 51,2 bilhões ao pagamento do benefício emergencial para empregados que fecharam acordos de redução de jornada e salário ou suspensão de contrato.

Na proposta, o formato dos acordos seria ajustado para caber no orçamento. Não seria mais permitida a suspensão do contrato — que obriga o governo a pagar a parcela cheia do seguro-desemprego que seria devido em caso de demissão.

As empresas que adotaram essa modalidade poderiam migrar para uma redução de jornada e salário de até 70%.

Já os acordos de redução de jornada e salário, que hoje permitem corte de até 70%, ficariam restritos a diminuições de 25% e 50%. Na avaliação do Ipea, a medida poderia vir acompanhada de maior adiamento em pagamento de tributos para as empresas que mantiverem os pagamentos dos salários, ainda que de forma parcial, e oferta de empréstimos em "condições facilitadas" aos trabalhadores.

Desoneração com tempo certo

Os técnicos do órgão defendem uma política desenhada para alavancar a geração de novos postos de trabalho. Para isso, propõem uma desoneração temporária de tributos sobre salários, para que as companhias tenham incentivos nas contratações.

Os benefícios seriam diferenciados de acordo com o contrato: um empregado com jornada parcial, de 20 horas, traria incentivo maior para a empresa, com redução de 15 pontos porcentuais na alíquota de 20% de contribuição sobre a folha, do que um de jornada integral, de 40 horas.

O foco da desoneração seria a contratação de funcionários com salário equivalente a até três salários mínimos — cerca de R$ 3.135. O estudo não detalha qual seria o custo da política, mas propõe como fonte de recursos uma taxação adicional sobre horas extras pagas aos trabalhadores e uma alíquota extra em contratos que ultrapassem as 40 horas semanais.

"Destravar" investimentos no país

Dividido em quatro eixos, o estudo do Ipea traz uma série de sugestões de iniciativas para melhorar o ambiente de negócios no Brasil.

Há ações focadas nas atividades produtivas e reconstrução das cadeias de produção, inserção internacional, investimento em infraestrutura e proteção econômica e social de populações vulneráveis — o que inclui um benefício universal infantil para menores de 18 anos, ao custo de R$ 26,6 bilhões. O programa seria feito a partir da unificação de benefícios do Bolsa Família, salário família e dedução de dependentes do IRPF (Imposto de Renda da Pessoa Física).

Carlos von Doellinger, presidente do Ipea, afirma que o documento é um "ponto de partida" para as discussões que começam a se aprofundar no governo.

"Tentamos mostrar caminhos específicos. Selecionamos os mais viáveis e os que teriam maior impacto na economia", diz.

O estudo destaca ainda a necessidade de continuar o ajuste nas contas públicas e aprovar reformas para controlar a trajetória de gastos, afetada devido à necessidade do governo de abrir os cofres para bancar ações de combate à covid-19.

No texto, os pesquisadores defendem a aprovação das reformas do Pacto Federativo, que garante instrumentos para conter o avanço de despesas na União e nos governos regionais, da desvinculação dos fundos e a reforma administrativa.

A partir dessas medidas de ajuste, o governo já conseguiria ter uma recuperação em 2021, com crescimento de 3,6% do PIB no ano que vem, após um tombo estimado em 6% em 2020.